CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Boa menina na terra do sol

 

Havia na classe uma que se destacava, e não era de estranhar que esta fosse japonesa. Não era consolo para minha angústia: filho de japonês e aproveitamento médio. Trocando em miúdos, sumir em importância diante dos outros. Bem diferente daquela, nem bonita, sem que isso importasse. Ela tinha aquilo que todos os demais queriam. A facilidade em geometria, os complicados números, frações, x para cá, y para lá. Uma abstração complicada para a minha inteligência.

Chamava-se Midori, bastante comum para alguém que incomodava tanto. As melhores notas eram dela. Claro, havia outras que faziam média, normalmente meninas, pois os meninos não eram tão dados à disciplina dos estudos e o gosto pelos cadernos organizados e sem orelhas nas pontas dos livros.

Vem cá Luiz Ferreira – chamou a Terezinha.

Lépido, pôs-se em pé e diante da autoridade, óculos de fundo de garrafa, cabelos curtos e poucos amigos. Na mesa havia um carimbo, que indicou com olhar penetrante, como um sargento a fim de mostrar quem mandava. Não era a primeira vez, o Luiz, tanto esforçado diante das dificuldades da lida escolar, tentava agradar. De certo, agradar dona Terezinha era uma questão de sobrevivência. Solícito, corria para apagar a lousa, para copiar alguma lição, para trocar a água do vaso de flores.

De carteira em carteira, cadernos abertos, ele imprimia o carimbo após borrá-lo numa almofada de tinta preta. Aparecia a figura de um anjo com as mãos juntas, indicando uma oração. Um anjo de cabelos encaracolados, que as meninas pintavam de amarelo. Tratava-se de um anjo loiro, o que não me agradava. Queria algo melhor, como um que comportasse cabelos vermelhos.

– Diga-me doutor, explique as pintas negras na cara do anjo.

Parou a respiração. Explicação imediata, sem devaneios, o suficiente para receber em casa um bilhete incômodo, que devia ser trazido de volta com visto da mãe.

– Ele pegou sarampo.

Todos riram, enquanto Midori lançava um olhar fulminante de fruta ácida, pois a medida desafiava seus caprichos. Enganava os outros, não ela, que teve feridos os seus brios. Nunca tinha-me dirigido uma palavra e evitava cruzar os olhares. Havia muitos na classe e dificilmente alguém conhecia a todos, com quem podiam conversar. Mas naquela dia, durante o recreio, por alguma fatalidade, num cruzamento de corpos, estava diante dela. Olhos parados por segundos, os mais longos de minha vida, instantes eternos de criação deste mundo, os protozoários, as plantas, os primeiros animais de sangue frio. Como num filme, passados lentamente nos olhos de Midori.

Ela não era da cidade, tinha nascido na cidade vizinha, com quem a nossa acalentava uma rivalidade cerrada. Coisas do interior. Não muito longe de nossa casa, os pais delas inauguraram um mercado de secos e molhados, além de comercializarem frutas e legumes. Uma instalação simples, aproveitando um antigo armazém que encerrara as atividades. Quando não ia à escola, ajudava no balcão, penso eu. Quanto aos pais, introspectivos por natureza, tinham no comércio uma atividade possível, sem que fosse uma vocação. Possivelmente falavam japonês com os país, pois estes tinham dificuldades em comunicar-se em português, uma língua estrangeira, usada nas atividades fora de casa. Na escola, por exemplo. Para as vendas, comunicar-se numa língua geral era uma condição de sobrevivência, nem sempre bem aprendida.

Depois daquele ano de escola, nunca mais a vi. Não estudávamos na mesma instituição, por isso desconheço onde tenha-se metido. Inclusive, com os irmãos, não tínhamos ligações. Nossos pais, no entanto, conservavam a amizade, numa cidade em que os japoneses deviam se unir em laços de boa vizinhança.

Por longos anos Midori se tornou uma folha em branco em minha vida. Mas por algum imprevisto, minha mãe acalentou uma breve amizade com ela.

– Tenho uma amiga japonesa, é a Midori – disse.

O que aquilo significava para mim, senão indiferença. Nem procurei saber a respeito dela. Se não pronunciasse o nome, talvez seria um nome vago com alguma passagem de infância que pudesse ser esquecido. Procurei dissimular, mudando de assunto de maneira delicada para minha mãe não perceber. Não sei se percebeu mas ela ponderou meu pedido. Quando a minha mãe está com alguma novidade, como uma amizade nova, fica espavorida e quer chamar a atenção.

– Você não a conhece – insistiu.

– Sim – soou lacônico. Nada mais do que isso, e encerrei o assunto.

Aquela amizade estava com os dias contados, até que a resposta de Midori foi a gota d’água para um final insólito.

– Pensei que o seu filho fosse prestar medicina.

Para quem não gostava de biologia, medicina não teria sido uma carreira promissora. Minha mãe achou Midori insolente, como fosse a melhor mulher do mundo, que talvez tivesse prestado medicina. Um problema dela, que não me dizia respeito. Encerrou também a fase em que minha mãe agradava as amigas com presentes e outros recursos menos nobres. Nunca voltou a tocar naquele em nossa casa. Mas vinte anos depois, para esquentar a conversa com o meu paí, como fazia sempre, perguntei a respeito daquela família.

A mãe morreu de desgosto.

O que foi que aconteceu?

A filha casou-se com um outra pessoa.

 

 

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