CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Busca-se um marido

Estava por fazer vinte e três anos, quase passando da hora de arrumar noivo. Era a terceira, das quatro irmãs, e dois irmãos. Chegaram ao país no final da década de 30. Adolescentes ainda, o sonho de enriquecimento logo se desfez nos campos de café, quando histórias comuns eram das fugas noturnas, de famílias inteiras, somente com roupa do corpo e trouxa com alimentos. Não foi o caso dos Hirabayashi. Tiveram mais sorte, principalmente na cultura do algodão, assim que deixaram os cafezais por falta de pagamento.

Havia muitas bocas para alimentar, por isso, o patriarca, o velho Toshito logo pensou em se livrar das filhas. Que um outro cuidasse delas, assim fez: casamento por apresentação. O filho mais velho cuidaria dos pais e herdaria a casa de secos e molhados que comprara numa transação vantajosa. Chamava-se Armazem Popular. Antes, de um italiano que cansou de vender fiado. Transferiu a freguesia da Vila de Urubatuba – imigrantes vindos da Alemanha, Itália, Espanha, Líbano, Armênia e Portugal. Tinha também um russo, homens misterioso, de barbas longas e brancas, que lembrava a Tolstoi. Os nordestinos da construção civil.

Época em que não se falava a respeito de casamento entre povos diferentes, quer dizer, principalmente entre os japoneses. Certo, havia resistência dos mais velhos. Achavam que não daria certo, devido a diferença de cultura. Uma esposa que não fosse brasileira poderia ter dificuldades em preparar missô shiru ou comer ohagi durante as festas. Assim, para não contrariar os pais, quando chegasse o tempo de casar, havia de alguém fazer as apresentações.

Não vá recusar este, pois não há mais ninguém para te apresentar – advertiu a mãe.

Claro mãe, se for bonito, eu caso. Mereço um homem que me faça feliz, não é.

Da maneira que você imagina, não existe. Beleza não tem importância, se for trabalhador, honesto, pode ser até gordo, ter uma cicatriz na cara, uma perna manca…

Mostrou uma carranca, arrebitando o nariz, de desgosto pela proposta mal colocada. Não suportou a idéia de viver ao lado de alguém tão desajeitado. De fato, procurava por um noivo, mas não precisava rebaixar-se tanto. Aquilo parecia mais o repatriamento dos soldados do front com o fim dos conflitos com a Rússia. Mutilados havia muitos, também doentes e loucos. Lutaram em defesa da pátria, mas uma vez em terras nacionais, quem casaria com eles?

Não uma vez, inúmeras, foram as vezes que ela se apaixonara, que não passava de arroubos da adolescência. Aconteceu com o Hideto, que foi apresentada a uma tal de Yaeko, filha de um imigrante rico, tinha ele terras com plantações de café, também algumas cabeças de gado gordo, porcos e aves de postura. Hideto hesitou por momentos, depois acabou aceitando. Aceitou meio forçoso os conselhos do pai. Lá se foi o sonho de casar-se por amor. Que tolice esta história de amor – chegou a conjecturar. Ela acreditava no amor, não seria uma apresentação que a faria mudar de idéia. Nem a proposta de homem rico, só para a alegria dos pais.  A mãe sempre estava a seu lado, mas no final cedia às vontades do marido. A mãe, supostamente, acreditava no amor, mas resolveu deixá-lo guardado nos livros de romances  lidos de uma biblioteca pública. Eram traduções de Victor Hugo e Alexandre Dumas.

Numa outra ocasião, o seu interesse foi por um homem casado. Sabia que nunca o teria por completo. Não se importava com isso, contando que ele pudesse corresponder. O perigo de ser descoberta era uma situação atraente. Se alguém soubesse, isso seria a tragédia em sua vida: expulsa de casa. Tentou evitar, mas nada disso aconteceu. Enquanto durou, foi maravilhoso. Um dia, o homem chegou até ela e disse: Bem, não suporto mais. Minha esposa tem defeitos, fico com ela por causa de nossos filhos! Um jato de água fria caiu sobre a sua cabeça. Por meses chorou num canto da casa, sem que ninguém a pudesse ver. A irmã mais nova descobriu e foi dissuadida a calar-se.

Mil idéias a visitaram quando trouxeram o novo candidato. Era viúvo, sem muitos atrativos além do terno que alugara especialmente para a ocasião. Na lapela uma rosa branca. Dono de uma pensão que recebia viajantes que passavam uma temporada a negócios. Tinha ele dois filhos, quase entrando na adolescência. Podiam muito bem passar por irmãos menores dela. A apresentação foi do senhor Ryuichi Sato, alguém que conhecia grande parte dos japoneses da região. Ele seria então nakaudo – o que intermedia as negociações. Veja bem, este é o Hiroyuki Okumura, que trabalha no ramo empresarial – foi tecendo as regalias e vantagens daquele casamento.  Mas a contraparte, que sentara-se do outro lado do sofá ouvia, como que aquele assunto não despertasse grande interesse. Antes tinha recebido uma foto dele, bem diferente daquele que se apresentava. Bem mais bonito na foto, uma artimanha do fotógrafo habilidoso nos retoques. Sentiu-se enganada! Ficou com raiva e detestou-o com ódio. Se ele enganava as pessoas, o que faria depois do casamento?

Não havia a necessidade da resposta rápida. Ambos pensariam no assunto. Para não ofender em caso de recusa, simplesmente deixavam que o tempo esfriasse qualquer ânimo para futuro compromisso. Assim, por aquela casa ocorrera quatro apresentações, sem sucesso. Akichan vai sobrar para titia – zombavam as irmãs.

Seria uma frustração para os pais, caso ela não se casasse. Acreditavam, no entanto, que era apenas questão de tempo. O noivo certo haveria de bater aquela porta…

Sem nakaudo, isso aconteceu nas vésperas do ano novo. O velho portão de ferro rangeu, atraindo a atenção de kuma, que avançou e latiu incessante. Venho da capital… – anunciou. Olhos  profundos e negros, misteriosos, um mar revolto em que os marinheiros morriam afogados. Foi em seguida convidado a entrar.

Qual é o seu interesse por estes lados – perguntou o pai.

 

FRANCISCO HANDA

FRANCISCO HANDA

chicohanda@yahoo.com.br
FRANCISCO HANDA

Últimos posts por FRANCISCO HANDA (exibir todos)

     

     

     

    Related Post

    CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A tatuagem | Aq... A tatuagem Nunca marquei o corpo Nenhuma cicatriz Nenhuma tatuagem Nenhuma mensagem Inscrita na epiderme Que pulsa sem cessar Um aquoso per...
    AKIRA SAITO: NOSSOS INIMIGOS   “Manter sempre o “Zanshin” (estado de espírito alerta), pois nem sempre o inimigo se mostra de forma declarada”.   Infelizmente o mun...
    JORGE NAGAO: Tamojuntu e Vamoqvamo Tamojuntu e Vamoqvamo (2a.parte)     Cachoeira, o cara do carro do som   - Microfone aberto. Quem quer falar, cantar ou...
    ERIKA TAMURA: A apresentação da realidade da comun... No mês passado, o Japão recebeu uma comitiva de políticos brasileiros, que vieram a convite do governo japonês para fortalecer os laços entre Brasil e...

    Faça seu comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *