CANTO DO BACURI > Francisco Handa

 

Retorno à cidade de um passado

Algum ponto de minha alma
nunca deixou a terra em que nasci
ainda sopra o vento de outrora
pelas ruas que não existem mais
pelas praças em que andei
pela igreja matriz em que
conheci o paraíso
conheci o inferno também
e pereci de uma morte prematura
pois foi quando perdi minha inocência.

Em meus sonos incomodados
apita a chaminé da fábrica
enquanto uma multidão
em lentidão invadia as ruas
ainda escuras
pela manhã a tornar-se dia
revelando as roupas operárias
algumas remendadas
simples protegendo o corpo
de um sereno que caia branco
nos pés daqueles que passavam.

Continuo a caminhar pelas
mesmas ruas
as esquinas que não mudaram
as casas de paredes de tijolos
e cortinas brancas
que se levantam num rodopio
de um vento sorrateiro.

As pessoas são as mesmas
que já morreram
mas continuam ainda
teimosamente caminhando
e cruzando por mim
e pisando em meus passos
sem nenhum pudor.
Imagens diáfanas que por instantes
invadiram meus olhos
que não se deixam enganar.

E vejo adiante
um amigo que não conversa
mais comigo
um outro alí distante
que desconversa
um amor do passado
que continua amando
como no passado
aquilo que foi mantido
num tempo que deixou
de existir agora.

Mas que importa o agora
se nos sonhos nem o agora
existe
nem o passado
apenas existe
um sonho que confunde
os vivos dos mortos
e assim todos juntos
possam novamente povoar
as ruas do passado
neste exato momento.

 

 

Um destino mal traçado

Nunca acreditei em destino
seja ela construída
por uma necessidade minha
seja inventada mesmo
por uma futilidade
de uma mente insana.

Mas ainda que queira mudar
um caminho antes traçado
desses que cortam as vielas
das vilas de São Paulo
nunca deixei uma rota
que somente os meus pés
conhecem
instintivamente
por sobrevivência.

Toda vez que saio do rumo
penso que enganei
os deuses do caminho
mais dentro me encontro
no mesmo caminho
antes tomado.

Ainda assim não acredito
num destino.
Quando surge uma chance
tento enganar alguém
tento enganar a mim mesmo
numa malcriação geniosa
meio infantil
só para não ceder
não se deixar vencer
pelas previsões de uma cigana
que vive pelas ruas
a ler as palmas
daqueles que querem ainda
descobrir os segredos de um caminho
que jamais foi traçado
pelos anjos e deuses
demônios e duendes.

Senão pela própria
andadura numa laje
endurecida pelos passos
que desconhecia.
Eram as minhas.

 

 

 

 

chicohanda@yahoo.com.br

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