CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Sem qualquer arrependimento | A passagem | A dor da poesia

Sem qualquer arrependimento

 

Que sensação é esta em que

O tempo do agora não clama por saudade

Nem a idade que marca na pele

Uma cor cinza dos céus de inverno

Tenha alguma importância.

 

Deixei de abrir os álbuns antigos

De fotografias, que me importava isso

Se nada mais se passava de fantasmas

Soltos pelas esquinas

Com suas caras brancas enevoadas.

 

Uma estranha tranquilidade

Parece incomodar

Muito mais pela ausência de qualquer

Tristeza, condição de viver uma humanidade

Sempre a cometer os mesmos erros

Do medo de ser plenamente livre

De morrer neste mesmo momento

Sem mostrar desespero

Ou qualquer arrependimento

De ser apenas eu mesmo.

 


 

A passagem

 

Sem pensamento algum

A vida se estende pelas paredes

Nas unhas de gato tão verdes

Nas manhãs de inverno

A penetrar a cal

Numa calmaria que ignora

A lua se pondo e a surgir

Noites adentro.

 

Nenhum incômodo mais

Senão esta coceira

Na perna direita que torna

A vida mais interessante.

 


 

A dor da poesia

 

Que poderia ser a poesia

Do que palavras ainda não ditas

Abortadas às vezes

Outras vezes perdidas nas calçadas

De um bolso furado.

 

São como as águas a correr

Após a enxurrada

Sem se deter nas bocas de lobo

Levando consigo o sentimento

De um mundo destroçado

De corações dilacerados

Pela ilusão evanescente de um amor

Errante

Num momento errado.

 

Poesia é palavra encontrada

No vale profundo da existência

Antes deixada de lado

Um fragmento arqueológico

A contar histórias de um tempo ido.

 

Palavras inventadas num jogo de

Amarelinha

Os passos rápidos da criança

Marcando o chão da calçada

Em queda certeira

A sangrar nos joelhos.

Poesia é dor sentida

Insistentemente vivida

No instante presente.

FRANCISCO HANDA

FRANCISCO HANDA

chicohanda@yahoo.com.br
FRANCISCO HANDA

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