CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Guerra de gueixas na literatura

Publicado em 2016, pela Estação Liberdade, Guerra de Gueixas, de Nagai Kafu, autor desconhecido por estes lados, tematiza um assunto que gira em torno do universo das gueixas, que tanto intriga a imaginação e a curiosidade dos leitores ocidentais. O próprio autor, viveu na passagem do século 19 para o 20, justamente no período de transformação do Japão, que viu na obrigação de se tornar ator num mundo de desenvolvimento capitalista, da industrialização e dos valores antigos de um país insular que devia se inserir naquilo que o mundo criara como modo de produção e sistema de vida.

Era ele um contemporâneo de autores brasileiros como Machado de Assis e Lima Barreto, também de Paul Verlaine, que ele cita naquela obra. Nagai Kafu conheceu os Estados Unidos, onde viveu em Nova York, funcionário num banco japonês desde 1903. Desta experiência no exterior, ele vai escrever Amerika Monogatari (Narrativas da América), publicado em 1908. Mas foi na França, em 1907, ao morar em Lyon, que ele conhecerá a literatura de Émile Zola, traduzindo para o japonês Nana. Esta influência irá a marcar a sua literatura, além da inspiração da poesia chinesa e dos sentimentos que conturbavam as relações entre as gueixas e atores do teatro kabuki.

O título que foi traduzido por Guerra de Gueixas, se deu por causa da versão inglesa de Geisha in Rivalry, que no original seria Ude Kurabe. Para aqueles que associam a figura da gueixa com a prostituta, da maneira conhecida no ocidente, vai deparar-se com algumas diferenças de origem e de conteúdo. Em si, a gueixa é uma profissional do entretenimento, em reuniões de homens em locais de encontros regado a saquê e alimentos da culinária tradicional japonesa. Por isso, ela deve se habilitar em artes como canto, poesia, bailado e tocadora de instrumentos, como o shamisen. A palavra guei significa arte e xa ou shá pessoa.

Em tempos passados, no século VII, havia uma classe de artistas chamada saburuko, meninas que desenvolviam seus ofícios, que também, uma ou outra, acabavam sendo seduzidas para serviços sexuais. Não seria este a regra. Somente no século XVI surgiram as yujo – mulheres para brincar. Estas também eram educadas na arte da dança, sendo as de classe mais elevadas conhecidas por oiran. Uma mescla de prostituta e bailarina de performance erótica, esta representação foi chamada de kabuku, mais tarde passou a se chamar kabuki. É a origem do teatro kabuki, que no seu início atuavam tanto os atores como as atrizes. Mais tarde, as atrizes foram abolidas, principalmente devido a associação com a prostituição. Somente homens atuavam, inclusive os que faziam papeis femininos.

As primeiras gueixas eram na verdade homens, que se travestiam, tal qual a onnagata, o homem que se traveste de mulher no teatro kabuki. Sendo as gueixas mulheres, as que surgiram no século XVII, sendo chamadas inicialmente de odoriko. Veja a obra Izu no odoriko – A dançarina de Izu – de autoria de Yasunari Kawabata, publicado em 1926. De fato, havia uma ligação entre a arte do teatro, dança, canto com a profissão de gueixa. Uma simples prostituta não necessitava dominar nenhuma arte, senão a de se ser apenas uma profissional do sexo. Mas isso não quer dizer que as gueixas não fossem cortejadas por ricos funcionários públicos, empresários, banqueiros e também escritores e atores do teatro.

É nesta vertente de acontecimentos que Nagai Kafu constrói a sua história em que os principais personagens são justamente as gueixas em conflito, em busca de um amor romântico ou de simplesmente um protetor, que possas pagar as suas dívidas. Uma gueixa tem alto gasto, com quimonos caríssimos e apetrechos de maquilagem. Faz parte de um universo particular, que se inicia quando chega a noite, no acender das lanternas vermelhas, as unhas vermelhas arranhando as cordas de um shamisen. Ao contrário disso, existe o mundo comum, chamado de shaba, em que a mulher-esposa tem o seu lugar de destaque na família. Não é o da gueixa. Existe uma formalidade no shaba, conforme as convenções sociais, também há o das gueixas, que poderia ser chamado de ukiyo – o mundo flutuante. Aqueles homens do fim da era Edo, a decadência da classe dos samurais, ainda conservada a obscura e prazerosa arte das gueixas em bairros apropriados para isso.

As peripécias acontecem em torno de Komayo, cuja felicidade é apenas uma marca de ukiyo. Nem mesmo o casamento pode lhe garantir uma satisfação, o suficiente para produzir felicidade. Seriam as mulheres esposas, de shaba, realmente felizes? É uma pergunta que fica no ar. Cada um deve seguir a vida que o Universo ofereceu. A das gueixas é apenas uma destas formas de atuação, longe da vida ordinária das pessoas comuns. Destas, o luxo dos quimonos e a sensibilidade para a arte são condições essenciais para a sua existência. O amor é apenas uma ilusão, como tudo em ukiyo é ilusão. Isso não quer dizer que no mundo ordinário, a ilusão não aconteça, por excesso de realismo. A realidade do mundo capitalista que acabou com o sonho e a esperança, senão a de ser apenas comum.

 

FRANCISCO HANDA

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