CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A era das incertezas na curva da esquina

Quando o historiador inglês Eric Hobsbawm em seu último volume das eras, a Era dos Extremos, aquele viveu grande parte de sua vida no século XX, com o alvorecer do XXI, vislumbrou um período em que qualquer certeza seria apenas uma leve lembrança do que seria a esperança do século anterior. Conhecido também como o período da pós-modernidade, um incômodo parece ser a condição dos homens e mulheres. Sem falar, hoje em dia dos gêneros. Nunca se viveu momentos de grande confusão, seja nas fronteiras nacionais, seja em outros mares e mares nunca navegados. As informações são muitas, sem que ganhemos em conhecimento, menos em sabedoria.  Informações que atendem a grupos de interesse nunca foi tão polarizada. A potência das máquinas tornou o mundo menor, geograficamente menor e maior o mundo virtual, numa rede de informação rápida, boataria, asneiras e preconceito.

Não temos certeza, inclusive, se os veículos de comunicação, como os jornais, das redes de televisão, da imprensa escrita, divulgam notícias isentas de determinada ideologia de classe, de grupos econômicos, de comportamento liberal ou conservador, católico ou protestante (neo-protestante, milenarista e apocalíptico). Posto de outra forma, nunca a informação pautou-se pela neutralidade, algo impossível em se tratando da vida social e da construção histórica.

Outro dia, uma moça disse-me de que nunca entendeu História, cuja disciplina não a agradava, sobretudo pela documentação dos conflitos humanos: as guerras. Mas desde que se conhece a humanidade, a guerra foi uma constante em todos os séculos, na expansão dos impérios, na conquista das Índias Ocidentais, no processo de colonização, dominação e libertação.

Esta situação não mudou, e ela se dá não somente nos territórios em conflito, também em locais distantes, em sociedades organizadas e sob um regime de mercado aberto. No século passado, aquele que tão bem descreveu Eric Hobsbawm, o mundo dividido entre os do lado de cá, livres, sob o comando de nações soberanas como os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão, do outro lado, o lado vermelho e suspeito, estavam a União Soviética, a China, e os países do leste europeu. Misseis apontados, de um lado para o outro, a guerra-fria, o serviço de espionagem como a CIA e a KGB renderam uma infinidade de romances como “O espião que saiu do frio”, de John Le Carré, as revistinhas de banca como ZZ7.

De um dia para outro, o lado de lá ruiu e o Muro de Berlim foi destruído a marretadas. Um amigo que lá esteve, me deu de presente, numa embalagem de plástico um pedaço minúsculo do tijolo daquele muro. O inimigo tinha sido destruído, ou melhor, caído por si mesmo, num sistema que se tornou insustentável. Pior para eles, que nunca mais liderou a lista do país que mais medalhas de ouro, prata e bronze, obtiveram em jogos olímpicos. Por algum tempo, ninguém superava dos soviéticos em diversas modalidades. Nem os cubanos, aliás, nem os alemães do lado oriental.

Se a bipolaridade entre deus e o diabo, céu e inferno, o bem e o mal, tinha sido desfeito com a vitória dos azuis e, consequentemente, derrota dos vermelhos, a felicidade não seria maior. Eliminar o mal, sobraria apenas o bem. Francis Fukuyama, na década de 80, também teria declarado algo como o fim da história com a vitória do liberalismo. Havia certezas no século XX, o que inspirava conforto. Era a época da verdade da ciência, a razão acima de tudo, a racionalidade do capital e dos interesses de mercado.

Nem muito tempo durou para se comemorar. Outros muros foram construídos, alguns bem visíveis, outros invisíveis, cuja finalidade é a separação. De pouco a pouco a Europa unificada começa a desaparecer e as fronteiras surgem como as nuvens de verão. Tamanha irracionalidade, em que as emoções tomaram conta seja nas igrejas de matiz carismática, igualmente nas redes sociais em que qualquer um pode falar o que quiser. Existe agora, o anonimato das vozes que se pronunciam e sobre tudo. Determinados protestos também se tornaram anônimos, como os das batedoras de panela em suas cozinhas nos baixos chiques e da classe média.

Pior do que tudo isso é o fim da crença numa ideologia. Para a desgraça do pensamento mais à esquerda, vilipendiada por pensamentos diversas àquela, atirado na lama ao ser associado às atitudes espúrias envolvendo o capital, o lado vencedor seria os liberais e conservadores. Uma vez, o mal destruído, o bem triunfaria. Acontece que este outro lado, supostamente bom, não era tão bom assim. Vermelhos e azuis (ou verde-amarelo) não se diferenciavam tanto assim, pelo menos em se tratando da condição pragmática da vida. A derrota sobretudo foi dos que acreditavam na ideologia, que se manteve ideologia e distanciada da realidade das paixões humanas.

Trata-se de um novo mundo, que começa em alta velocidade, muito menos consistente do que no século XX. Não é melhor, nem pior, apenas diferente. Para superar tamanha inconsistência, o homem deve desenvolver outras capacidades criativas e abandonar modelos ultrapassados. Caso contrário, a técnica definitivamente vencerá o homem. Não teria que ser o inverso? A crença igualmente deverá passar por um viés crítico, menos romântico, mais próximo de uma realidade histórica de movimento e parada.

 

FRANCISCO HANDA

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