CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Crisântemos Tardios de Kenji Mizoguchi

Os filmes antigos japoneses possuem uma atração especial para quem aprecia a história do cinema, e, em especial, como os japoneses passaram da arte tradicional do teatro kabuki para as telas de exibição, com o incremento do cinema. Diretores como Kenji Mizoguchi foram contratados pela indústria cinematográfica, para a produção em massa de um produto para a venda a uma plateia ansiosa em pagar por isso.

Nascido em Tóquio, em 1898, ainda na Era Meiji, o início da modernização do país, vinha de uma família que teve os negócios falidos, uma fábrica de vestuário de borracha, provocando-lhe dificuldades materiais. Um fato marcante na vida de Kenji Mizoguchi é a venda de sua irmã mais velha como gueixa. Esta mesma irmã vai protegê-lo ao pagar por uma educação que lhe garantirá sucesso numa carreira como diretor de cinema. Antes, queria ser ator, o que não aconteceu. Seria este o motivo, uma característica em sua obra em mostrar a condição feminina das mulheres de seu tempo.

É o que acontece em Crisântemos Tardios, em japonês Zangiku Monogatari, um filme no estilo Shinpa – o drama sentimental. Nesta obra, de 1939, a história tem como assunto principal o Teatro Kabuki, através da vida conturbada do ator Kinosuke Onoue (Shotaro Hanayagi). Seria ele o sucessor de seu pai adotivo, um renomado mestre do Kabuki, que cai num dilema ao perceber que o seu desempenho não é dos melhores. O seu sucesso daria apenas por influência de seu pai, assim teria dito também os outros homens daquela empresa teatral.

Uma única pessoa acredita em seu talento, que deve ser desenvolvido, que não passa de uma moça simples, contratada pela família como babá de seu irmão menor. É Otoku. Quando Kinosuke resolve abandonar a família a fim de aperfeiçoar a sua arte, ao procurar emprego numa companhia de teatro menor, pelo interior do pais, Otoku é a pessoa que o acompanha nesta empresa. Inicia assim um processo de queda, cada vez mais para o fundo, mas, para a sua humilhação, quem o ajuda é justamente Otoku. “Só quero o seu bem, que um dia possa retornar a Tóquio como um ator vencedor”, tenta-se convencer ela. O amor de Otoku por ele é puro, enquanto o de Kinosuke por ela é de dependência.

A caracterização de Kinosuke é bastante rica em movimentos e poses. Não somente o seu rosto lavado, pouco masculino, mas a maneira de andar, seus braços pendentes, revelam alguém instável que confunde a vida real com a dos seus personagens. O drama do kabuki agrada os populares, com histórias sentimentais, de amores desencontrados, mostrando o mundo como um campo de lamentações e normas que inibem a realização dos anseios humanos. O cinema de Mizoguchi é chamado de Novo Realismo, cuja estética se apresenta através de planos escuros, num cinema ainda preto e branco.

Algumas cenas utilizadas por Mizoguchi são longas, com a câmera baixa parada, mostrando além daquilo que interessa como principal assunto. Os atores no fundo se mexem, desempenham os seus papeis, continuam a existir, vivendo as suas vidas e sofrendo os seus dilemas. Também são importantes. Mas eles próprios se mantém ignorados, como não existissem. Se por um momento pensa-se de que Kinosuke é o protagonista desta narrativa dramática, sendo Otoku uma possível coadjuvante, a situação pode ser invertida, pois sem esta outra, toda a força dramática e envolvente do filme cairia em total monotonia.

Por causa deste filme. Kenji Mizoguchi ganhou o prêmio outorgado pelo Ministério da Cultura do Japão, cujo feito agradava o governo do tempo da guerra, em sua campanha nacionalista e de valorização da arte: cinema e teatro Kabuki. Para os tempos atuais, as 2 horas e 20 minutos é longo demais em circuito comercial numa sala de exibição. Mizoguchi abusa das cenas de Teatro Kabuki, como fizesse uma homenagem àquela arte, que cada vez mais seria relegada a um público específico, ao contrário do cinema, aberto a todas as camadas. Não é a primeira vez que o cinema mostra o teatro, não somente Mizoguchi, mas outros como Ozu.

Entre outros filmes de agrado de Mizoguchi estão “As irmãs de Gion” (1936) e “Elegia de Naniwa,” no mesmo ano. Fez também “Vida de O´Haru” (1952) e “Contos da Lua Vaga” (1953), sendo este último vencedor do Leão de Ouro, em Veneza.

A arte deve continuar existindo, assim ensina em “Crisântemos Tardios”, em sacrifício das pessoas, como que as pessoas fossem passageiras, mas a arte permanece. O fim não poderia ser outro. Para que a arte de Kinosuke surja das entranhas de sua existência, Otoku deve perecer. Pelos canais de Tóquio, o ator agradece o apoio de seu público, abrindo os braços e baixando a cabeça em agradecimento. Agradecimento também a Otoku, sempre ao seu lado. Não daquela vez.

 

 

 

FRANCISCO HANDA

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