CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A falência das ideologias

Nunca como antes vivemos em momentos tão incertos. Talvez a incerteza sempre foi uma condição histórica, entretanto, principalmente no século XX, uma crença passou a nortear o conhecimento humano. Era a certeza, mais do que nunca, no racionalismo e no direcionamento da ciência. Assim, tudo deveria ter uma finalidade, bem como o método para se alcançar este objetivo. Acreditava-se sobretudo na ideia de progresso, que de maneira enfática tornou-se um símbolo nacional da República.

O final do século XIX marca este início, a da era da certeza, pois embasada estava nos alicerces de ferro e concreto da ciência. Tratava-se no advento do positivismo e as ciências positivas, como a sociologia. Se nos tempos passados a subjetividade era o motor da história, com toda a sua complexidade, nada mais seria capaz agora de impedir o avanço do homem em direção da tecnologia e dominação da natureza.

Se o progresso humano era uma condição humana, de desenvolvimento e aperfeiçoamento, o fim sempre seria de grande realização e felicidade. Dizia-se então, nas conversas mais triviais, de que apesar das dificuldades do momento, haveria no final do túmulo uma luz. Esta crença na luz era de que o progresso chegaria de maneira inexorável, pois fazia parte da lei de evolução. Foi este o termo também utilizado: evolução.

Algo bastante comum, aliás, em religiões modernas como o espiritismo, a umbanda, e outras que abominaram o termo religião mas continuam professando crenças, no caso científicas (ou quase), como a teosofia, a rosacruz, a eubiose e demais. Estes não são considerados religião, pelos seus fundadores e seguidores, mas continuaram tendo uma crença, em última instância uma fé, da mesma forma que os religiosos.

De repente, o mundo começa a mudar e a história toma um outro caminho. Dá-se início a era da Incerteza, tão bem exposto por Eric Hobsbawm, aquele historiador marxista inglês, ao tratar do século XXI, que ele próprio não teve tempo de conhecer. Morreu em 2012. Tratava-se sobretudo da crença na ideologia. A ideologia existe no mundo das ideias, portanto naquilo que não se realizou ainda, como uma possibilidade, tendo por suporte a ciência que levava a crer como deveria ser. A crença numa lei que dá sentido às coisas, que tinha uma explicação científica. O próprio marxismo se considerava científica, portanto a emancipação do trabalhador aconteceria e assim abriria caminho para a revolução socialista. Ao descaracterizar a ciência como um método capaz de conduzir o nosso entendimento, acabamos ficando sem rumo, gera neste momento o desconforto da incerteza.

Não se trata em criticar a ciência, que tem a sua função no mundo moderno, como o mito tinha no mundo antigo, mas de colocar em dúvida as nossas certezas. A crença nesta certeza faz com que o homem crie uma organização mental, que dá sentido à vida. Muitas vezes, as crenças mudam de lugar, são substituídas por outras, mas de alguma forma continuam a existir num campo amplo de possibilidades.  Deixou de existir uma hegemonia de atitudes e pensamento numa rede de informações que confunde e produz a contradição.

Ainda que a incerteza seja uma condição destes dias tortuosos, conhecido também como pós-modernidade (para outros, “tempos líquidos”), a natureza humana exige um porto seguro, que se conhece por crença, que fomenta também as ideologias. Sem que isso exista, os sonhos desaparecem. Os sonhos são apenas sonhos, que criam um estado de satisfação, mas um dia, por algum desajuste, provocar pesadelos. Somos, no entanto, resistentes, agarrando com toda a força no que resta desta ideologia. Pode-se acreditar no céu, no juízo final com premiação aos justos, entre os quais nós próprios incluímos. Pode-se acreditar em extraterrestres, bem como em anjos e demônios, na intervenção deles com seus poderes paralelos.

A crise surge no momento que as crenças são transformadas em cinzas e caem por terra, caso não exista um mecanismo de realimentação. Acreditou-se que com o fim da União Soviética, o mundo estaria salvo do perigo do comunismo, palavra maldita para os conservadores e liberais na economia, menos no pensamento. Mas o comunismo pensado como ideologia somente existia na dialética do capitalismo, uma resposta devido as falhas deste último. Se o comunismo acaba como ideologia, não quer dizer vitória do capitalismo como ideologia. A crença no liberalismo também é uma ideologia, que propõe a liberdade como condição do homem contemporâneo; ou seria isso uma utopia, num mundo em que as utopias não têm mais vez.

Enquanto acredita-se de que o mal é o outro, que pensa diferente, age diferente, usa roupas diferentes, com o fim daquele, tudo se resolve, um silêncio se faz ao deparar de que o mal também é comum em nossas fileiras, que nunca foi questionado. Não cabe apenas destruir a ideologia do outro, mas própria ideologia, ou seja, sistema de crenças que não condiz com o movimento concreto da história. Outras ideologias serão criadas, mas destruí-las também tem a sua importância. As ideologias são criadas para contrapor-se a outras ideologias. Uma crença em relação a uma outra crença. A verdade no campo da cultura é uma ideologia, pois cada lado diz ser detentor dela.

 

FRANCISCO HANDA

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