CANTO DO BACURI > Francisco Handa: De que janela olhamos o mundo

canto-do-bacuri-chicoQuando as imagens penetram em nossos olhos, não é apenas a vontade de ver, mas depende do local em que estamos ao ver o mundo que nos cerca. Por isso, a experiência do olhar é importante. Isento deste olhar, teremos apenas referências abstratas produzidas pela nossa mente. Aquilo que se pensa “constrói” as nossas balizas de um mundo em que criamos uma imagem idealizada daquilo que nos cerca. Todos nós fazemos isso. Ao que a experiência do olhar não esteja presente, a abstração tende a substituir aquilo que é fundamental.

Ter apenas a experiência racional da mente, com as suas tensões nervosas, recortes e simplificações, não dá conta de uma verdade mais abrangente. Sempre é limitada. Pode-se dizer, é uma verdade parcial. Um outro pode refletir sobre o mesmo assunto de maneira totalmente contrária. Trata-se de uma outra verdade, mostrando o quanto parcial ela é.

Podemos confiar em nossos olhos, naquilo que enxerga. Se os olhos olham a partir de uma janela de um apartamento de Moema, aquilo que enxerga será diferente ao que enxerga um outro de uma casa do Bairro de Brasilândia. Claro, isso é notório. Possivelmente, aquele que tem a oportunidade de ver o mundo a partir de Moema, terá poucas chances de ter a mesma experiência do daquele que vê a partir de Brasilândia. Se isso for uma verdade, então cada experiência dos sentidos, dependendo do lugar em que percebe o mundo, será diferente.

As informações dos sentidos, no caso, o visual, é levado para a mente, que dá significado, justifica, julga, avalia, valoriza. Agora, aquilo que se percebe com os olhos não apenas é uma imagem qualquer, mas participa de uma abstração através da mente. Não é um elemento mais da maneira como se manifesta, desta vez modificada pela própria mente em sua representação. Sendo a representação um reflexo da realidade deformada. Entretanto, é assim que percebemos o mundo. Sempre a mente haverá de impor uma forma de alteração.

Todas as formas de ideologia são ideias a respeito da realidade, não sendo, entretanto, a realidade em si. As ideias são ideias apenas; melhor dito, projeções da mente. Não que as ideias sejam menos importantes, pois a moral surge dos bons costumes, com uma implicação ideológica. Por isso, a moral não é válida em todas as sociedades em sua pluralidade.

Quanto à ideologia, dependendo do grupo social a que se pertence, pode diferir entre si. Aquele que vê o mundo através de Moema, terá uma relação com o real de acordo com aquilo que percebe e justifica as suas necessidades sociais, políticas e econômicas. O mesmo deve ocorrer com aquele que mora em Brasilândia. A confusão de interesses neste mundo plural, de culturas desiguais, geografia diversificada, discursos diversos é o campo em que pode construir a democracia.

Até mesmo a democracia vai se adaptando às épocas e modificações do mundo. Se na Atenas clássica visava apenas os cidadãos, quer dizer os nascidos naquela cidade, os escravos não tinham vez e as mulheres não votavam, atualmente engloba um caldo muito mais amplo de informações com todas as suas diferenças. O domínio de um grupo sobre o outro não é sinal de democracia. Claro, existe o poder econômico em cuja diferença sobrepõe sobre aquele que menos tem. Isso pode ser um fator ideológico, que justifique esta disparidade. Mas uma outra ideologia vai contrapor a este.

Neste desenvolvimento da História, me parece bastante claro, um movimento pendular dos interesses ideológicos representado pelas classes sociais na disputa do poder. Não que o poder esteja instalado, e que os grupos se revezem em seu mando. O poder existe ou não de acordo com o representante em que almeja o poder de exercer um determinado cargo. Este que é o próprio poder, está imbuído de uma legitimação em que põe em prática uma ideologia de classe ou de interesse daquela classe. Por isso, toda vitória de um postulado ideológico é também derrota de um outro. O tempo de duração de uma ideologia é a sua saturação, até ser substituído por outra.

Toda vez que uma mudança acontece, ideologicamente cria-se um discurso de que um novo vai surgir em detrimento ao que ficou para trás, o que não significa que seja realmente novo. É apenas mudança. Alguns dos vícios, antes mesmo da construção ideológica, continuam a nortear a vida dos seus agentes. A isso todos não estão imunes de uma influência. Não somente pessoas são passíveis de contaminar-se com os vícios, bem como acatar uma determinada ideologia, mas também grupos organizados e de interesse como o sistema financeiro e econômico, da publicidade, da informação…

 

 

FRANCISCO HANDA

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