ARTIGO: O preço da ganância

 

*Walter Ihoshi

 

Antes de me tornar parlamentar, trabalhei muitos anos como empreendedor no comércio e no setor industrial. E por vir deste segmento, sei da importância da livre concorrência para uma área ou empresa, já que os preços fixados pelos produtores, vendedores e prestadores de serviços são determinados pelo mercado, e não pelo governo.

Mas nas últimas semanas, em especial, vi muita gente extrapolar essa prática, a começar pelas companhias aéreas. Os valores cobrados por essas empresas para viajar de Brasília a outros estados têm custado mais do que uma ida para os Estados Unidos, por exemplo.

Em outubro de 2013, conseguia comprar uma passagem de São Paulo a Brasília, com antecedência, por R$ 250. Em dezembro, não conseguia por menos de R$ 700. Outro espanto foi na hora de adquirir uma passagem de Brasília a Campinas. Num dia custava R$ 1.300. Cerca de 12h depois já estava R$ 1.800. As pessoas viajam mais no final do ano? Sim. É a lei da oferta e da procura? Sim, mas não justifica tamanho abuso nos preços.

Dados do IBGE mostram que os valores das tarifas aéreas subiram 131,5% desde 2005, e que os preços cobrados pelas companhias aumentam aproximadamente 1000% no período de férias e eventos, como Carnaval. Um absurdo!

Este reajuste também acontece no setor hoteleiro. E, segundo especialistas, a tendência é que esses preços subam ainda mais nas semanas da Copa do Mundo.

A explosão dos bilhetes aéreos e das diárias cobradas na rede hoteleira nacional pode trazer prejuízos incalculáveis ao país. A primeira está no risco de um efeito dominó inflacionário em outros setores da cadeia produtiva do turismo. Hotéis que não estão no acordo de adesão com a Match Services – empresa escolhida pela Fifa para fornecer ingressos para a Copa e acomodação para atletas e dirigentes durante o Mundial – podem se sentir autorizados a alterar tarifas em proporção semelhante. O mesmo poderia ocorrer com restaurantes, bares, lojas e lanchonetes.

A segunda é que o Brasil corre o risco de ficar marcado internacionalmente como um destino turístico caro. Os próprios brasileiros já preferem viajar mais para o exterior do que dentro do país, afinal, é mais barato. O resultado disso é que destinos antes disputados como Salvador, Natal, Fortaleza e Recife tiveram queda no movimento de passageiros, de acordo com a Infraero.

Tenho o maior orgulho de divulgar nosso país e seus encantos, e sempre que tenho oportunidade indico a amigos e conhecidos lugares para visitar. Já estive em diversos locais do mundo e posso dizer que o Brasil não deixa a desejar. Ele é belíssimo, repleto de pessoas, gastronomia e cultura interessantes, capaz de fazer qualquer um se apaixonar. Mas que incentivo o Brasil dá aos turistas estrangeiros – e sobretudo aos brasileiros – para conhecê-lo?

A atividade turística é importante para qualquer economia, seja ela nacional, regional, ou local, pois o deslocamento constante de pessoas aumenta o consumo, motiva a diversidade de produção de bens e serviços, e possibilita o lucro e a geração de emprego e renda.

Por isso, a ganância de uns, que querem faturar mais em curto prazo, pode custar caro ao país. Os reflexos do impacto negativo podem demorar anos para serem revertidos. Espero que as pessoas e autoridades capazes de frear essa prática abusiva acordem e se mexam rápido. Caso contrário, o Brasil pode perder uma grande chance de aparecer, crescer e ganhar.

 

 

 

WALTER IHOSHI

Deputado Federal (PSD/SP)

Presidente da Frente Parlamentar para a Desoneração dos Medicamentos

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