CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A mulher de Osorezan

Houve de fato um tempo em que o cinema japonês possuía atores talentosos e diretores de grande sensibilidade. Descobrir este cinema, de Heinosuke Goshô (1902-1981), como Osorezan no onna, é algo bastante singular para quem gosta da sétima arte, de uma época que os japoneses estavam inventando uma maneira própria de contar uma história. Este filme, de 1966, por algum motivo especial, produzido em preto e branco, e distribuído pela Shochiku. Antes, Goshô teria produzido em cores, como o Corvo Amarelo (1957), aliás passado em São Paulo em circuito comercial. Não teria sido, com exclusividade, em salas especiais dos cinemas frequentados pelos japoneses, no Bairro da Liberdade.

Retornemos ao filme que nos interessa comentar. Osorezan no onna teria sido lançado no estrangeiro como The innocense witch (A feiticeira inocente), considerando-se que Osorezan distancia-se do entendimento ocidental. Trata-se do monte Osore, ou seja, o monte do medo, localizado na província de Aomori. Como no próprio filme, bem em sua abertura ensina, Osorezan é um dos três montes sagrados naquele país. No caso, neste local fica aquilo que pode ser o mais estranho sítio religioso: acredita-se de que as almas possam ser chamadas neste local pelas místicas xamãs cegas, conhecidas por Itako.

 

 

Não é bem um filme sobre Osorezan, de maneira indireta, da vida incerta da jovem Ayako Oshima (Jitsuko Yoshimura) que, para ajudar a família, se entrega a um serviço comum das meninas pobres, a prostituição. Um tema pesado, que Goshô consegue lidar com desenvoltura, sem cair num discurso da exploração da piedade vulgar. Era uma condição da época, que coincide com o início da guerra, em 1938.

A questão da guerra também é aproveitada como cenário de fundo, como quando marinheiros chegam ao bordel. Nenhum contraste pode ser mais significativo. Aqueles jovens da Marinha Imperial, que lutarão nos mares do Pacífico sul, exibem orgulhosos os seus uniformes brancos e passados. Do outro lado, estão as mulheres da casa, com seus quimonos coloridos. De certo, o filme não é colorido, que cria um ambiente de grandes contrastes. Ainda que o cinema tivesse conquistado as cores, o preto e branco de Goshô não poderia ter melhor resultado.

Havia então um sentimento patriótico, confundindo-se com a vida particular de seus habitantes. Goshô tem uma preocupação com a condição feminina, tal comol Kenji Mizoguchi. Sendo Ayako o centro desta história, na condição que abraçara, acaba se envolvendo com três homens, cada um deles tendo uma morte após o envolvimento amoroso. Dizia-se de que estas “mulheres do prazer” podiam vender os seus corpos, mas nunca os seus corações”. Este foi o conselho da dona do bordel. Ainda que ela tivesse evitado uma aproximação mais intensa de sentimentos, os homens se perdiam num arroubo de sensualidade e a perda da razão.

Pior ainda era saber de que os três homens eram justamente o pai e os seus dois filhos, cujas mortes, despertou por parte dos outros, uma desconfiança de que ela tivesse sido tomada por um demônio. Algo estranho tinha sido observado antes, os seus olhos grandes e penetrantes.  Numa das representações do teatro Noh, a máscara demoníaca de Hannya é justamente a dos olhos imensos prontos a devorar as suas vítimas. Em Ayako, os olhos não possuem o temor que poderia despertar, mas um misterioso fascínio capaz de seduzir os menos avisados.

Algo bastante primitivo está presente na alma humana, um inconsciente que pertence ao campo do desconhecido, totalmente incontrolável pelos meios mecânicos da técnica experimental. Osorezan é este desconhecido. O homem em sua potencialidade também é o desconhecido, que melhor expressam as xamãs cegas em seus cantos e encantamentos diante da incerteza que não dá conta do mistério da vida e morte.

Em se tratando de cinema, Heinosuke Goshô cria a poesia num mundo em sua irreal condição como algo inteligível. Nem o cinema deseja explicar, apenas usar das imagens para criar uma linguagem estética, único meio de apreciação de um movimento que não cessa, mudando e transformando. Todas as emoções como felicidade, amor, desejo e realização não passam de cinzas que ainda mantém acesas a esperança de que o calor não desapareça. O calor que alimenta igualmente os nossos sonhos e ilusões. O cinema é uma ilusão, que se organiza, ou tenta, não muito diferente da ilusão da própria vida em seu excesso de realidade.

 

FRANCISCO HANDA

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