BEM ESTAR: APRECIAR CRIANDO LAÇOS

Por vezes a rotina do dia a dia me parece esmagadora, o jornal sempre igual, as mesmas expressões e fatos, as mesmas pessoas no cotidiano.

Sinto que já passei por tudo o que poderia ter vivenciado, que já sei medianamente (mediocremente) sobre um punhado de coisas, e me fecho fechada numa espécie de tédio, numa falta de frescor, de novidade.

Mas, como serão, do contrário, os momentos de abertura?  Qual será o antídoto para tal situação?

Começo a escrever num restaurante de frutos do mar.  Já satisfeita, olho ao redor, e minha atenção se volta aos padrões de flor formados pelo encontro de fibras nas cadeiras de vime.  A combinação perfeita da cor vermelha desbotada com o fundo de cor natural dá à flor um aspecto frugal, de conforto, de proximidade.

A orquídea branca sobre a mesa mostra sinais de cansaço, de desconforto por estar no ar condicionado.

Sou sequestrada pelo encontro perfeito de sabores entre lulas, camarões, pescadas amarelas, polvos e moluscos orquestrados pelo sabor reconfortante e conciliador do molho de tomate.  Tudo isso servido numa cumbuca preta espirito santense de moqueca.  Sem me esquecer da combinação simples e bem servida do prato de arroz com ervilhas.  Vai aí uma gota de pimenta?

O cafezinho servido com um grande chocolate redondo… nos surpreende com frescor: havia uma gota de uva nos aguardando lá dentro.

Quem nos proporciona a capacidade de vivenciar encontros são os nossos sentidos.  O diálogo que se estabelece entre o mundo externo e o interno se dá graças a estas janelinhas que se nos dispõe nosso corpo.

Porém, se sinto o cansaço da flor, isto é combinação do que os sentidos me permitem perceber (pétalas ressequidas, cansadas), juntamente com um movimento interno de atenção e interpretação, que parte de minha vontade, de meu interesse por ela, um ‘apreciar criando laços,’ um colocar-me em seu lugar.

Crio laços com as criaturas que fazem, que compõem a minha vivência.

Da rotina à real apreciação, que se dá no ‘criar os laços,’ tudo depende apenas de uma brevidade de segundo, de uma gota de boa vontade, onde opto por mergulhar no universo que se apresenta, que se faz presente, que se doa à mim a cada momento.

 

 

 

Helena Tiemi Honda Kobayashi

Sócia e colaboradora da Associação Palas Athena, é instrutora de yoga, atenção e concentração nas práticas meditativas. Tem doutorado e mestrado pela Yokohama National University, tendo completado 15 anos de vivência no Japão.

 

 

 

 

 

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2 Comments

  1. Helena, vc sempre me surpreende pela delicadeza das palavras. Ler um texto seu, mas é como ler uma poesia …Parabéns

    • Dirce, muito obrigada por ter compartilhado comigo estas linhas! Sinto que se a poesia reverberou dentro de você, é simplesmente porquê você já as tinha, escondidinhas, dentro de seu coração! Um belíssimo início de semana para todos nós!!

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