CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Boneca de Madeira

Quando entrou na sala, um tanto confuso, com a vitrola no canto, num amontoado de vinil, via-se nas capas a cara de Misora Hibari num sorriso. Nada original, considerando-se que todos – ou quase todos – escutavam a voz encantada da cantora, ainda que os prováveis riscos no disco provocassem um chiado incessante e desagradável. Mais para o centro, havia um altarzinho de madeira, suspenso numa prateleira, onde se via um vaso com folhagens. Nada de flores. Chamavam de kamidaná, em que a avó dizia morar um kami. Nunca soube o que era realmente um kami, mas poderia ser algo como um espírito invisível, com poderes além do que tinham os humanos.

Mas havia algo mais interessante naquela casa, que despertou a curiosidade de Kenchan, que aos oito anos visitava todas as casas dos japoneses, na companhia da avó. Numa vitrine espelhada, devidamente lacrada por uma separação de vidro, várias bonecas de madeira torneada. Eram coloridas, com olhos finos, detalhes como no cabelo num traço só do pincel e o kimono colorido em tons vermelho e azul. Suas cabeças eram bem definidas, o mesmo não acontecendo com o resto do corpo: sem braços e pernas.

Por algum tempo, o assunto foi esquecido.

Tempos depois, muito se passou. Numa exposição de artesanatos japoneses, novamente as bonecas de madeira, que chamavam-no de kokeshi ningyo. Por algum motivo, sempre a palavra kokeshi estava escrito em kaná, ou seja em silábico, perdendo assim a dimensão de um significado como acontecia caso a inscrição fosse em caracteres chineses. Era apenas kokeshi, um som que poderia ter múltiplos significados. Talvez fosse apenas boneca de madeira, nada mais do que isso. Provavelmente seria isso.

Entretanto, kokeshi estava presente no nome de restaurantes, nas lojas de presentes, nos desenhos aquarelados do suiboku, nas embalagens dos presentes, enfim em quase todos os motivos que lembravam a origem oriental. De fato, era alegre, quase infantil, à maneira das ilustrações dos mangás. Ao mesmo tempo, estas bonecas de madeira não eram simples brinquedos, que pudessem ser manuseados pelas crianças, ao contrário, sempre em locais fechados, distanciados da curiosidade manual que poderiam danificar aquelas peças. Cair das mãos, e seria um desastre.

Ao visitar o Japão foi à Aomori, em que fica o Templo Osoresan. Tinha ouvido falar que no local, as almas iam antes de atravessar o rio Sanzu para a outra margem. Numa praia desolada, mais um deserto surrealista em que flores enfeitavam altares improvisados e, em vários pontos a imagem de pedra do Bodisattva Jizo, também havia bonecas, as mesmas kokeshi ningyo. Pensou: poderia ser oferenda para as crianças falecidas, que sentiam falta de seus brinquedos. Lembrou-se depois que não se tratavam estas de brinquedos, mas enfeites de estantes e móveis fechados. Estavam lá desta vez, nos montes de areia.

Havia de certo algo não revelado na existência dos kokeshi ningyo, uma obsessão que passou a incomodar a vida de Kenji Hirata. Kenchan era como o chamavam quando criança. Pensou nas várias possibilidades a respeito.

Comprou peças que colocou sobre a mesa. Peças pequenas outras grandes. Ainda que perguntasse aos outros, ninguém dava uma resposta. Foi consultar o dicionário. A designação ko poderia designar filho ou criança e keshi apagar.

Lembrou-se do filme “Balada de Narayama”, em que nas aldeias empobrecidas os idosos eram abandonados nas montanhas para morrer. O mesmo poderia ter acontecido em relação aos filhos indesejados, que morriam ao nascerem. Desta forma, as bonecas serviriam para que os pais lembrassem de seus filhos.

Nunca teve certeza, sem que isso fosse realmente necessário, mas pode desvendar caminhos que poderiam conduzir a uma versão dos fatos. Inventava-se soluções para resolver situações de impasse, das contradições da vida e também da morte. Como representações do corpo humano, estas bonecas também se prestavam para acomodar sentimentos, sejam as de alegria, como as festas de casamento e aniversário, mas de uma forma introspectiva as tristezas de perda.

Lá na cidade em que moravam, havia uma família que perdeu inúmeros filhos que não chegaram a nascer. Para cada situação, um kokeshi ningyo passou a enfeitar a prateleira, junto a outros objetos de adorno. Havia naturalmente uma razão para isso. Era, claro, de foro íntimo este costume que não se contava a ninguém.

Para Kenji Hirata, o assunto tinha encerrado. O kokeshi ningyo era apenas uma boneca de madeira, comum a tantos outros enfeitando e dando alegria nos lares. Ele próprio chegou a adquirir quatro, que mandou importar de Miyagi. Lá, os artesãos fabricam em grande escala, cuja técnica passa de mestre para discípulo, quase sempre um filho. Não há quem não adquira uma, em algum momento da vida. Quanto ao significado, pode ser muitas, ou nenhuma num campo de significados relevantes.

Com a inocência de uma criança como Kenchan, a curiosidade é apenas a vontade de ver e tocar os objetos. Era assim que ele fazia, aguçando o olhar pelas paredes, cortinas e móveis. Num calendário do monte Fuji, tão comum, Kenchan sonhava e, naquele momento, tudo era possível. Era tão somente um sonho para quebrar a dureza da vida, que por excesso de realidade tornava-se árido o suficiente para impedir qualquer interferência.

 

 

 

 

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