CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A perda da representatividade

Chegamos a um ponto de que qualquer opinião política que damos, a respeito do grupo político que desgostamos, será um mero detalhe, sem grande importância se levarmos em consideração de que o grupo que apoiamos pode ter implicações morais e deslizes tão perniciosos que faz corar os mais inocentes. Digo inocente no sentido de ignorantes das causas apresentadas. Será que o corrompido do grupo que tenho simpatia é menos do que aquele do grupo que se opõe às minhas ideias e interesses? Se isso acontecer, minha neutralidade cai por terra e as minhas preferências e escolhas se tornam prioritárias. Possivelmente a neutralidade é uma convenção desejada no campo da moralidade, que perde a validade ao considerar o homem como um ser apaixonado e de vaidade extrapolada.

Isso gera uma grande confusão no país em que vivemos. Perdemos totalmente as nossas referências, pois a própria crença naquilo que apostamos acaba sendo questionada. Aprendemos desde cedo de que os parlamentares são os nossos representantes, que elegemos através da confiança depositada neles através do voto direto nas eleições livres. Nenhum parlamentar assume o posto sem uma legitimidade, a que lhe foi confiada. Isso se chama democracia representativa. Posto de outra forma, o parlamentar, seja no legislativo, seja no executivo, deve defender os interesses de seus eleitores.

A democracia representativa surge da necessidade de alguém defender os interesses do cidadão. Por isso, o parlamentar fala em nome do eleitor, que depositou nele a capacidade de pronunciar-se na Câmara Municipal, na Assembleia Legislativa, no Congresso Nacional e no Senado. Mas será que o eleitor sabe disso? Será que o parlamentar se dá conta desta transferência de poder, em falar em nome do cidadão? Após as eleições o parlamentar eleito agradece os votos recebidos e assume o posto caso seja eleito. A partir de então, a situação muda. O parlamentar atua em defesa de causas que acha justas, outras de seu interesse, outras ainda para agradar seus aliados políticos. Nada disso é realizado após consultar o seu eleitorado. Consultar as bases seria importante, mas algumas dessas bases nem existem, em outros casos organizações como sindicatos e outros servem de balizas de consulta.

Podemos dizer de que a democracia representativa é uma alternativa válida, desde que cumpra a sua função. O que diferencia desta forma de se fazer política é a democracia direta, o que causa mal estar no próprio sistema de democracia nos moldes republicanos e moderno. Muito mais ágil seria a atuação dos parlamentares em suas tarefas em aprovar e executar os projetos de mudança e melhoria da cidade, do estado, do país. Nem sempre isso acontece em conformidade do interesse do eleitorado. É uma falha da representatividade. Caso isso aconteça, não pode se tornar uma frequência, o que anularia a confiança do eleitorado.

Num certo momento é tolerável algumas diferenças entre o que faz o político e o que espera o seu eleitorado. Mas se torna uma falácia quando toda confiança é perdida e o parlamentar deixa de representar o cidadão. Nesse caso, o parlamentar se torna alguém estranho num espaço público da representação. Tudo que fizer o parlamentar é de seu próprio interesse, realizando troca de favores, alianças e tornando a atividade política num jogo político indesejável. Nada daquilo é aprovado pelo cidadão, que se esqueceu até do nome do parlamentar que elegeu. A desconfiança em relação ao político acontece até a próxima eleição, quando novamente as promessas são feitas e repetem-se os erros.

Tal situação se torna insustentável quando o parlamentar atua totalmente envolvido numa dinâmica das jogadas políticas em que toma parte o executivo, que distribui favores em forma de secretarias e ministérios aos grupos aliados, bem como verbas aos representantes no Congresso Nacional, que em troca defendem a governabilidade de um governo abalado por acusações e intimações do judiciário. Com cotação de popularidade baixa, os parlamentares que se renderam aos favores recebidos defendem o executivo, independente da vontade popular. É como se os eleitores não tivessem importância alguma.

A desconfiança nos políticos é a descrença também no sistema falho da democracia representativa. Os eleitores podem dizer, diante desta situação, “ninguém mais me representa”. Poderá inclusive boicotar as próximas eleições. Recentemente uma pessoa se dirigiu a mim e disse: “Vamos mudar estes políticos, elegendo outros”. Sempre foi assim. Os velhos continuam se elegendo e os novos não são melhores que os anteriores. Até que se prove de que o novo é realmente novo, com a mudança de mentalidade e comportamento, terei dúvidas sobre a representação.  Tenho fé no sistema de representação mas deixei há muito de acreditar em fadas e bruxas.

 

FRANCISCO HANDA

FRANCISCO HANDA

chicohanda@yahoo.com.br
FRANCISCO HANDA

Últimos posts por FRANCISCO HANDA (exibir todos)

     

    Related Post

    JORGE NAGAO: Corínthians, faz me rir! e Balanço do...   Corínthians, faz-me rir!   O Corínthians de 2017 que faz os adversários chorar já os fez rir muito nos anos 60. No fina...
    MUNDO VIRTUAL: Inteligência cibernética – su... Meu intuito hoje é estabelecer uma relação entre a forma de funcionamento da mente humana e a obtenção de benefícios no mundo virtual, a partir da idé...
    FERNANDO ROSA: Aprenda a usar a Roda da Abundância... Uma poderosa ferramenta utilizada nos processos de Coaching, é a Roda da Abundância. Uma roda que tem como base 4 verbos: Declarar, Solicitar, Agir e ...
    JORGE NAGAO: #forçachape | Vento musical | CBA, de... #forçachape para Dona Ilaídes, mãe do goleiro Danilo um time sonha dor joga dor torce dor mora dor mas na Colômbia avia dor causa dor corr...

    Faça seu comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *