CANTO DA BACURI > Francisco Handa: Entre os Budas e Deuses

Quando entrei naquela casa de japoneses, da zona leste de São Paulo, um caldeirão cultural no campo religioso mostrou a ambiguidade quando se trata de emoções no cruzamento de valores e tradições. Na sala encontrava-se exposto na parte superior um kamidana; refere-se este a um pequeno altar de natureza xintoísta, de madeira crua, sem verniz. O kamidana era bastante comum nas academias de judô e karatê, que quase desapareceram da cidade de São Paulo. No kamidana existe um kami – ou seja uma deidade, que serve de protetor da casa. É apenas uma folha de papel em que escreve com tinta carvão o nome daquela.

Nada de anormal em se tratando de uma casa japonesa. O kamidana ficava justamente na sala, onde as visitas se acomodavam. No kamidana se coloca folhas ao invés de flores. Existe também um cálice em que se oferece água e às vezes saquê.

Ao lado desta sala, do lado esquerdo, havia um quarto onde estava instalado uma máquina de costura e o piano, possivelmente o que a filha usava quando pequena. Depois que a filha se casou, o piano ficou esquecido naquele ambiente. Para completar, havia um enorme butsudan – um altar budista dedicado aos Budas e Ancestrais daquela família. Era muito bem confeccionado por algum artesão, com detalhes em entalhe de dragões chineses com seus olhos saltados e como fossem bolas de bilhar. Além das plaquetas memoriais, conhecidos por ihai, havia pinturas em papel de pergaminhos budistas e imagens de mestres do passado como Kobo Daishi. Havia lá referências de duas tradições budistas: Shingon e Soto Zen.

Mas não acabava por aí. Lá estava também a imagem de Nossa Senhora Aparecida, posta sobre um móvel, não muito grande, feito de gesso, quando outros materiais como a resina não eram comuns para tal finalidade. Para quem vem de uma família japonesa no processo de aculturação, nada disso chegava a espantar. Possivelmente os japoneses tivessem criado uma crença particular, que se mostrava respeitoso com a tradição, ao mesmo tempo aberto a outras possibilidades. Visto como uma contradição, para o japonês nada disso era importante. Viver num país cristão, para ser mais enfático, católico, valorizar a cultura local se tornava um fator de integração e assim ser aceito como parte deste grupo.

Esta história não acaba por aqui. Finalizando, também encontrava no mesmo quarto um porta retrato, de em torno de 12 cm por 8 cm, em que emoldurava a imagem de um senhor negro. O que seria aquilo? Era óbvio demais, a resposta foi avassaladora: “Este aqui é o Pai Joaquim”. Não esperou que eu insistisse na pergunta, pois a dona da casa, sem cerimônias disse: “trata-se de um homem da cultura daqui”. Aquele processo era realmente de aculturação por parte dos imigrantes japoneses, que continuavam quase cem anos depois do início da imigração japonesa no Brasil, a comer arroz branco, conservas de nabo, missô (pasta de soja) e pelo uso do shoyu (molho de soja). Usava sem problemas os palitos hashi, mas também o garfo, a faca e a colher. De fato, a cultura era algo dinâmico em que a conservação de referências culturais estava ao lado da incorporação de costumes, modos de vida, e valores locais.

Encontrei entre os objetos adquiridos pela minha família, no próprio vapor que a trouxe a este país, no Santos Maru, na segunda viagem daquele ano, de 1937, de um livro em japonês sobre o catolicismo. Explicava do que se tratava esta religião, hegemônica no país. Possivelmente não servia de um instrumento de proselitismo, mas somente de uma introdução do que encontrariam pelo país.

Se de um lado, existia uma cultura religiosa pragmática, como o budismo e o xintoísmo, de maneira de atuar de inclusão (poderia se dizer inclusiva) no qual tudo pode ser incorporado à cultura, apesar de suas diferenças, no Ocidente, a cultura religiosa seria de exclusão, considerando o monoteísmo mosaico algo inquestionável quanto à crença numa entidade solar única e verdadeira. Ainda assim, se esta era a condição de ser aceito socialmente, uma parcela significativa de imigrantes japoneses, mas principalmente seus descendentes, foram batizados e receberam os nomes cristãos. Existem nomes duplos, como fossem duplos suas personalidades como Sueli Sumiko, Célia Fumiko, Roberto Hiroshi, Paulo Kenji ou Joaquim Hidekichi. São brasileiros como qualquer um outro, com um nome brasileiro, mas existe o outro lado japonês, que não pode ser negado. Coexistir seria a condição desta ambiguidade.

A questão que não me deixa calar é o seguinte: uma cultura não pode ser apagada e substituída por outra. A cultura é uma condição histórica, construída pela experiência do sujeito e do grupo a que pertence.

Nas últimas décadas uma quantidade significativa de descendentes passara para a religião protestante, em particular das neo-pentecostais. O processo seria de conversão, quer dizer de renúncia de toda a sua tradição, inclusive crenças religiosas, consideradas erráticas. Isso tem acontecido, como o abandono do culto aos ancestrais, devolução dos butsudan aos templos, em alguns casos, e de maneira mais culturalmente aceito no grupo de origem, na manutenção do budismo como parte da família (ou culto familiar) e no pentecostalismo como um culto individual. Será este um novo fenômeno em detrimento às ideologias e dogmas?

 

FRANCISCO HANDA

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