CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Há algo de podre na Dinamarca

Assim teria declarado um dos personagens de Hamlet, escrita no século XVI, por William Shakespeare, quando o assunto principal da trama foi a respeito das jogadas políticas no próprio palácio do rei Claudio, soberano do reino da Dinamarca. Alguma coisa aconteceu que cheira mal, por trás das muralhas em que o rei e seus acólitos tramam discórdias somente pela vaidade do poder e glória.

A Dinamarca está em guerra com a Noruega, cujo rei Portimbras almeja atacar a qualquer momento. Se existe um inimigo fora das fronteiras do palácio, o que acontece entre os supostos amigos do rei e seus familiares revela os sentimentos obscuros da decadência moral e corrupção.

Aquela trata-se de uma ficção, retirado dos acontecimentos da época, das crônicas, os relatos registrados por algum suposto escriba ou simplesmente coletor de contos. Nada mudou desde então, nestes pouco mais de 500 anos. Aquele rei é um usurpador, um irmão de Hamlet, o verdadeiro rei da Dinamarca. Este outro, Cláudio, não apenas roubou-lhe o trono, assassinando o irmão, como também por outros interesses, casou-se com a própria viúva do rei. Gertrudes é o nome dela, que teria participado do complô. Sempre os usurpadores têm os seus cúmplices, que de alguma forma têm algo a ganhar. Nada a temer se o risco faz parte de um jogo, cujas cartas marcadas sempre dão chances certeiras para quem as possui.

De outro lado, sabedor da história, Hamlet, o filho, o príncipe, encontra-se num mundo em que a injustiça está presente, convive com os seus partícipes, nada pode fazer além de lamentar-se. O próprio fantasma do pai lhe aparece e revela o seu assassinato. Mas a declaração de um fantasma pouco tem importância. É quando Hamlet enlouquece e passa a expressar as suas melhores ideias a respeito da própria existência.

Naquele mundinho em que todos falam ao mesmo tempo, apenas quem enlouquece tem a capacidade de se manter são. Os demais nada mais fazem do que repetir comportamentos padrões, como que nada de novo pudesse acrescentar. Nada existe de novo. Nem deve existir, quando os padrões conservadores surgem mais poderosos do que nunca. Se levarmos em consideração o movimento da história, a cada avanço, alguns um pouco mais para a frente, não se alegrem, vem um movimento contrário de retração. Quando se fala em mudanças, tudo parece mudar para que tudo continue da forma anterior.

As vozes dissonantes de todos os pontos cardeais, da imprensa escrita e televisionada, das notícias das redes sociais, todos produzem discursos não isentos de intenções e crítica contumaz aos terceiros. Pode-se dizer dos louros do liberalismo, em que existe a total liberdade de expressão, que com a inauguração da internet aqueles que não exercem atividades profissionais da comunicação podem expressar seus pontos de vista a respeito de qualquer assunto.

Existe até mesmo nos meios de comunicação aqueles que tem a função de produzir opiniões, como que a opinião fosse necessária ser produzido por alguém e assim, ser compartilhado pelos que não têm opinião. Não é preciso ter opinião própria, alguém diz como devemos acolher o que não nos pertence. Isso deve acontecer em todos os setores da vida, quando adotamos ideias que não foram desenvolvidas ou criadas por nós. Sem a crítica a respeito no daquilo que acreditamos, apenas acabamos absorvendo o que o mundo, como um campo da cultura, nos mostra como verdadeiro.

A respeito disto, tornamo-nos numa espécie de esponja que pode incorporar o vinho derramado, a água benta ou o veneno líquido, bem como o sangue bom e as impurezas da menstruação. A esponja aceita de tudo. Se o mundo se torna louco, todos que fazem parte dele, igualmente compartilham do mesmo sentimento. Uma multidão é capaz de linchar um homem, sem nenhuma responsabilidade e depois, ser comprovada a sua inocência. Quem participou deste ato, não se sente culpado e diz que foi uma ação de grupo, uma espécie de justiça a todo custo. Uma justiça que cometeu injustiça?

Assim também é o mundo de Hamlet, o único, ao lado do amigo Horácio, a conhecer a verdade. Enquanto Hamlet luta para restaurar a justiça e eliminar o tio-rei usurpador, todos os outros apenas conspiram e tentam manter o mundo de acordo com as suas vontades. Se apenas um diz ser mentira aquilo que a maioria considera ser verdade, provavelmente seja verdade. Se a maioria diz ser mentira aquilo que um considera ser verdade, ainda que seja verdade, torna-se uma mentira. Por isso, Hamlet enlouqueceu, ou se colocou como louco para dizer a verdade, ainda que todo o restante apenas fingia que nada de anormal acontecia.

Em Hamlet a justiça vai aparecer e a verdade soberana triunfará. Trata-se de um teatro, com um fim programado, de natureza moral. Quem assiste a peça, nas cadeiras do teatro, torce para que a verdade apareça, não quer se tornar cúmplice da corrupção que varreu o reino da Dinamarca. Mas a Dinamarca não fica tão longe assim, pois o público que assiste se torna parte também dos coadjuvantes da peça, tomando partido, odiando o lado que não se simpatiza.

 

FRANCISCO HANDA

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