110 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA: Doria cobra ‘disciplina’, ‘planejamento’ e investimentos de empresas japonesas

‘Puxão de orelhas’, apelo, desafio… Teve de tudo um pouco na quarta reunião do prefeito João Doria (PSDB) com os vereadores nikkeis – Aurelio Nomura (PSDB), George Hato (PMDB) e Rodrigo Goulart (PSD) – e representantes da comunidade nikkei para definir as ações da Prefeitura para as comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil. Realizada nesta segunda-feira (19), no Gabinete do prefeito, a reunião teve como objetivo prosseguir com os entendimentos com vista ao 21º Festival do Japão, que celebrará os 110 anos da imigração japonesa, e discutir a parceria para o programa de zeladoria urbana para o bairro da Liberdade.

 

Doria cobra ‘disciplina’, ‘planejamento’ e apoio das empresas japonesas. Foto: Aldo Shiguti

 

Em sua explanação inicial, Doria deixou claro que o objetivo da Prefeitura é “apoiar, institucionalizar, promover, mas não gastar”. “Nós não utilizaremos dinheiro público para nenhuma festividade. É assim que nós temos feito desde o início da nossa gestão”, disse o prefeito, que citou o carnaval de rua de São Paulo como exemplo de parceria bem sucedida entre poder público e a iniciativa privada.

“Acabamos de realizar o maior carnaval do país, com 12,3 milhões de pessoas nas ruas em 15 dias e não gastamos um centavo. E quero deixar claro que todas as empresas e empresários que apoiaram o carnaval de São Paulo já asseguraram que vão contianuar a fazê-lo no ano que vem. É um bom exemplo de como fazer um evento bem realizado a custo zero para o dinheiro público mas com vantagens e benefícios para as empresas privadas que patrocinaram e apoiaram a nossa iniciativa”, explicou Doria, que ouviu da cônsul adjunto do Japão, Hitomi Sekiguchi, a posição do governo japonês.

Representando o cônsul geral Yasushi Noguchi – que não pode participar da reunião porque estava em viagem ao Japão – Sekiguchi lembrou que, “desde o início foi colocado junto à comunidade que o governo japonês não teria condições de apoiar financeiramente as atividades que a Comissão da programação dos 110 anos iria realizar durante este ano”. “Obviamente, como o senhor mesmo mencionou, o Japão considera muito essa relação [com a comunidade nikkei], a importância dos imigrantes e a parceria com o Brasil. Isso está fora de qualquer dúvida. No entanto, a própria Prefeitura também não coloca dinheiro em diversas atividades, o governo japonês também não pode investir financeiramente nestas atividades. Nós temos algumas coisas pontuais que podemos estar começando junto com a colônia, mas acima de tudo, a festividade que é muito importante. Caso venha alguém [do Japão] daremos o suporte necessário para recepção desta autoridade e comemorar junto com a colônia japonesa daqui esse marco histórico”, contou Sekiguchi, destacando que a Japan House São Paulo, uma iniciativa global do governo japonês, também estuda uma parceria com a comunidade nikkei “para fazer algo que fique como legado desta comemoração”.

 

Secretário Júlio Serson, o vice Bruno Covas, o prefeito João Doria e a cônsul adjunto Hitomi Sekiguchi. Foto: Aldo Shiguti

 

Disciplina – O ambiente ficou um pouco mais pesado quando o prefeito quis saber sobre o Festival do Japão. “Quem ficou com a reponsabilidade de conduzir o tema do Festival do Japão? Quem ficou com essa incumbência? Houve alguém do setor privado, da Câmara de Comércio? Ficou definido ou não? Fizeram uma reunião ficou tudo em aberto, vamos que vamos?”, observou Doria, que diante do silêncio emendou uma crítica mais contundente. “Tem que melhorar essa disciplina, pessoal. Não estão parecendo japoneses. Se tem um país que tem disciplina e planejamento é o Japão. [Vocês] Não podem participar de uma reunião com o prefeito e não trazer projeto. Está errado. Estamos no limiar da festividade, vocês vem para uma reunião com o prefeito da cidade de São Paulo e não trazem o projeto? Desculpa falar, mas está errado. Tem que ter discplina, planejamento”, reclamou Doria.

Diante da intervenção do vereador Rodrigo Goulart, explicando que “já existe um comitê que está tratando especificamente sobre as festividades”, o prefeito quis saber o que ocorrerria e quem financiaria o evento. O  presidente da Comissão de Relações Governamentais do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Carlos Kendi Fukuhara, explicou que a comemoração dos 110 anos da imigração japonesa será realizada “dentro do contexto do Festival do Japão”. “A cerimônia principal será realizada  no dia 21 de julho, um sábado, com a presença da princesa Mako. Dentro do Festival estamos aguardando mais de 200 mil pessoas e no dia 21, com a presença da princesa, nós faremos um grande evento com a participação de mais de 5 mil pessoas na cerimônia. Este evento não é só para os japoneses, é para a sociedade como um todo. Acredito que será o maior evento já realizado dentro da sociedade brasileira em São Paulo. Virão pessoas de países vizinhos como da Argentina, Uruguai e Paraguai”, explicou Carlos Kendi Fukuhara.

Doria argumentou que o Festival do Japão é um “evento poderoso, bem organizado, mas de acesso restrito”. “Uma celebração desta dimensão, 110 anos da imigração japonesa, contribuição enorme ao país, uma comunidade que é a maior fora do Japão, que ajudou a construir a cidade, expoente do mundo empresarial – os que cultivaram o empreendedorismo aqui e os que trouxeram marcas japonesas para cá – não tem nenhuma atividade pública?”, indagou o prefeito.

 

Elisabeth Cayres. Foto: Aldo Shiguti

 

Tao e Qual – Como resposta, recebeu do presidente da Comissão de Administração do Pavilhão Japonês, Léo Ota, a informação que já estava em andamento o projeto Tao e Qual, conforme anunciado pelo Jornal Nippak. Trata-se de um musical que pretende contar a história dos dois povos através de artistas brasileiros e japoneses.

Concebido por Elisabeth Cayres – criadora do Percpan (Panorama Percussivo Mundial) – um dos mais conceituados festivais de música percussiva do mundo – em parceria com o flautista Shen Ribeiro, o musical deve ocorrer no dia 21 de julho, no São Paulo Exhibition & Convention Center (zona Sul de São Paulo), como parte da cerimônia oficial das comemorações dos 110 Anos, que será realizada concomitantemente com o 21º Festival do Japão.

Produzido pela diretora teatral Bia Lessa e o produtor musical Alê Siqueira, a ideia é apresentar o musical no dia 22 de julho no Auditório do Ibirapuera, em evento aberto público. Outras duas apresentações devem ocorrer no Japão, nos dias 28 e 29 de julho, no Teatro Bunkamur.

Do lado brasileiro estarão nomes como Fernanda Takai, Shen Ribeiro, Coral Guarani, Camilo Carrara e o grupo Ilê Ayiê. Do Japão devem vir Takashi Numazawa, Tsubasa Imamura, Gocoo Tokyo Tribal Groove Orchestra e o grupo de taiko Kodo, além de Arto Lindsay. O custo estimado é de R$ 1,3 milhão, segundo Beth Cayres.

 

Léo Ota apresentou o projeto Tao e Qual. Foto: Aldo Shiguti

 

JapanParede – Baseada na experiência da CowPare,  maior evento de arte a céu aberto do mundo, Catherine Duvignau, da TopTrends – empresa responsável por montar as exposições de esculturas de vacas em fibras de vidros em mais de 45 cidades brasileiras –, apresentou o projeto JapanParede, uma exposição de arte de rua composta por esculturas símbolos do Japão – foram apresentados o tsuru, carpa e o Maneki Neko.

A ideia, explicou Catherine, além de homenagear os 110 anos da imigração japonesa, é valorizar a cultura nipônica através da arte e pintura de artistas locais. Segundo ela, a proposta é espalhar 110 esculturas de 190 cm de altura pela cidade. As esculturas ficariam expostas um mês e o evento culminaria com um leilão de algumas peças.

Doria aprovou a ideia e até deu um palpite do tema de sua preferência. “A ideia do origami [tsuru] para mim é mais inovadora e permitiria expressões mais diferenciadas enquanto o peixe e o gatinho são mais limitados. Origami traz um sentimento artístico mais forte. E mais multiplo também. Ainda melhor [que é a logomarca dos 110 anos]”, disse Doria que sugeriu que se façam “uma, duas, três, quatro esculturas maiores, com um tipo de material mais definitivo, para serem doadas para a cidade”.

 

Apresentação do projeto JapanParede. Foto: Aldo Shiguti

 

Bandeiras japonesas – De acordo com Doria, a ideia é “incentivar para que corporações coloquem obras de arte na cidade”. “Um edifício sede, um banco, de uma corporação japonesa ou uma rede de varejos que queiram ter uma escultura em sua área externa terá aprovação pela Prefeitura para fazê-lo”, antecipou o prefeito, que também cogitou a possibilidade de, no dia 21 de julho, substituir as bandeiras brasileiras por bandeiras japonesas nos mastros das principais avenidas de São Paulo como forma de homenagear o Japão durante a passagem da princesa Mako pela capital paulista.

“Primeiro precisamos ver se não tem um impedimento legal. Se puder, seria um gesto também da cidade e do pais em homenagear a comunidade japonesa permitindo que se colocasse a bandeira do Japão neste dia, especificamente, para homenagear a família imperial japonesa. Nos Estados Undos acontece, na Alemanha acontece, na Fança acontece. Acho que a comunidade japonesa ficaria feliz em oferecer as bandeiras”.

 

Aurélio Nomura, Rodrigo Goulart e George Hato. Foto: Aldo Shiguti

 

Bairro da Liberdade – Já sobre a requalificação do bairro da Liberdade, Doria ouviu do presidente da Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil, Aiichiro Matsunaga, que os empresários japoneses estão dispostos a colaborar comas festividades. “Mas achamos que recuperação de edifícios e ruas não seria responsabilidade nossa”, ponderou Matsunaga. “O que podemos fazer, por exemplo, o Museu da Imigração, é um simbolo para todos os japoneses e está muito deteriorado. Muitas companhias japonesas estão dispostas a apoiar sua recuperação”, observou.

Doria, mais uma vez, demonstrou insatisfação. “A comunidade japonesa, do ponto de vista de sua importância para a economia da cidade, é expressiva. Aliás, mais até que outros países com os quais temos feitos acordos de coperação e que tem contribuído para a cidade. Não faz sentido, ao meu ver, sendo a comunidade japonesa a maior fora do Japão, sendo a cidade que recebeu e abrigou milhares de imigrantes japoneses e ao longo de 110 anos deu oportunidade para milhares de famílias, é razoavel que essa mesma comunidade queira deixar uma marca para a cidade e não para a comunidade. É uma visão um pouco mais ampla. Cuidar do museu é importante, bom, adequado, mas o museu atende interesse prioritariamente da comunidade japonesa. Já uma intervenção no bairro da Liberdade, ainda que seja o bairro da comunidade japonesa, ali frequenta todos os brasileiros e estrangeiros, além de ser um bairro turístico. Então, não faz  sentido estar ausente desta ação”, justificou o prefeito, acrescentando ainda que, das três alternativas para a requalificação do bairro da Liberdade, “a que tem o maior custo representa um quinto do maior custo que teve, por exemplo, a comunidade italiana”. “A comunidade italiana gastou cinco vezes mais do que o projeto de maior custo [para o bairro da Liberdade], que é de R$ 4,5 milhões, o que representa cinco vezes menos que o investimento da comunidade italiana. Não é nenhuma coisa de outro mundo “, disse Doria, que sugeriu uma “combinação de investimentos”, com emendas parlamentares dos quatro vereadores nikkeis e apoio da iniciativa privada.

 

Catherine Duvignau. Foto: Aldo Shiguti

 

 

Apelo e desafio – E, por fim,  Doria ouviu um pedido – quase um apelo – inusitado feito pelo presidente da Acal (Associação Cultural e Assistencial da Liberdade), Hirofumi Ikesaki. “Desejamos muito a revitalização do bairro, queremos que a Liberdade seja um bairro exemplar da cidade de São Paulo, mas infelizmente o projeto que agregaria o nome Japão à Praça da Liberdade foi vetado [pelo prefeito]. Peço uma segunda chance para reverter esse veto. Estamos comemorando 110 anos da imigração japonesa e é um ano muito importante para nós. O senhor é um homem poderoso. Tenho certeza que dentro de 10 anos o senhor será presidente. Peço para nos dar uma chance antes de deixar o governo. Assim a gente fica totalmente satisfeitos”, pediu Ikesaki.

 

Hirofumi Ikesaki levou edição do jornal Nippak. Foto: Aldo Shiguti

 

Força – Doria prometeu não só avaliar a questão como também propôs um “desafio”. “Não tenho como dizer não ao senhor pelo respeito que tenho pelo senhor e sua família. Vamos avaliar sim em reunião com a Comissão de Urbanismo, Planejamento e Licenciamento porque há alguns registros limitadores. Vamos ver se encontramos alternativas que permite essa identificação sem ferir a lei e abrir campo para amanhã outras praças e ruas que já têm nomes se acrescente nomes o que contraria a legislação. Desafio para juntos fazermos, juntos revertermos duas expectativas: a de que nada seria feito na Praça da Liberdade e a de que o nome não poderia agregar o nome do Japão a esta praça . Se o senhor assumir este compromisso, saímos os dois daqui compromissados com esta nova etapa. Da minha parte está aceito o desafio. Da sua está aceita?”

“Estou de acordo”, respondeu Ikesaki, que no dia seguinte confirmou a reportagem do Jornal Nippak que, caso o prefeito cumpra sua parte, também ele sairá em busca de recursos para a requalificação do bairro da Liberdade. “Temos força para isso”, garantiu Ikesaki.

 

 

ALDO SHIGUTI

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Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
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