BEM ESTAR: Como você lida com o medo?

 

O tufão Haiyan passou pelas Filipinas matando, ao menos, 10 mil pessoas.  Em uma das cenas que vi, pela internet, me impressionei com o olhar desesperado das pessoas, pedindo por comida, por água. Falta-me o ar ao ver, nos rostos das pessoas, a desesperança em seu nível mais fundamental: o da sobrevivência.

Nos deparamos no noticiário, com informações sobre previsões sobre a rota do tufão, posturas dos governos envolvidos, sobre as ações da Cruz Vermelha, dos socorristas, da Unicef, relatos sobre os testemunhos…

Em seu livro mais recente, Boris Cyrulnik e Edgar Morin tratam do modo com o qual acessamos os eventos que nos cercam: através da racionalidade.  Porém, uma racionalidade que por vezes apaixonada por si mesma, acaba se esquivando de retomar o olhar sobre os fatos, sobre os eventos que lhe causaram a reflexão.  Assim, “O que se tem é uma parte, um fragmento artificial […] Depois de tê-la manipulado artificialmente, esquecemo-nos dela ou nos recusamos a reintegrá-la no todo. Trata-se de um erro do pensamento (p. 11-12).”

Retomando o medo, vejo o mesmo olhar crítico sob a autoria de outro pensador: Jiddu Krishnamurti. Ele nos diz: “A natureza extraordinária, penetrante, do medo: como lidar com esta natureza? Você meramente desenvolve a qualidade da coragem para enfrentar a demanda do medo?  Você determina que será corajoso para encarar os eventos da vida, ou meramente constrói uma sequência lógica que pretende manter o medo distante, ou ainda, busca por explicações que irão satisfazer a sua mente que encontra-se enredada no medo?  Você liga o rádio, lê um livro, vai a um templo, agarra-se a algum tipo de dogma ou de crença?”

Vejo em nosso contato com o noticiário esta tentativa inócua no sentido de compreendermos racionalmente os fatos que nos cercam, fatos estes que tornaram-se muito mais próximos de nós mesmos através do evento da internet.  Porém, sinto que faltam-nos ferramentas para lidar com este medo de uma forma mais íntegra, mais direta, mais honesta.  Temos medo de reconhecer que algo de muito terrível está ocorrendo com seres humanos como nós e, temos medo de agir em relação acontecimentos tão devastadores como estes.

Mas, uma semente me foi outorgada por um outro personagem que, recentemente, veio a fazer parte de minhas aspirações: Irena Sendler. Irena era uma ativista católica que durante a segunda guerra mundial retirou do Gueto de Varsóvia mais de duas mil e quinhentos bebês, crianças, e adolescentes com o auxílio de uma preciosa rede de colaboradores. Providenciou para que estas crianças fossem acolhidas e protegidas durante o terrível evento da guerra. E que pudessem ser identificadas caso a guerra viesse a terminar, como realmente acabou acontecendo.

Ela nos conta em um trecho de sua história: “Quando já estava totalmente escuro, meia hora antes do toque de recolher, saí com as crianças. O buraco estava oculto por um monte de neve congelada e enegrecida. […] Uma após a outra, as crianças foram então desaparecendo através daquele buraco (Mieszkowska, p. 114).”  Era o inverno do ano de 1942, e Irena tinha apenas trinta e dois anos.

Não imagino o que teria sido destas crianças não fossem a determinação e a coragem de Irena. Ainda em meio à leitura de suas linhas, busco o como de seus feitos heroicos. Tenho medo de avançar na leitura, contraditoriamente à imagem que ela me passa. Porém, dentro de mim, enxergo o contraste entre a presença de minhas responsabilidades perante o momento em que vivo, dentro do contexto no qual existo e opero, e, do outro lado, uma estranha confiança de que o passo a seguir estará valendo a pena.

 

 

Referências

Cyrulnik, Boris e Morin, Edgar.  Diálogo sobre a Natureza Humana.  São Paulo: Palas Athena, 2013.

Krishnamurti, Jiddu.  The Collected Works, vol. XII, p. 58.
http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-daily-quote/20131111.php

Mieszkowska, Anna.  A História de irena Sendler – A mãe das crianças do holocausto.  São Paulo: Palas Athena, 2013.

Crédito de imagem: http://2.bp.blogspot.com/-XFo9IXq9b1c/TdZudULwguI/AAAAAAAAAX4/G0lTnIjNMAI/s1600/maos.jpg

 

 

 

Helena Tiemi Honda Kobayashi

Sócia e colaboradora da Associação Palas Athena, é instrutora de yoga, atenção e concentração nas práticas meditativas. Tem doutorado e mestrado pela Yokohama National University, tendo completado 15 anos de vivência no Japão.

 

 

 

 

 

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