110 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA: Por enquanto, ‘Praça da Liberdade Japão’ é o único legado de ação conjunta para os 110 anos

De saída da Prefeitura de São Paulo – deve renunciar ao cargo no dia 6 de abril para disputar a sucessão de Geraldo Alckmin (PSDB) – João Doria (PSDB) praticamente “bancou” a alteração do nome da Praça da Liberdade que a partir do dia 18 de junho passará a ser denominada Praça da Liberdade – Japão”, conforme antecipou o Jornal Nippak. Em contrapartida, o empresário e presidente da Acal (Associação Cultural e Assistencial da Liberdade), Hirofumi Ikesaki ficará responsável pela captação de recursos para as obras de revitalização, que devem começar no dia 5 de abril e terminar no dia 5 de junho.

 

Em tom de despedida, Doria ‘banca’ alteração do nome da Praça da Liberdade para ‘Praça da Liberdade – Japão’. Foto: Aldo Shiguti

 

Esse, aliás, foi o único ponto que avançou na quinta reunião realizada nesta quarta-feira, 21, no gabinete do prefeito, com representantes da comunidade japonesa, vereadores nikkeis e o Consulado Geral do Japão em São Paulo. Reunião, por sinal, esvaziada com a ausência de representantes que haviam comparecido nos encontros anteriores, como a presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Harumi Goya, e dos vereadores Ota (PSB) e George Hato (PMDB).

Dois outros projetos culturais, o musical Tao e Qual e a intervenção JapanParade, estão, como disse o próprio prefeito, “com sinal de alerta aceso”. Isso depois de Catherine Duvignau, sócia diretora da Toptrends – empresa responsável pela CowParade – anunciar que “hoje a captação é zero”.

“Estou com dificuldades até mesmo para conseguir apresentar o projeto para as empresas”, disse  Duvignau, que atribuiu a dificuldade ao “conflito de projetos”. Segundo ela, todas as empresas consultadas, como a Mitsui e a Mitsubishi, estão envolvidas com outros projetos. “Do lado brasileiro”, conta, empresas como a Petrobrás, instituições financeiras como o Banco do Brasil, e a Caixa Ecônomica Federal, além do BNDES, “não podem participar ou não tem interesse” em patrocinar a esposição.

Baseada na experiência da CowParede,  maior evento de arte a céu aberto do mundo, a JapanParede seria uma exposição de arte de rua composta por esculturas símbolos do Japão – foram sugeridos o tsuru, a carpa e o Maneki Neko.

A ideia, explicou Catherine, além de homenagear os 110 anos da imigração japonesa, é valorizar a cultura nipônica através da arte e pintura de artistas locais. Segundo ela, a proposta era espalhar 110 esculturas de 190 cm de altura pela cidade. As esculturas, com custo estimado em cerca de R$ 50 mil cada peça, ficariam expostas um mês e o evento culminaria com um leilão de algumas obras.

 

O prefeito João Doria, o cônsul geral, Yasushi Noguchi, e a cônsul adjunto, Hitomi Sekiguchi. Foto: Aldo Shiguti

 

Plano B – Diante da dificuldade,  Duvignau sugeriu um “plano B”, com apenas 20 peças. Para o presidente da Comissão de Administração do Pavilhão Japonês, Leo Ota, uma reunião marcada para o próximo dia 27 com a Dentsu, a agência que atende os 110 anos e tem clientes como a Toyota, Nissin, Ajinomoto e Salonpas, pode ser decisiva.  Ota, porém, antecipou que. “se não tiver uma participação efetiva de empresas fora da comunidade japonesa, ficará muito difícil” avançar.

Para Doria, “só tem dois caminhos”. “Ou se viabiliza tecnicamente e comercialmente pelo menos até 30 de março ou ele tem que ser suspenso. Não está excluida a possibilidade, mas está aceso o sinal de alerta”, avisou o prefeito, que também não teve boas notícías sobre o andamento do musical Tao e Qual, um espetáculo idealizado por Elisabeth Cayres e que envolveria artistas japoneses e brasileiros.

 

Descontinuidade – “Vejo a comunidade muito distante de um tema que é da comunidade. É só uma visão do prefeito da cidade. Com exceção dos que estão aqui o sentimento que tenho é que o resto da comunidade japonesa não está nem aí para os 110 anos, 120 anos, 140 anos…. Os dois projetos estão sob risco de não acontecerem. É só uma observação de alguém que tem carinho pela comunidade japonesa e vê as empresas japonesas distantes do processo. Caso raro nos nossos encontros com as comunidades. Só avançamos na requalificação da praça graças ao senhor Ikesaki. Nem sei como a Japan House está funcionando, deve estar tendo dificuldades também, enfim. É caso até de um dia a comunidade se reunir, independentemente do tema dos 110 anos e dar uma chacoalhada: Nós somos uma comunidade ou contrariedade? Não é possível isso. Me estranha muito isso, uma comunidade que tem mais de um século no Brasil totalmente indiferente à própria comunidade. Primeira vez que a gente tem esse tipo de reação”, desabafou Doria, citando exemplos das comunidades sul-coreana, australiana, italiana, portuguesa e sueca. E endureceu ainda mais o tom: “Não é um bom exemplo, desculpa dizer isso.Como é que pode uma comunidade de 110 anos virar as costas para a própria comundade? Não é uma comunidade, é uma descontinuidade. É um tema para vocês refletirem”, criticou Doria, que em entrevista ao Jornal Nippak afirmou não estar decepcionado.

“Não, não estou. Apenas registrei, primeiro, o agradecimento a esta comunidade pelo apoio na revitalização da Praça da Liberdade, que passará a se chamar muito em breve Praça da Liberdade-Japão, atendendo inclusive uma reivindicação da comunidade japonesa. O projeto de lei será apresentado na próxima semana – ou nas próximas semanas – até o final de março e início de abril  e será sancionado pelo prefeito até 15 de abril. Portanto, essa é uma decisão já tomada. A revitalização da praça, ocorrerá graças ao suporte e apoio do senhor Ikesaki, que também a adotará por dois anos. Em relação aos projetos culturais que foram apresentados, ainda há tempo e espero que a própria comunidade empresarial japonesa se mobilize e eu sugeri que a Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil possa organizar uma reunião com várias empresas japonesas para que haja um pouco mais de mobilização, sobretudo em torno de datas de grande importância para esta comunidade como são 110 anos de comunidade japonesa no Brasil. Assim feito acho que servirá de exemplo para outras iiciativas e outros momentos que esta comunidade deverá seguir sempre mito mobilizada e unida”, destacou Doria, qua garantiu a continuiidade das reuniões através do atual vice-prefeito, Bruno Covas, que assumirá a Prefeitura.

 

Akio Ogawa, Hirofumi Ikesaki e Vitor Nakamura. Foto: Aldo Shiguti

 

Ressalvas – Para Doria, faltou “mais decisão”. Todos sabiam que os 110 anos aconteceria em 2018. Você não precisaria prevenir uma empresa que em 2018 se comemorariam os 110 anos de comunidade japonesa. Acho que faltou um pouco de decisão empresarial. Mas tudo traz um aprendizado e o aprendizado deve ser colocado de forma positiva não para condenar ninguém, mas para melhorar o desempenho nas próximas etapas”, disse.

Três intervenções foram feitas. Primeiro pelo presidente da Fundação Kunito Miyasaka, Roberto Nishio, em defesa da Toyota e da Honda, que contribuíram para as comemorações dos 110 anos cada uma doando um automóvel 0km para serem rifados. A segunda, pelo presidente do 21º Festival do Japão, Toshio Ichikawa, que também ressaltou a importância das duas montadoras para a realização do maior evento de cultura japonesa fora do Japão. “A Toyota e a Honda são duas das nossas maiores patrocinadoras”, disse Ichikawa. E a teceira pelo presidente da Comissão de Relações Governamentais do Bunkyo, Carlos Kendi Fukuhara, de que, na cultura empresarial japonesa, “é preciso ter anuência da matriz”.

“Não que as empresas estejam ignorando os 110 anos, mas dentro da cultura empresarial japonesa existe uma demanda administrativa. Quando a decisão está atrelada só ao Brasil se torna mais fácil, mas quando depende da matriz é mais difícil”, explicou. E deixou uma sugestão para que a procura não se restrinja somente às multinacionais, mas se procure também empresas com capital nipo-brasileiro.

 

Feliz – Provavelmente o único feliz da sala, Hirofumi Ikesaki pediu para que o prefeito anunciasse a data da reuniãocomo o dia em que a Praça da Liberdade passou a se chamar Praça da Liberdade-Japão. Doria pediu um pouco mais de tempo mas afirmou que não haverá nenhuma resistência. Como garantia, Ikesaki pediu à reportagem do Jornal Nippak para que registrasse o encontro com todos os presentes. O vereador Rodrigo Goulart (PSD) deverá apresentar um novo projeto nos próximos dias e terá anuência dos demais vereadores nikkeis: Aurélio Nomura, George Hato e Ota, além de Milton Leite.

 

ALDO SHIGUTI

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Redator-chefe
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