CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A inutilidade das palavras | Os queixumes da existência

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A inutilidade das palavras

 

Num mundo em que as palavras nada dizem

Nenhuma conversa se sustenta

Além de uma enxurrada crescente

De águas mal servidas, correm sem medida

Para as bocas de lobo.

 

Uma ilusão transparece nos discursos em que

Servem de pedras atiradas nas vidrarias

Dos telhados em que os gatos não ousam caminhar.

A cada palavra anunciada nenhum motivo de alegria

Que por estar ausente de caldo quente

A alma deixou de existir

Uma alma cada vez mais rala

Gás carbônico marcando o céu de nossa

Existência.

 

Até mesmo as conversas tiveram um fim

Marcadas por uma autoridade que julga

Disseca e condena, nada mais resta do que

Esperar a condenação.

Qualquer coisa que se diga

Será usado contra ti.

 

Por isso, as vozes também silenciaram

As cornetas silenciaram

As cigarras deixaram de cantar

E os cães vadios de latir.

Quem sabe no silêncio buscado

As palavras anunciadas em coro

Cantem um hino em louvor dos santos

Desses que desceram dos altares

Que comungam do pão nosso de cada dia

Junto aos loucos que nada mais fazem do que

Olhar estupefato para uma ordem que deixou

De ter sentido.

Mercadorias descartáveis de um camelô oriental

Que não se fixa em lugar algum

Palavras murmuradas numa língua inteligível.

 

 


 

 

Os queixumes da existência

 

Ontem não existia

Hoje existe dentro de mim

Uma dor de reumatismo

Uma dor de sonho não realizado

Desses amores sem causa aparente

Uma fumaça que ardeu nos olhos

Que morreu no horizonte

Deixando na terra uma marca

De fogueira cada vez mais fria.

 

Ontem não existia

Hoje existe dentro de mim

Nem alegria nem contentamento

Das ilusões colhidas

Uma satisfação profunda de ser

Apenas ilusão.

 

 

FRANCISCO HANDA

FRANCISCO HANDA

chicohanda@yahoo.com.br
FRANCISCO HANDA

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