CANTO DO BACURI > Francisco Handa: As terras de ninguém

 

 

 

 

 

 

Por momentos, ouviu-se na cidade, dos lavradores vindos dos cafezais, de que o Grande Império do Oriente vencera a guerra. De fato, mais uma vez os deuses triunfaram a favor do povo. Divulgaram uma foto em que os inimigos teriam assinado o termo de rendição a bordo do USS Missouri. Não havia dúvidas. Cópias de uma publicação corriam entre eles.
Alguns se mostraram exaltados, como Takashi M, tido como grande patriota, que desfilou pelos caminhos vicinais com uma vestimenta exótica de guerreiro feudal: faixa esticada na fronte. Os amigos pediram que parasse de se expor. Não obedeceu, seus ânimos exaltaram mais. Deixaram a vontade, pois estaria delirando?
Não era um caso a se levar a sério. Havia no entanto, pelos armazéns de abastecimento, feiras-livres, mercado municipal, bares espalhados pelo centro, próximos da pequeno ponto dos ônibus intermunicipais um falatório geral a respeito dos patriotas, que enalteciam a figura do Imperador e acreditavam na vitória na guerra do Pacífico.
Por outro lado, um outro partido se formara, que acreditavam aqueles, era de pessoas mal intencionadas, que afirmavam na derrota fulminante. Nada mais havia do que uma pátria desmantelada e que precisava ser reconstruída. Falavam que o país submetera-se ao comando de um enviado do presidente Harry Truman, o general Douglas MacArthur. Nada mais infame, achavam os patriotas. Ao que, estes passaram a insultar os supostos “traidores”, ao ponto de muitos deles mudarem-se para regiões menos expostos a manifestações deste tipo. Houve o caso da família Hanada, que veio para a região de Campinas, muito mais calmo em comparação com o interior. Não era em todo o estado que tais fatos foram levados ao ponto extremo.
Se alguma família se colocava a favor dos “corações sujos”, nome que se dava aos “traidores”, seria igualmente hostilizada. Por isso, muitos resolveram se calar. Esta aparente neutralidade também era visto com suspeita.
Existia no entanto jornalistas que defendiam o esclarecimento dos fatos. Nada muito interessante para os patriotas. Muitos foram até os locais das desavenças para mostrar a realidade. A situação se tornou crítica quando apareceram pessoas oferecendo terras a preços módicos nos locais conquistados. Terras que poderiam ser compradas nas pradarias da Manchúria, por exemplo, como também em outras regiões de colonização recente.
Um discurso que animava os sonhos daqueles que desejavam enriquecer-se, que se tornara real uma vez que terras não faltavam no oriente.
Foi assim que chegaram os corretores, com malas abarrotadas de mapas e plantas. Não havia necessidade de explicações. Quase sempre a venda era realizada. Havia um perfil para o comprador: chefes de família, que iludidos vendiam seus bens.
– Não faça isso, pai – tentou convencer, Akira, o primogênito da família K.
Tarde demais, sem a anuência dos filhos e da esposa, negociou a preço baixo o pequeno sítio. Entregou todo o dinheiro para o corretor. Nada mais sobrou, além da mala velha com roupas. Os filhos recusaram acompanhá-lo.
Não foi este um caso isolado. Outros bastante semelhante. De uma hora para outra, novos corretores apareciam, dizendo ter vindo de São Paulo. Vestiam-se de maneira elegante, um paletó sobre uma camisa branca e calças de linho, algo impressionante para quem acostumara-se a roupas simples do trabalho. Um chapéu de boa qualidade. Os sapatos também eram bons.
Faltou pouco para que Nobuyuki vendesse sua propriedade. Algo acontecera para que o negócio não vingasse. Sem dinheiro, declinou da oferta que lhe fazia o corretor. Uma fazenda num lugarejo próximo a Luzon, nas Filipinas. No último momento, ainda o corretor chegou a apelar:
– Apenas dê uma entrada, assim garantirá esta compra. – Não aconteceu para a frustração dele, e também do corretor.
Além destes corretores, havia também, para reforçar o clima deste ambiente, os vendedores de ienes. Realizavam o câmbio, trocando a moeda japonesa por valores nacionais. Assim poderiam carregar consigo dinheiro que tinham poupado assim que chegassem ao destino. Não apenas aqueles que tinham comprado terras nas colônias dos países conquistados, como os que nada tinham, senão o pouco que arrecadaram vendendo seus pertences, foram ao Porto de Santos na espera de um navio que pudesse levá-los novamente ao oriente.
Por algum tempo, muitos destes, habitando pensões, esperaram pela chegada do navio. Toda esperança estava na vinda dos marinheiros convidando-os a tomar seus assentos. Foi uma espera em vão. Nenhum navio aportou. Desiludidos, nada mais tinham a fazer do que admitir o fim do sonho. Nada mais tinham. Alguns tinham menos do que quando chegaram, mas isso não seria motivo para desistência. Retornaram a São Paulo, outros foram para o interior, pois trabalho não faltava. Havia muitas terras para serem desbravadas, não apenas em São Paulo, também no vizinho Paraná.
O fim de um sonho não significava admitir uma derrota. Apenas uma batalha perdida, uma entre outras, talvez esta a mais árdua, sem que pudesse abalar de vez com o sonho maior dos imigrantes. Sempre há um começo, ainda que a dor fosse quase insuportável. Insuportável seria mais do isso: não ter com que sonhar.

 

 

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