BEM ESTAR: “É tão bom… eu me odeio por isso (Umai-n da yo na. Komatta koto ni.).”

 

 

A Partida (Okuribito) é o filme de Yōjirō Takita que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009.

Segundo o crítico Rodolfo Lima, Daigo (Masahiro Motoki) é um violoncelista que, vendo se desmanchar a orquestra onde tocava, resolve voltar para sua casa e arrumar outro emprego, recomeçar. Eis que arruma um emprego de preparador de defuntos. […] Além da morte seu filme traça paralelos com outros temas como a relação que desenvolvemos com a comida, e porque não com as pessoas mortas, o preconceito com quem trabalha nesse ramo e a necessidade das pessoas de rever a própria vida, a partir da morte.

Uma das cenas mais brilhantes e marcantes do filme ocorre quando Daigo encontra-se já decidido a largar o serviço deixando-se vencer pelas pressões vindas por parte da esposa e de amigos.  O seguinte diálogo preenche o espaço abundantemente preenchido por plantas na casa de seu patrão Sasaki, ao saborearem, juntos, brancas ovas de peixe. O cenário reforça a delicada ênfase da presença da vida, da vitalidade, neste filme, que retrata a morte e as reflexões que ela nos inspira.

Sasaki: Umai daroo? (Bom, não é mesmo?)

Daigo: Umai-su ne. (Sim, bom mesmo.)

Sasaki: Umai-n da yo na. Komatta koto ni. (É tão bom… eu me odeio por isso.)

Esta última frase engloba toda a temática do filme, colocando vida e morte frente a frente: temos de comer para podermos continuar sobrevivendo. “Para continuar vivendo, a vida tem de se alimentar da vida – exceto no caso delas,” diz Sasaki, apontando para as plantas.

A frase tem força maior ainda, se considerarmos que ‘é bom,’ ou seja, que o alimento é saboroso.  Outra vida se nos oferece e temos que nos alimentar dela para continuarmos vivendo, se é que esta é a nossa escolha; ainda assim, dentro do sofrimento que se encerra nesta relação, há a degustação, o prazer no contato com o alimento no nosso paladar. Talvez possamos encontrar, neste “eu me odeio por isso,” o remorso por apreciarmos este alimento, pela vontade que temos de repetir aquilo que nos traz o prazer do sabor, ou o sabor do prazer.

A expressão ‘komatta koto ni’ pode trazer também significados como: inconvenientemente, preocupantemente, problematicamente, perplexamente, que talvez ajudem o leitor a se localizar perante a complexidade e profundidade da afirmação de Sasaki.

Segundo Rodolfo, Daigo descobre em sua vida as pequenas mortes inevitáveis no percurso de sua trajetória e a necessidade de renascimento que nos é proporcionada a cada virada de rumo na nossa vida.

Que possamos fazer valer as vidas das quais nos alimentamos em nossa trajetória e que a nossa própria vida possa, por sua vez, oferecer-se às vidas vindouras, como alimento, como inspiração, e, minimamente, como consciência deste continuum do qual depende a nossa evolução como espécie.

 

Cena do filme A Partida (em japonês):

 

 

Site com as palavras do crítico Rodolfo Lima: http://www.cranik.com/apartida.html

 

 

 

Helena Tiemi Honda Kobayashi

Sócia e colaboradora da Associação Palas Athena, é instrutora de yoga, atenção e concentração nas práticas meditativas. Tem doutorado e mestrado pela Yokohama National University, tendo completado 15 anos de vivência no Japão.

 

 

 

 

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