CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A traição do guerreiro

Em momentos de crise política, tempos instáveis em que os interesses das partes envolvidas, os principais interessados, têm a alma nublada pelas paixões e, assim, articulam alianças momentâneas que tendem a mudar. Na história japonesa, este período refere-se ao chamado Azuchi Momoyama, com o fim do shogunato Ashikaga (1336-1573). Momentos de grande intranquilidade, em que o general Oda Nobunaga empreende uma guerra civil de proporções catastróficas contra os demais príncipes feudais, na tentativa de unificar o país.

Como bom estrategista, Nobunaga vence cada oponente, minando alocais ao conquistar terreno. Os próprios príncipes, entre si, lutam para estender suas fronteiras. A desordem é generalizada. Não se deixando intimidar, Oda Nobunaga derrota o clã Takeda na batalha de Nagashino em 1575. Antes caiu sob as suas forças Azai e Asakura.

O que acontece neste período teria sido uma continuidade do último século do Shogunato Ashikaga, conhecido por Sengoku (1467-1573). Época em que os diversos clãs lutam entre si a fim de suplantar o poder diante da fraqueza do shogun Ashikaga. São famílias de raiz como Hojo, Takeda, Uesugi, Mori e Imagawa. Diante destes, a família Oda não tinha grande importância, mas foi quem se destacou no período das guerras.

Entretanto, sozinho não se ganha batalhas: as alianças são consolidadas. São alianças frágeis, pois atendem necessidades momentâneas. O meu aliado de hoje pode se tornar o inimigo de amanhã. A luta é fratricida, envolvendo irmãos de sangue, muitas vezes de mães diferentes, que pleiteiam poder em suas regiões. Isso aconteceu também com Oda Nobunaga. Não se tratava de um Oda qualquer, mas de Oda Nobunaga, que antes de unificar o Japão, teve que sobressair na própria terra de origem, Owari. Eliminou os irmãos que impediam sua ascensão, como Nobuyuki.

Sua maior façanha foi a de vencer o exército do clã Matsudaira, aliado do clã Imagawa, que avançava em direção a Kyoto. Alguns reveses, não impediu de derrotá-los, condenando o clã Imagawa e forjar uma aliança com o Matsudaira. Teria dado início à campanha de unificação do país. Muita trama contribuiu para o processo de conquista, derrotando também, além dos príncipes feudais, resistências feudais religiosas como a dos monges guerreiros do Monte Hiei, o mosteiro Enryaku-ji. Tratava-se de uma aristocracia do clero budista que no decorrer dos anos se tornou poderosa, autônoma, que não se submetia à autoridade. Este fenômeno religioso deu-se também entre os resistentes do Ikkô-Ikki, formado por populares, sacerdotes budistas da seita leiga Honganji, nobres locais, que lutavam contra a hegemonia da classe guerreira – samurais ou Bushi.

Vencidos os oponentes, Oda Nobunaga vacilou quanto àqueles que lutavam a seu favor. Lealdade, em tempo de confusão, não pode ser levado a sério. Mesmo considerando-se num mundo em que as relações sejam pautadas por um código de conduta, o Bushidô. Podemos colocar, inclusive, o Bushidô em dúvida quando se trata das condições concretas da existência, em que as ideologias caem por terra. O que vale, neste caso, são os afetos que interferem em nossas decisões, nem sempre muito elegantes.

O caso se refere a traição de Akechi Mitsuhide, um dos homens de confiança de Nobunaga. No incidente de Honno-ji, Nobunaga se vê obrigado a cometer seppuku, mandando queimar o local para que não encontrassem a sua cabeça. Em junho de 1582, Akechi ataca o templo de surpresa, onde Nobunaga descansava. Tratava-se de um golpe, que tentava encerrar a campanha de Nobunaga em unificar definitivamente o país. Não se sabe direito das causas desta súbita mudança de atitude do homem de confiança. Haveria causas particulares, bem como a ânsia de Akechi em assumir o posto de Nobunaga? Nunca se soube direito.

Mais tarde, Akechi é morto na Batalha de Yamazaki por Hideyoshi, fiel general de Nobunaga. Mas o trunfo de Hideyoshi não demorou tanto. Após sua morte, as intrigas se formaram no próprio meio. Hideyoshi era de origem camponesa, que não agravada muito os demais, de linhagem aristocrática. Quem sobressai neste momento é Tokugawa Ieasu (do clã Matsudaira), que mais tarde irá definir o destino do Japão após a Batalha de Sekigahara, de 1600. Para isso, atraiu para o seu lado os que não nutriam simpatia por Hideyoshi.

Poderia se considerar Tokugawa como um anti-legalista, que se opunha agora a Oda Nobunaga, seu antigo aliado. Em Sekigahara algo estranho aconteceu. Os legalistas contavam com a maior parte dos que o apoiavam, liderados por Ishida Mitsunari. No entanto, Tokugawa ruim em campo de batalha, era bom nas negociações e artimanhas políticas. Seduziu os generais do lado ocidental da batalha, como Mori, Kobayashikawa e Kikawa. A traição era a política da desconfiança, que muito soube lidar Tokugawa. Para estar no poder, subornava-se os inimigos que se tornam amigos. Mas não se sabia até quando.

Foi durante o shogunato Tokugawa, que se implantou o sistema sankin-kotai: os feudos mandavam seus príncipes para Edo, junto a Tokugawa, por um ano, depois que este retornava, ficava no lugar a esposa do príncipe. Refém? Possivelmente. Havia também uma razão econômica. O deslocamento para a capital de um príncipe feudal, com todo o seu séquito, exigia gastos enormes. Isso enfraquecia o feudo e desestimulava ações bélicas de resistência com Tokugawa. Não era uma política limpa, mas quem disse que a política tem que ser limpa?

 

FRANCISCO HANDA

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