BRASILEIROS NO JAPÃO: Presidida por Ihoshi, audiência discute situação de escolas e trabalhadores brasileiros no Japão

A situação das escolas brasileiras no Japão, o Espaço do Trabalhador Brasileiro (ETB) – localizado em Hamamatsu e que encontra-se fechado desde 1º de janeiro deste ano por falta de recursos –, o Working Holiday e o Visto para os Yonseis, foram tema de audiência pública realizada nesta quarta-feira, 8, na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.

Participaram da audiência a diretora do Departamento Consular do Ministério das Relações Exteriores, Maria Luiza Ribeiro Lopes da Silva; o chefe da Assessoria Internacional do Ministério da Educação, Leandro Gomes Cardoso; o coordenador geral de Imigração do Ministério do Trabalho, Hugo Medeiros Gallo da Silva; o ministro-conselheiro da Embaixada do Japão no Brasil, Kazuhiro Fujimura; o diretor de Relações Internacionais do Senado Federal e ex-cônsul geral do Brasil em Tóquio, Marco Farani e o futuro cônsul do Brasil em Tóquio, embaixador João de Mendonça Lima, além do deputado Takayama e a deputada Professora Dorinha Seabra Rezende.

 

Walter Ihoshi presidiu audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional. Foto: divulgação

 

A audiência foi convocada pelo deputado federal Walter Ihoshi (PSD-SP), que esteve em março deste ano no Japão em missão oficial a convite do governo daquele país para participar do Programa Juntos!! Intercâmbio Japão-América Latina e Caribe. Na ocasião, Ihoshi visitou escolas japonesas e nipo-brasileiras a fim de conhecer a implantação e o funcionamento do sistema educacional público do país. Ihoshi ouviu também reivindicações das comunidades brasileiras residente no país.

“Uma das reivindicações foi por um reforço às gestões do Itamaraty junto ao Ministério da Educação com vistas ao maior apoio às escolas brasileiras no Japão a fim de supervisionar a qualidade do ensino oferecido”, relata Ihoshi.

A delegação conheceu também o Espaço do Trabalhador Brasileiro, criado em 2012, pelo Consulado-Geral do Brasil, em Hamamatsu. “Há a necessidade de renovação do convênio com os ministérios das Relações Exteriores e do Trabalho e da Previdência Social para dar continuidade aos serviços assistenciais prestados pelo espaço à comunidade”.

 

Espaço do Trabalhador– Hugo Medeiros destacou a importância do ETB lembrando que o projeto, que teve início em 2012 e foi implementado em 2014, fez cerca de 13 mil atendimentos até 2016. De acordo com seus dados, em 2013 foram feitos 4.453 atendimentos; em 2014, 2.825; em 2015, 3.330 e no ano passado, 1.736  brasileiros procuraram os serviços do ETB.

“Infelizmente, em virtude da ausência de recursos para o ano de 2017 não foi possível realocar nenhum recurso, o que foi uma perda muito grande não só para o Brasil, mas principalmente para os brasileiros que se encontram e que tinham no espaço um centro de referência e orientação”, destacou o coordenador geral de Imigração do Ministério do Trabalho, explicando que desde 2014 foram repassados pouco mais de um milhão de reais para o ETB, sendo R$ 300 mil em 2014; R$ 394 mil em 2015 e R$ 488 mil em 2016.

Para ele, o espaço “merece ter os olhos voltados para ele no sentido de buscar recursos” pois sua continuidade “tem importância significativa para os brasileiros que estão no Japão”. Como alternativa, Hugo Medeiros sugeriu “parcerias com outras entidades”.

 

Ihoshi com o deputado João Papa e com Kazuhiro Fujimura. Foto: divulgação

 

Educação – Já a diretora do Departamento Consular do Ministério das Relações Exteriores, Maria Luiza Ribeiro Lopes da Silva se concentrou na questão da educação do brasileiros, considerada “uma das principais vertentes” para o Itamaraty por se tratar de uma forma de “empoderamento e de facilitação de integração das comuidades”.

De acordo com dados apresentados por Luiza Lopes, dos cerca de 186 mil brasileiros que vivem hoje no Japão, aproximadamente 40 mil são menores de idade, ou seja, quase um quarto é compoto por menores”. Para ela, a tendência é que esse número possa aumentar ainda mais com a aprovação do visto para yonsei.

Luiza Lopes explicou que a educação dos brasileiros que estão no Japão “é especial” se comparada com outros países com presença de brasileiros. No Japão, conta, a dificuldade do idioma é claramente muito maior do que nós verificamos em outros países com presença de brasileiros”. Para ela, uma das dificuldades tem sido a falta de planejamento.

“Grande parte dos que vão para o Japão não sabe se vai ficar em caráter permamente ou se vão retornar. E essa decisão inclui a matrícula em escolas brasileiras ou japonesas e o tipo de educação que eles querem dar aos filhos. Muitos pais matriculam os filhos em escolas brasileiras mas acabam ficando”, destaca, acrescentando que, consequentemente, a integração acaba não acontecendo.

Segundo ela, em países como os Estados Unidos e Canadá e também na Europa Ocidental, a segunda geração de brasileiros já está “muitíssima melhor integrada”. “Verificamos um salto muito grande dos que foram e a geração seguinte, mas no Japão e situação é diferente. Essa integração não está acontecendo com a mesma rapidez e intesidade”, disse Luiza Lopes, afirmando que a situação chega a ser “irônica” porque no Japão a comunidade é constituída “quase que de descendentes de japoneses”. O resultado é um baixo rendimento escolar e aprendizado do idioma insuficente. Para ela, o problema muitas vezes acontece “antes”, ainda nas creches, “algumas caseiras”.

Marco Farani iniciou sua fala afirmando que o Ministério das Relações Exteriores tem muito que fazer, especialmente uma política “mais sólida, de aproximação com suas comunidades”. Ex-cônsul do Brasil em Tóquio, Farani destacou que a presença de trabalhadores de vietnamitas e filipinos em breve deve ultrapassar o número de brasileiros.

“Nesse contexto de internacionalização, os brasileiros estão precisando de ajuda do governo brasileiro porque o processo de internacionalização não é fácil. Acho que o governo japonês também perdeu uma grande oportunidade de integrar os brasileiros porque, quando pensou em atrair os brasileiros, na décado de 90, só pensou na mão de obra”, destacou Farani, acrescentando que a previsão é que a população japonesa “decresça para 80 milhões em 2050”. “Todo ano morre mais japoneses do que nasce”, afirmou, explicando que nos últimos anos notou uma “mudança de mentalidade”. “Essa mudança está ocorrendo naturalmente em alguns municípios e em algumas escolas, que estão estão procurando adotar medidas que acelerem a integração de brasileiros como forma de criar uma fidelização. Duas razões levam, a isso: ao envelhecimento gradual da população e a necessidade real de ter mão de obra presente porque, se os brasileiros saírem das cidades que estão as fábricas fecham, a prefeitura arrecada menos e o município vai à falência”, disse Farani.

 

Balanço – Para Walter Ihoshi, a audiência foi uma oportunidade de reunir, numa mesma mesa, pessoas ligadas ao Itamaraty e ao Ministério do Trabalho “cada qual com sua incumbência”. “Conseguimos reunir todas as demandas da comunidade brasileira que reside no Japão e que, pela distância e pelos trâmites burocráticos, não conseguíriamos”, afirmou Ihoshi, que destacou a participação de Edilson Kinjo e Walter Saito via teleconferência do Japão.

Um dos principais defensores da concessão de visto para os yonseis, Ihoshi afirmou que espera novidades para o primeiro trimestre de 2018 e que o assunto ainda deve ser discutido em um fórum específico, inclusive com a presença do Ciate.

 

ALDO SHIGUTI

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