CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A Trilha do Inferno de Itto Ogami

Começou como mangá, Kozure Okami foi lançado em 1970, em 28 volumes, em torno de 300 páginas cada um. O roteiro era de Kazuo Koike e arte de Goseki Kojima. Foi lançado no Brasil em 1988 pela Cedibra, em oito edições; depois em 1990, pela Nova Sampa; e finalmente pela Panini, em 2005. Atualmente, objeto de colecionadores. Mas acabou virando série de televisão e também filme. A série de televisão é possível achar na rede social da comunicação eletrônica. No Brasil foi exibida pela antiga TVS, atual SBT, nos anos 80 com o nome “Samurai Fugitivo”. Se as publicações em mangá causaram problemas, pois a série nunca se completava, não aconteceu o mesmo na televisão. Ao total, foram 79 exibições, que se iniciou na televisão japonesa em 1970 e findou em 1976.

 

 

Esta série faz parte da indústria cinematográfica japonesa, dos estúdios da Daiei e Nikkatsu, e diretores que trabalhavam bem o tema nos estúdios de produção de filmes chambará. Tratava-se de aventuras de heróis populares, bem diferente daqueles outros, os guerreiros com suas armaduras e elmos com emblemas de quarta crescente e chifres de veado. Esta adaptação não poderia ser melhor, tentando preservar o pouco da linguagem dos traços de mangá, tão valorizados. O ator escolhido para o papel de Ogami Itto (Lobo Solitário) foi de Kinnosuke Nakamura, que também assinava como Kinnosuke Yorozuya, conhecido por papeis como o de Miyamoto Musashi e Tange Sazen.

A série trata-se das viagens de Ogami Itto e seu filho de três anos, Daigoro, pelo Caminho do Inferno, o Meifumado. Toda a trama se dá a partir da cobiça do posto de Kaishakunin, de Ogami Itto, por Retsudo Yagyu, ambos a serviço do Shogun Tokugawa. Este último era o responsável pelo serviço de espionagem, conhecido por Ura Yagyu – aquele que age nas sombras. Mas Retsudo queria também o posto de Kaishakunin, assim poderia unificar todo o seu poder em torno do clã Tokugawa. Numa artimanha, Retsudo consegue incriminar Itto e eliminar a sua família. Mas sobram daquele, o próprio Itto, que se encontrava fora, e o filho Daigoro.

Assim nasce as aventuras de Itto Ogami e Daigoro, cujo título em japonês é Kozure Okami – Lobo Solitário e o filho. Perambulam pelo Japão do século XVII, num tempo que a paz tinha sido instalada pelo Shogunato Tokugawa. Num carro de bebê, rústico e reforçado, viaja Daigoro, sendo este conduzido por Itto. A sede de vingança anima pai e filho, que um dia desejam retornar a Edo, onde a mãe se encontra enterrada, também está Retsudo Yagyu. Por onde anda, aceita serviços de assassino: 500 ryo é o valor da execução. Antes ouve os motivos para isso, sem fazer julgamentos. Cada série está em volta de uma execução, mas também o encontro de uma marginalidade presente entre os comuns, prostitutas, salafrários, monges e espiões de toda natureza.

Um outro Japão é desvendado através desta ficção, entre possibilidades e simples imaginação. O que está oculto se mostra sem pudor algum. As prostitutas podem ser filhas vendidas pelos pais a um bordel, a fim de pagar uma dívida. Estas são exploradas por agentes inescrupulosos, aproveitando-se da existência de estradas, que liga Edo a Kyoto principalmente, conhecida por Tôkaido. Por lá trafegam toda espécie de gente, funcionários públicos, vagabundos, rônin (samurais errantes), príncipes feudais, e, sobretudo, espiões a serviço do governo central, e outros de feudos locais.

Contratar os serviços de Itto podia ser para eliminar alguém de posto elevado, que pode levar a falência de um feudo. Pode ser uma vingança comum, de uma traição, de um amor traído, para livrar alguém de um rufião. Não há lugar para o bem e o mal. Todos podem ser as duas coisas ao mesmo tempo. Nem mesmo os motivos inescrupulosos de Retsudo pode ser visto desta forma. Para este, eliminar Itto é o que o motiva. Para isso não mede esforços: comanda os ninjas Kurokuwa. Estes confundem-se na população e se reúnem para executar as tarefas de interesse de Retsudo. Vestem-se como ninjas, alguns, outros usam indumentária como os monges viajantes, com seus sombreiros (ajirogasa) de aba larga, cobrindo parte do rosto, outros ainda como os místicos Komusô, a tocar shakuhachi e usando cestos sobre as cabeças.

Retsudo é uma figura ambígua: samurai e ninja. Mantém a lealdade do samurai mas pode agir, conforme as exigências, como alguém distante das leis e normas. Talvez o mesmo aconteça com Itto, que no Meifumado, encontra-se totalmente alheio aos desejos do mundo.

As cenas de luta sempre são emocionantes no cinema japonês. Não se mostra os ferimentos, a espada cortando a carne, nem jatos de sangue. Quase sempre os golpes são desferidos quando os atores estão de costas para as câmeras. Depois de caídos, ao serem virados, não há corte algum. Apenas sugere-se. Trata-se neste momento de um bailado, quando a espada rodopia em círculos, mostrando a cena dos corpos caindo em câmera lenta.

A série de televisão, pelo menos, preza-se pela violência velada, o que não acontece no cinema e nas histórias em quadrinhos, o mangá.

Confira…

 

FRANCISCO HANDA

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