BEM ESTAR: A TEMPESTADE

No domingo, dia 18 de maio, tivemos em São Paulo uma chuva de granizo.  A marca do temporal ficou gravada nas proximidades do Parque da Aclimação, onde – cena nunca antes vista – o gelo se acumulou a ponto de forrar o chão de branco.

Nesse dia, eu estava na Pedra Grande, Atibaia, para ajudar no CBM, Curso Básico de Montanhismo, do GPM – Grupo Paulista de Montanhismo, do qual havia participado no ano passado.

Dizem os japoneses que os climas de montanha mudam com facilidade.  A mim, me vem como se o humor do clima fosse mais instável por estas cercanias.

No meio dos procedimentos, um dos instrutores me gritou: “Helena, abortar!  Vem chuva”! – ao que, sem lhe compreender a urgência, respondi: “Seg (segurança) pronta”!

Calmamente e sem pressa, perfiz a distância da pequena trilha que nos leva da parte baixa para a parte alta, alertando às pessoas que ia encontrando para que retornassem à base.

A chuva caiu grossa, me pegando desprevenida ainda com a capa da mochila nas mãos.

Raios e trovões rugiram furiosos e senti o medo me transpassar a medula.  “Todos agachados”! gritou o instrutor, alertando o grupo sobre o perigo dos raios.

Eu sentia a água da chuva gotejar grossa por todos os lados do corpo.  A tempestade era intensa e selvagem, invadindo todo o meu ser, fazendo-me sentir vulnerável.

Me peguei, então, diante de um espanto ancestral: com certeza eu já havia experimentado esta sensação.  O meu cérebro reptiliano o reconhecera em sua intensidade, coisa dos tempos em que eu habitava as cavernas!

Engraçado foi notar que o medo e o riso andam juntos.  Houve um que de regozijo, inexplicável na precária situação em que nos encontrávamos.  A chuva era infinitamente mais bela do que a que se vê na cidade.  O movimento das nuvens enlouquecidas, as curvas aleatórias das torrentes d’água, as cores e expressões do céu e, finalmente, uma cortina tão espessa que mal se enxergava um palmo à frente do próprio olhar: tudo era de uma beleza estonteante, nunca antes vista.

A força da tempestade se fez mostrar em todo o seu esplendor e magnificência, e, éramos apenas nós, os seus solitários testemunhos.

Ainda sob a graça e a bênção da Natureza, agradeci às suas águas e orei para que elas de algum modo pudessem alcançar os nossos tão ressequidos reservatórios.  Em verdade, me vi um pouco utilitarista neste pedido, pois, a Natureza acabara de nos mostrar a sua grandiosidade e presença.

Como se dissesse em tom claro: “Aqui quem manda, querida, sou eu”!

 

 

 

Helena Tiemi Honda Kobayashi

Sócia e colaboradora da Associação Palas Athena, é instrutora de yoga, atenção e concentração nas práticas meditativas. Tem doutorado e mestrado pela Yokohama National University, tendo completado 15 anos de vivência no Japão.

 

 

 

 

 

 

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