110 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA: Apesar do atraso no cronograma, Kikuchi afirma estar ‘tranquilo’: ‘Se não desse tempo não aceitaria’

Ex-presidente do Enkyo (Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo), Yoshiharu Kikuchi, escolhido para o cargo de diretor executivo da comissão paulista para os festejos dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil, atendeu a reportagem do Jornal Nippak no último dia 17, numa das salas da entidade que presidiu por muitos anos – deixou a Presidência no final de dezembro de 2016, passando o bastão para Akeo Yogui. Uma das mais destacadas personalidades da comunidade nipo-brasileira por sua dedicação e trabalho à frente de entidades assistenciais e de saúde, Kikuchi foi logo avisando: “Nós estamos atrasados. Ainda temos que fazer a logomarca porque a iniciativa precisa partir de São Paulo, como nas comemorações do Centenário da Imigração e dos 120 Anos do Tratado de Amizade”.

 

Kikuchi pretende “encaixar” a cerimônia dos 110 Anos dentro do Festival do Japão de 2018. Foto: Aldo Shiguti

 

Não é para menos. Convidado há menos de um mês, ele sabe que tem que correr contra o tempo. Mas garante que está tranquilo.”Tenho experiência trabalhando no Enkyo e no Kenren, se achasse que não conseguiria não aceitaria o cargo”, afirma. Por sinal, nem mesmo o fato ter sido chamado após negativas de outros nomes, parece o incomodar. Nascido na Província de Iwate – desembarcou em solo brasileiro em 1959 – Kikuchi também não se mostra preocupado com as críticas que o cargo não deveria estar sendo ocupado por um issei. Escolhido, entre outros motivos, por sua boa relação com o Japão, Kikuchi espera responder com que o sabe fazer de melhor: trabalho. E trabalho é o que não falta.

Esta semana, ele pretende começar a elaborar um calendário de atividades que, por sinal devem se resumir em dois eventos principais ao longo de 2018. Um deles é a realização de uma cerimônia dentro do 21º Festival do Japão, no São Paulo Expo Exhibition & Convention Center. O outro é a vinda de um membro da família imperial. Na terça (21), ele apresentou a ideia aos representantes das cinco entidades, e ontem, (22), conversaria com alguns jovens para expor suas ideias.

 

Lámen – Para Kikuchi, a união dos 110 anos com o Festival do Japão fortaleceria os dois eventos. Segundo ele, de uns tempos para cá, o Kenren [Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil], entidade responsável pela realização do evento em conjunto com os Kenjinkais (associações de províncias) vem sofrendo para dar continuidade ao festival, considerado o maior evento da cultura japonesa no mundo.

“É preciso mudar a mentalidade do Festival e os 110 anos é uma boa oportunidade para o início dessa mudança. Por exemplo, antigamente só se falava em sushi e sashimi. Hoje, já se fala muito em lámen. Ou seja, é preciso mostrar que as relações Brasil-Japão estão em um novo patamar e trazer novos artistas, coisas novas na culinária e também na tecnologia. A renovação vai acontecer gradativamente e as novas gerações também vão se sentir atraídas”, diz Kikuchi, explicando que o público do Festival do Japão tem permanecido estável, ou seja, se por um lado não tem caído também não tem aumentado.

 

Significado – “Se houver uma renovação, o público aumenta. Uma das alternativas seria convidar a Província de Tóquio, que sediará os Jogos Olímpicos de 2020, e encaixar na programação do Festival também às comemorações dos 110 anos”, conta, destacando que “a fonte de ajuda”, isto é, as empresas japonesas para a captação de recursos, são as mesmas. “Então, uma solução seria reunir os dois eventos em um só”, observa Kikuchi, lembrando que, antes de dizer o “sim” refletiu bastante sobre o significado da data.

 

Orçamento – Para ele, os 110 anos não causa tanta “comoção” quanto o Centenário. “Acho que a data é vista mais como uma passagem. Mas para mim é importante para que haja uma renovação na comunidade nipo-brasileira. O [Sussumu, pesquisador do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros – Jinmonken] Miyao costuma dizer que a comunidade está cada vez mais se misturando com a sociedade brasileira e um dia a tendência é que acabe. No Centenário tivemos bastante apoio e divulgação não só do governo brasileiro como também por parte da mídia, mas na verdade o que sobrou? Apenas a história dos 100 anos. Parou por aí, mas a histrória continua. Então os 110 anos marca o início de uma nova etapa”, explica Kikuchi, acrescentando que “até nos 90 anos da imigração havia uma forte união dos pioneiros”.

“Já no Centenário constatamos uma grande presença dos nisseis. Agora, a terceira e quarta gerações é que tem se unir mais. Até porque eles também são fortes financeiramente. A maioria dos isseis hoje encontram-se na casa dos 90 anos e já não tem mais tanto poder aquisitivo”, diz o diretor, que calcula em um gasto de cerca de R$ 1.500.000,00 só nos festejos dos 110 anos.

 

Para Kikuchi, uma alternativa para levantar recursos para as atividades dos 110 anos seria a venda de rifas. Foto: Aldo Shiguti

 

Rifa – Para levantar recursos, Kikuchi aposta na venda de rifas. “Participei das comemorações dos 90 anos, do Centenário e dos 100 anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação. Naquela época, o Fujio Tachibana, que presidia a Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil, convocou as empresas e arrecadou carros, que foram rifados. Metade da verba arrecadada com a venda das rifas foi usada na festa e outra parte serviu de fundo para os 110 anos do Tratado. Nas comemorações dos 120 Anos, o então embaixador Kunio Umeda se empenhou pessoalmente, mas desta vez não vai sair dinheiro. Por isso, minha sugestão é para pedirmos carro, não dinheiro. Até setembro tem que estar legalizado e começar a vender até o final deste ano  para ver se até 2018 a gente consegue fazer caixa”, diz.

Caso a ideia de realizar dois eventos em um tenha êxito, Kikuchi afirma que “o Festival do Japão cresceria e o lucro também”. “Tanto o Festival quanto a comissão dos 110 anos economizariam. Para isso, poderíamos agregar um outro anexo do São Paulo Expo que hoje não faz parte do Festival do Japão, aumentando consideravelmente a área para o público e que poderia acomodar as atrações voltadas para o público mais jovem, como apresentações de taiko e danças jovens como o Matsuri Dance”, conta Kikuchi, destacando que a área é coberta e poderia ser usada também para as cerimônias de abertura do Festival do Japão e dos 110 Anos.

Segundo apurou o Jornal Nippak, outra sugestão era usar o Estádio Municipal do Pacaembu, palco das comemorações dos 70 anos da imigração japonesa no Brasil. Apesar de afirmar que não reprova a ideia, Kikuchi se mostra receoso quanto a utilização do equipamento.

“Dificilmente a comunidade conseguiria repetir um evento como o que foi realizado lá em 1978. Hoje, o Pacaembu só pode ser usado para eventos esportivos, o que não é o caso dos 110 Anos”, diz Kikuchi, lembrando que “naquela época, estava muito frio e os oditians e obatians que foram participar sofreram muito”.

“Não tinha comida, não tinha banheiro…  Além disso, as apresentações não tiveram muito destaque. O que salvou foi aquele painel”, diz Kikuchi, que também descarta o uso do Anhembi. “Todas as recentes tentativas de usar o Anhembi não deram em nada”, conta ele, que espera participar também da montagem da equipe, cujo organograma também está atrasado.

 

Diretor quer participar da montagem da equipe, que também está atrasada: “Precisamos de gente nova”. Foto: Aldo Shiguti

 

Jovens – “Gostaria que houvesse uma renovação. Gostaria de chamar representantes de outros setores. Sei que tem aquelas pessoas que sempre estão presentes, mas tem também outros grupos fortes financeiramente que podem ajudar”, conta, acrescentando que também pretende “encaixar” representantes das novas gerações. “Os jovens sempre alegam que estão ocupados, mas são eles que teriam que ter assumido o comando depois do Centenário, mas infelizmente, não foi isso que aconteceu”.

Para Kikuchi, os  nisseis ainda tem uma certa desconfiança de participar de eventos da comunidade pelo fato de os pais terem sofrido muito. “Mas a terceira, quarta e quinta gerações não tem essa preocupação”, diz, antecipando que outra frente a ser trabalhada é a vinda de membros da família imperial.

 

Para receber a visita da família imperial, Kikuchi espera incluir na agenda uma visita à região da Noroeste paulista. Foto: Aldo Shiguti

 

Família imperial – Caso seja confirmada, a ideia é elaborar um roteiro que inclua cidades da Noroeste paulista, que já estão empenhadas e trabalhando no sentido de receber as ilustres visitas. Na capital paulista, a agenda deve ser o Bunkyo ou o Palácio do Morumbi. O problema deve ser a agenda, já que o Paraná também está pleiteando a visita.

“A Casa Imperial do Japão só se pronuncia seis meses antes da vinda. Antes de um ano nem pensar. Então não dá para reservar local muito menos uma data”, conta Kikuchi, afirmando que “na verdade, o comunicado oficial só sai três meses antes da visita”.

De qualquer forma, Kikuchi pretende ir para o Japão em julho para apresentar o projeto para as autoridades locais. A visita deve ocorrer depois das eleições em algumas províncias japonesas. A ideia é ir como representante dos 110 Anos e também do Kenren.

Para Kikuchi, é importante que a comunidade deixe um legado para as novas gerações. E os 110 anos podem ser o pontapé para isso.

 

ALDO SHIGUTI

ALDO SHIGUTI

Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
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