CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Dia de aniversário | Repetindo a rotina | Por amor se morre | Homem do realejo

 

Dia de aniversário

 

Quantas vezes as velas

foram acendidas

e novamente o bolo enfeitado

carregado no açúcar refinado

só para adoçar a vida sem graça

dos desafortunados pela graça

engraçado seria se fosse tragédia.

 

Mas a vida é comédia

e só podemos rir dela

daqueles que tem nesta vida

um papel engraçado

um papel sério empolado

nos ternos de linho azul

gravata engomada

de goma comprada

na rede de mercados

atacado e varejo

dos percevejos.

 

Que se pode comemorar

senão for a agradável presença

da dama de branco

que num beijo gelado

encerrará definitivamente

o dia de aniversário.

 

Talvez seja assim:

comemoramos um ano passado

em que vencemos mais uma vez

com força desenfreada

sua visita sinistra.

Ponha-se fora daqui

ainda posso soprar velinhas!

 


 

Repetindo a rotina

 

Sem nenhuma diferença

como sempre fazia

punha o paletó e camisa branca

colarinho alto

sapato engraxado.

Tomava café no bar do Tomé

na mesma dosagem de sacarina

que fazia mal à saúde.

Comprava jornal na banca da Avenida

o mesmo de sempre.

As notícias de sempre

sem novidade alguma

o mesmo cronista social,

o político e o policial.

Mas alguma coisa mudou:

Ao invés de ir ao trabalho

retornou e leu o jornal

releu por inteiro.

– Não iria mais ao trabalho

estava aposentado…

 


 

Por amor se morre

 

Após a morte do pai

cada vez mais pedia a mãe:

que os filhos casassem bem.

 

O primeiro que casou

engenheiro formado foi com

a filha de um empresário

muito bem sucedido.

 

O segundo que se formou

engenheiro também, casou

com a filha de um produtor

de ovos e aves de abate.

 

A terceira foi a filha que casou

com um rapaz de família humilde.

Casamento egoísta,

foi por amor, somente amor para ela.

Desesperada a mãe

pôs fim à vida

enforcando-se na batente da porta.

 


 

Homem do realejo

 

Neste bairro ainda tem

homem do realejo.

Acreditem que tem

periquito verde que tira sorte.

Para a mulher solteira prevê

um marido à espreita.

Para o homem sem casa prevê

uma casa ainda que tarde.

Para quem amou todas as mulheres prevê

umas tantas e outras.

Para quem andou por estas terras prevê

outras terras ainda.

 

Um dia

o homem do realejo distraiu-se

um gato abocanhou o periquito

e todos os sonhos

dos que ainda tem fé.

 

FRANCISCO HANDA

FRANCISCO HANDA

chicohanda@yahoo.com.br
FRANCISCO HANDA

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