BEM ESTAR: Ma: a distância espaço-temporal

 

Primavera, Verão, Outono, Inverno.  O japoneses vivem os ciclos da natureza de forma intensa e presente.  Isto pode ser constatado na maneira de se vestirem, na alimentação, na forma pela qual reverenciam os ritmos da natureza.

Em abril, quando se dá a entrada da primavera, o primeiro sinal eminente são as flores de cerejeira.  Brancas ou rosadas, de cor clara, inundam os galhos de árvores com suas delicadas pétalas, enchendo de encanto os parques e ruas do Japão.

Os japoneses, sempre tão atentos à esta beleza que é um prenúncio do recolhimento do frio do inverno, reverenciam a presença das flores cantando e dançando sob as árvores, levando comes, bebes, música alegre, e, invariavelmente, a companhia dos colegas de trabalho, com quem a convivência é, por vezes, muito mais intensa e frequente do que aquela que ocorre juntamente aos entes queridos de suas respectivas famílias: boa parte da vida ocorre nos ambientes de trabalho.

A presença dos ritmos e ciclos é passível de se perceber apenas quando se há um momento de pausa entre os sons, um momento de silêncio entre as paredes de uma casa, uma reflexão silenciosa entre uma estação e a próxima.  Estamos falando sobre o Ma.

A palavra Ma, que trabalha com a ciência do tempo e do espaço – pode ser traduzida como espaçamento, intervalo, lacuna, branco (no sentido de vazio), pausa, descanso, temporalidade, abertura.  Assim, um arquiteto utilizaria a palavra Ma para se referir a um espaço; já para um músico, a palavra traria a conotação de tempo.  Originalmente de origem chinesa, a palavra Ma veio ao Japão com o significado de espaço, terminando por incorporar, no Japão, a ideia de tempo.

 

Kunio Komparu (The Noh Theater), estudioso do teatro Nôh destaca o emprego do simbolismo do Ma de um modo ainda mais sutil, ainda mais japonês: pode-se observar uma figura no relacionamento sutil entre partes, assim como ocorre com a figura do vaso de Rubin: você enxerga um vaso? Ou então duas silhuetas?

A figura das silhuetas aparece quando a parte expressiva, composta pelo contorno do vaso, passa a ser o pano de fundo, dando ênfase ao Ma, ao silêncio, ao vazio expressivo.  Para você, qual dos dois é o cerne da composição?

Temos consciência destas pausas Ma tão ricas em simbolismo e sugestão?

Assim como os japoneses saem do local de trabalho para vivenciar e celebrar a primavera sob as cerejeiras num momento de pausa e reflexão, convido-os a vivenciarem uma pausa sobre o Ma nesta próxima quarta-feira às 19h30, para mais um módulo do ciclo Zen e Yoga.

 

 

 

Helena Tiemi Honda Kobayashi

Sócia e colaboradora da Associação Palas Athena, é instrutora de yoga, atenção e concentração nas práticas meditativas. Tem doutorado e mestrado pela Yokohama National University, tendo completado 15 anos de vivência no Japão.

 

 

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