CANTO DO BACURI > Francisco Handa: As sombras do mundo gótico

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Certa vez li de Carl Gustav Jung, aquele da psicologia analítica, de que para entender a mente humana e seus dilemas, ao invés de recorrer à literatura do tipo psicológico, seria melhor buscar as fontes numa literatura popular, dessas de aventuras, conhecido por romanesco.

Nunca fui aficionado em HQ, mas foi justamente nesta categoria, do cinema, na trilogia dirigida por Christopher Nolan, no segundo filme, “O Cavaleiro das Trevas”, de 2008, algo estranho acontece. Nele, o vilão é o Coringa, interpretado por Heath Ledger, o mais incômodo de todos os coringas anteriores. Nos anos 60 tivemos Cesar Romero e em 1989 Jack Nicholson. Com Ledger como Coringa a maldade é consequência de um mundo que acontece unicamente numa cidade chamada Gotham City, dito de outra forma, Cidade Gótica. Quem vive nela são os seres góticos, como nos contos góticos, na literatura gótica de Mary Shelley em “Frankenstein” ou o “Drácula” de Bram Stoker.

Tudo parece fantasia, que passa desapercebido dos olhares e ouvidos menos atentos. Nesta cidade gótica, os atores que nela vivem desempenham papeis góticos, assim como a polícia, o prefeito, a juíza, os bandidos e os supostos heróis como Batman. Como diz Jung, a sombra está presente nas pessoas, que se oculta, podendo saltar em situações específicas. Assim, o próprio Batman vive este dilema: será Batman a sombra de Bruce Wayne ou o contrário. Não se sabe.

Podemos fazer uma simulação. Se Batman é a sombra de Bruce Wayne, este é o contrário daquele. Enquanto Bruce é milionário que vive das rendas de suas empresas, gosta de festas e mulheres belas, pode comprar tudo que desejar, de iates a empresas. Aplica no mercado de capitais e dobra a sua renda. Para compensar, faz doações para manter um orfanato. Quando chega noite, pois Gotham City é quase sempre noite, se transforma num mamífero que suga sangue e tem asas. Ele se transforma em morcego. Surge das sombras da noite e caça bandidos, ajuda o Comissário Gordon e é perseguido por ele.

O mesmo não acontece com o Coringa, que age sem bloqueios, não sendo um neurótico como os outros. Coringa é um esquizofrênico, cujo sorriso de palhaço foi construído ao cair no ácido, conforme a versão de 1989, alterando também a sua mente. Ele próprio não tem uma mente no sentido comum, pois faz o que dita suas pulsões. “Não faço planos”, diz ele. Somente os outros fazem planos, pois esperam um resultado. “Eu faço as coisas. A máfia faz planos. Os tiras fazem planos. Gordon faz planos. Fazem planos para controlar o mundinho deles”, como ele próprio confirma.

A sua maldade não tem uma causa que a justifique, senão a de ter sido um acidente. Não é pelo dinheiro que ele rouba um banco, senão pelo prazer de roubar. Numa montanha de dinheiro ele derrama gasolina e depois toca fogo. “Vocês só pensam em dinheiro. Esta cidade merece uma classe melhor de criminosos”, acusa Coringa os seus comparsas.

Será o Coringa o louco que veio destruir a ordem de uma cidade em que todos têm em comum o dilema da sombra? O que se mostra na sociedade é o inverso daquilo que se oculta no fundo das almas, a cidade gótica sendo arrasada pelo agente do caos, conforme afirma Coringa a respeito de si. Um mundo organizado em que as instituições funcionam através de regras, mas não isento de habitantes inibindo as suas fraquezas mais mórbidas. Na polícia de Gotham City existe um informante dos bandidos. Entre os próprios bandidos há delações de companheiros. O prefeito é suspeito e a juíza nebulosa.

Só existe um homem capaz de salvar Gotham, o promotor Harvey Dent. Se Batman é o cavaleiro das trevas, Dent age à luz do dia, conforme a hermenêutica dos códigos jurídicos. Mas Coringa o põe em cheque e prova que Dent tem o lado sombra. Desperta o ódio de Dent ao matar a noiva dele numa explosão e provocar a desfiguração dele. Remoído em sua desgraça, ele não quer a reparação do rosto, e na visita do Comissário Gordon força-o a dizer o que falavam a seu respeito. “Você é duas caras”. Assim nasce Duas Caras como personagem, que executa os seus desafetos num jogo de moedas. Se cair cara, ficará vivo, se for coroa, será executado com um tiro. Cumprindo o que dita a lei. A lei que acredita o Duas Caras. “Num mundo cruel, a única moralidade num mundo cruel é o acaso”, decidido em cara e coroa.

O aparecimento de Duas Caras é o trunfo do Coringa, que confirma que a corrupção é uma questão de tempo. Mais cedo, mais tarde. O próprio judiciário de Gotham tinha em Dent um jogador ao condenar ou absolver. Como Duas Caras, ele mostra verdadeiramente a sua alma dividida. “Achou que podíamos se homens decentes em tempos indecentes”, justifica ele. Por isso, de maneira imparcial, atirava a moeda para cima.

Achar que o Coringa sempre está certo em suas previsões, ao realizar as suas experiências sociais, e mostrar que a maldade faz parte do homem, ele próprio tem dúvidas. Da mesma forma que confirma as suas teses, erra outras vezes. Isso é frustrante para ele. Não podemos esquecer, no entanto, que o Coringa é um louco. Um louco é capaz de provar que um simulacro pode ser verdadeiro. Por isso, ele é tão fascinante.

Vamos esperar pelo Coringa de 2016, com Jared Leto, talvez mais sinistro ainda em tempos góticos em que vivemos. O gótico é a sombra que tememos. Temer é a condição da existência do caos, disse em outras palavras o Coringa.

 

 

FRANCISCO HANDA

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