BANCO BACURI: O primeiro sonoro de Yasujiro Ozu

Quando se trata dos grandes cineastas japoneses do século passado, como isso tivesse sido há tanto tempo (?), não seria exagero considerar Yasujiro Ozu um dos mais criativos. Nasceu em 1903, alguns anos antes do início da imigração japonesa para o Brasil, produzindo ao todo 53 filmes. Faleceu em 1963, aos 60 anos. Grande parte da produção é na Shochiku, cujo estilo agradava o público: drama familiar. Seus filmes mais conhecidos são justamente do período do cinema falado, cuja técnica de filmagem aprimorou-se no cinema mudo. Desta nova fase, a do falado, totalizam-se 20 filmes. Suas últimas obras são coloridas, caso de Ohayo (Bom dia), de 1959, e Sama no aji (A rotina tem seu encanto), 1962.

 

Hitori Musuko

Hitori Musuko

 

Para quem veio do cinema mudo, passar para o sonoro, provocou mudanças consideráveis. Esta mudança acontece em Hitori Musuko (Filho único), de 1936. Trata-se de um período complicado, que antecede o início do conflito da Guerra do Pacífico. De certo Yasujiro Ozu reproduz no cinema este momento, em que o Japão se apresenta como país capitalista, de crescimento dos polos industriais, sobretudo da ideia liberal do progresso através da iniciativa privada. Tóquio é onde em que todos os que querem sucesso vão morar, deixando o interior atrasado. Este é o assunto do filme. O filho único quer vida melhor, vai estudar em Tóquio e com o curso superior, poder ascender socialmente.

A quantidade expressiva dos filmes atendia um mercado interno, mais tarde a ser comercializado fora do país. A Shochiku foi fundada em 1895, inicialmente para a indústria de entretenimento, o teatro Joruri (de marionetes) e depois o teatro Kabuki. O cinema começa a ser explorado a partir de 1920, sendo que Ozu dirigiu em 1927 o primeiro, Zange no yaiba (Espada da penitência). Levando em consideração a descoberta da indústria cinematográfica no Japão, pelo menos um filme é realizado por um diretor. Se existe uma constante quanto a temática, o diretor Ozu usa este recurso para aprimorar-se no uso da câmera baixa e dos grandes planos de filmagem. Algo diferente do que se usava nas salas de exibição do Ocidente.

O Hitori Musuko, o Filho único, é uma experiência que mais tarde culminará em Tokyo Monogatari (Era uma vez em Tóquio), de 1953. Em Hitori Musuko observa-se em escala menor, o drama do filho que vive em Tóquio e recebe a sua mãe em visita inusitada. Muito pelo contrário do que se esperava, o sucesso do filho não passa de uma ilusão. Ele está casado e mora numa casa da periferia. Nada de especial. O salário que recebe como professor mal dá para os gastos: esposa e um filho pequeno. Quando da visita da mãe, teve que emprestar dinheiro dos amigos para as despesas da estadia. Comprar um alimento diferente, levá-la ao cinema, que a mãe não aprecia muito. Tempos de modernidade, em que a tradição deve ceder à tecnologia. Esta tecnologia que produz conforto, na sociedade massificada, mas também um imenso vazio, vencido pelas chaminés de Tóquio em que somente a periferia ainda lembra o interior, com seus capins dobrando-se ao sopro rasteiro do vento.

Ainda que Tóquio seja uma cidade que massacra seus habitantes, os pobres que tentam vencer na vida, imigrantes vindos de todos os cantos, é na periferia que Yasujiro Ozu ainda encontra a poesia nostálgica. Não será a primeira vez, a câmera parada por alguns momentos com olhos desavisados mostra a cena: um varal em que as vestes secam e tremulam. Por falar em poesia, as imagens se confundem com a vida cotidiana. Logo na abertura de Hitori Musuko, quando a mãe discute com o filho sobre o seu futuro, numa das imagens, a câmera busca num quintal pintinhos brincando. Apenas poesia, cuja linguagem só pode ser apreciada pelos poetas. Não se lê poesia como se lesse prosa. A beleza do cinema é produzir poesia e menos discursos.

Diante das intempéries da vida moderna, que visa sobretudo a obtenção de lucro, Ozu não se revolta, mas consegue identificar a contradição entre uma vida totalizante, de um passado que não tem mais vez, de uma simplicidade consentida, agora, para uma existência limitada pela imposição de uma ideologia de progresso. Desta forma, as máquinas não podem parar. A indústria de tecelagem não pode parar, pois se isso acontecesse seria pior. Naquela indústria que a mãe do filho único trabalha, as mulheres ainda de quimono e lenços na cabeça repetem o movimento das mãos diante dos teares. A mãe idosa tem um lugar naquela indústria: esfregar o chão.

Não que o mundo fosse mal. A necessidade de se adaptar a uma economia de produção em escala industrial, sendo que o Japão se encontrava naquele momento como o principal país da Ásia a desenvolver uma indústria aos moldes capitalistas sacrificava parte significativa da população. Todo ganho produz seu inverso. Recessão para que o crescimento pudesse acontecer, a Zaibatsu (conglomerado de indústria e finanças) faria de tudo para o sucesso desta empreitada. Ainda assim, sem temer o sofrimento a ser superado, somente o consolo da estética podia ser possível. Para Ozu, o final mais humano: os pobres ajudam-se mutuamente. O individualismo perde força diante da solidariedade ente os necessitados. Bandeira destes é um varal de roupas ao vento.

 

FRANCISCO HANDA

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