CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Era uma vez em Tóquio

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Pelo menos assisti três vezes este filme.  Claro, em épocas diferentes, mas cada vez mais curioso em perceber a intensidade sensorial de um diretor preocupado em criar uma linguagem visual provocativa. Se não fosse provocativa, seria comum. Nada de imitar os outros. “Era uma vez em Tóquio” foi o título conhecido no Brasil. Mas podem chamar também de “Tokyo Story” ou na forma japonesa “Tokyo Monogatari”, dirigido por Yasujiro Ozu, de 1953, e distribuído pela Shochiku. Pode-se assistir sem custo algum pelo youtube. Se quiser, comprar pelas lojas de DVD.

Neste filme, cuja temática é atual, senão incômoda, há uma beleza técnica de filmagem característica de Yasujiro Ozu. Ele abusa das cenas como a câmera parada e ao mesmo tempo baixa, na altura das pernas. Cenas inteiras em que os protagonistas cruzam a frente da lente, como nada tivesse acontecendo. Foi desta forma que valorizou a atuação de atores como Chishu Ryu e Hara Setsuko. Em diversas cenas, o ator, com o rosto enquadrado de frente conversa com o seu protagonista, que também neste momento é a câmera. Mas a câmera pode ser também o público que assiste ao filme.

Pode-se ver neste momento cada expressão facial do ator, suas rugas, os olhos imensamente calmos, sem mais nada a esconder. O mesmo acontece com o rosto de Hara Setsuko. Teria sido dela o rosto mais expressivo do cinema japonês, cuja diva parou de contracenar em 1963, no mesmo ano de falecimento de Yasujiro Ozu. No final do ano passado, ficamos sabendo do falecimento dela, aos 95 anos.

Retomemos ao assunto principal: “Era uma vez em Tóquio”. O tema abordado pode ser o da velhice e o desprezo dos filhos em relação aos pais idosos. Não somente isso, Ozu também faz a crítica ao Japão do pós-guerra. Passados os primeiros anos da reconstrução, o Japão tem de acompanhar o crescimento dos demais países capitalistas, assim atender a uma demanda de um mundo capaz de produzir bens de consumo, conforto, burocratização do trabalho e certa indiferença pelo descartável. Os idosos não se inserem às necessidades deste mundo pautado pelo utilitarismo, sucesso e compensação material.

Tóquio se apresenta como o retrato fiel do desenvolvimento, com as torres das chaminés exalando fumaça. É o preço a ser pago. Morar em Tóquio também tem seu custo. Quando o casal Hirayama chega à capital, é recebido pelo filho mais velho, Koichi. É médico, casado e com dois filhos menores. Os próprios netos não os reconhecem  e a relação é apenas respeitosa, com ausência de afeto. A outra filha dos Hirayama, Shige, é cabeleireira e reparte a pequena casa com o espaço comercial: cadeira, espelho, tesouras e shampoos. Tem muito a fazer do que acompanhar os pais nos passeios por Tóquio.

Ao contrário dos filhos, quem se dispõe a passar o dia com os sogros é justamente Noriko, papel de Hara Setsuko. Viúva de Shoji, que se foi durante a guerra, trabalha num escritório e custeia o pequeno apartamento, que mal cabem três pessoas. Não somente uma vez, mas outras, Noriko esforça-se para tornar a estadia dos sogros agradável. A esperança neste mundo desumanizado está justamente em Noriko. Os pais não demonstram em momento algum ressentimento com os filhos e se confortam dizendo que os tempos são outros. Faz calor em Tóquio. Sempre os atores se apresentam com abanadores , como espantassem não somente o calor mas também as cinzas dos sonhos desfeitos. Esperavam que os filhos estivessem melhor. Nada. Koichi tem o consultório num vilarejo retirado. A câmera foca roupas estendidas em bambus.

Uma das cenas marcantes, é quando casal Hirayama, o velho Shukichi e Tomi estão de yukata (kimono) diante do mar, no Balneário Atami. Talvez aquele momento não haveria mais de acontecer. Tomi fraqueja por momentos. Aquela viagem estava por acabar. “Vamos para casa”, diz o marido. “Vamos então”, concorda a esposa. Uma vez que retornam a Onomichi, província de Hiroshima, avaliam a viagem. Sempre com sorriso nos lábios, aceitam as contradições da vida. Shukichi diz que antigamente os avós gostavam mais dos netos do que dos filhos. “O que você acha disso”, indaga à esposa. “Gosto mais dos filhos”, responde ela. “Isto é afinal a felicidade”, completa.

Não dura muito, Tomi vem a falecer. Depois dos funerais, os filhos retornam a Tóquio, ficando somente Shukichi na casa. Vive também a filha caçula, que trabalha numa escola primária. Shukichi não esmorece e ao ser perguntado pela vizinha sobre a solidão: “quando se está só os dias se tornam mais longos”. Lá fora, a vida continua como sempre foi. O trem, as cigarras, os leques sendo abanados para espantar o calor. Sem nenhum julgamento, nem dos maus. A própria Noriko, ao ser elogiada, contemporiza-se: “com o tempo ficamos egoístas, e colocamos a nossa felicidade em primeiro”. ‘Você também”, devolve. “Sim”. Gosto de você, você é uma pessoa sincera”, completa o sogro.

 

FRANCISCO HANDA

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