CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Balada de Orin

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Balada de Orin

 

Filmes japoneses antigos, bem como os atuais, que não foram exibidos nas salas comerciais, fora daquele país, podem ser apreciados com deleite pelos aficionados por esta arte, através da comunicação eletrônica das redes sociais. Se não fosse assim, não saberia como?

O que merece atenção, neste artigo, é Balada de Orin, produção da Toho, de 1977. Podemos falar não apenas de cinema, a arte visual por excelência, também da temática, de história e antropologia. O título em japonês é Hanare Goze Orin. A história se refere a um recorte, o do período da Guerra Russo Japonesa, de 1904 a 1905, durante o governo do imperador Meiji. Lá se encontra Orin, a pequena cega, que desconhece quem sejam os seus pais. Por alguma fatalidade, ela é resgatada do mal destino e conduzida a um grupo de goze.

Estas eram mulheres cegas (apenas mulheres) que iniciavam nas artes do entretenimento ao animar festas e portas das casas, ao tocar shamisen e entoar canções populares com temáticas variadas.

Nem todas as cegas se tornavam goze, outras, massagistas, e quem sabe xamã e atuassem como sacerdotisa xintó, uma miko. Na pior das hipóteses, numa itako.

O país vive uma situação de grande transformação, em que a guerra com os países vizinhos, em busca de matéria prima e alimentação, vai determinar a aceleração do crescimento da indústria e dos grupos econômicos hegemônicos. Para Orin, nada daquilo tem grande importância, senão a de se tornar numa autêntica goze. O processo é lento, de treinamento incansável do corpo e do espírito: aos 13 anos se torna noiva de Kami, num rito xintoísta. Mas os ensinamentos de resignação são budistas, lançando-se nos braços e vontade do Buda Amitabha. “A goze dedica seus ouvidos, nariz, boca, mãos e pés, tudo que tem, a Amitabha”, ensina a mestre. A mestre goze se torna também a mãe adotiva de Orin.

Nunca a goze deve ceder aos encantos de um homem, que ao ser seduzida por ele, perde poder e trai o juramento a Amitabha. As armadilhas, no entanto, estão presentes em cada esquina, nas festas, culminando nos encontros soturnos e, caso descobertas, são atiradas porta afora como uma abjurada. Estar entre as goze é uma espécie de sacerdócio, protegendo a si como às colegas-irmãs às tristezas e ilusões de mundo desencantado, perdido nos rumos de um mundo cada vez mais envolvido nas paixões desenfreadas e na decadência do ser. “Olhe aquela irmã – diz a mestre para Orin – que agora sofre as dores do corpo, demonstra sintomas de gravidez”. Não somente esta, outras da casa de Orin caem na cilada das tentações do amor.

Por isso, o mundo regrado das goze serve apenas para as mulheres determinadas, para que a sociedade não as condene, pois atuam também nas adjacências das práticas comuns. Andam em grupo, em fila indiana. Na frente, a mestre, a de trás toca com a mão as suas costas, vem a terceira, que toca a segunda; vem a quarta que toca a terceira, e assim sucessivamente. Esta imagem enche a tela, algo estranho, que se alonga como uma centopeia.

Sempre existe a cega da frente que conduz as outras mais, como que mostrasse o caminho a ser percorrido. Neva naquele momento, a última das mulheres é Orin, que ao entrar na adolescência sangra e a tinta marca seu quimono branco, também respingando sobre a neve. Por breve momento, desgarra-se assustada. A câmera se aproxima e mostra os respingos sobre o algodão fofo do chão, em que também nasceu uma rosa vermelha. O vermelho do sangue, também da vida, do despertar da sexualidade e da libido.

A irmã mais velha, que toca a mestre, percebe e avisa batendo com a mão. Chama: “Orin, Orin, onde você está”. Neste momento, responde “estou aqui”. Quase treze anos de treinamento, acompanhando a mestre-mãe nas festas, em que são contratadas, na falta destas, diante das casas. Usam ajiro gasa, um sombreiro grande, a maneira dos monges mendicantes. Nas costas uma trouxa, em que levam o necessário. Não largam nunca o shamisen.

Uma vez que se tornou irmã mais velha, passou a fase de aprendiz, agora uma profissional e na categoria de mestre, Orin possui mais autonomia. Perigo: sair do jugo da mestre, significa independência. Desgarra-se também da proteção de Amitabha e conhece as desgraças do mundo. Este mundo que se chama Saha, ou Shaba, o mesmo que Samsara. Quando retorna, a mestra a admoesta e pede que ela se retire daquela casa, pois caso continuasse ofenderia a Benzaiten, a deusa da música. A partir de então, Orin anda com os próprios pés, morando em templos abandonados e conhecendo a miséria e as dores do mundo.

Certa vez, a mestre teria advertido Orin: “Amitabha nos fez cegas para não enxergarmos as mazelas do mundo”. Orin sente frio e solidão, precisando da companhia masculina. Não faz exigências. Mas o único a quem entregou seu coração, não a quer como mulher. “Você é a minha irmã”, diz, ao que ela retruca: “Não sou a tua irmã, você é o homem que amo”. Ele é andarilho, num Japão que começa a modernizar-se, nem sempre para melhor. Como vendedor ambulante, confecciona e vende geta, os tamancos de madeira. Todos as vias de acesso, ruas e vielas, são controlados pelas facções yakuza, extorquindo dinheiro e ameaçando os camelôs. Trata-se de um Japão em que todos se viram da maneira que seja possível.

Talvez Orin seja menos cega do que os que enxergam. Vê com os olhos da alma, enquanto os outros tornam-se cada vez mais desalmados. São interesseiros, preocupados somente em satisfazer a si próprios. Os soldados marcham na chuva e estão preparados para lutar contra os russos, em nome do Imperador. Todos muito iludidos, inclusive Orin.

 

FRANCISCO HANDA

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