CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Meu herói japonês

canto-do-bacuri-chicoNaquilo que se conhece por Guerra Fria, trata-se de um período interessante, no que se refere à cultura de massa, principalmente com o advento da televisão. Para quem se perdeu nas aulas de História, este é o momento de tensão entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. Mais precisamente, de 1945 até 1989, que se encerra com a derrocada do comunismo. Antes, vivia-se o temor de um possível ataque dos países do Leste, liderados pelos soviéticos. Nesse interim, alguns conflitos medem forças, tanto dos Estados Unidos, como do lado oposto. Acontece de 1950 a 1953 a Guerra da Coréia, depois, a Guerra do Vietnã, de 1962 a 1975.

Um tipo de cinema começa a acontecer, nos Estados Unidos, em que a ameaça saltava das telas em forma de alienígenas. Na década de 50, os americanos assistiam a filmes como Invasion of the Saucer Man (A invasão do homem do disco voador), Red Planet Mars (O planeta vermelho Marte), além dos ataques de seres estranhos como The Spider (A aranha), The Giant Leeches (A sanguessuga gigante), Attack of the crab monsters (Ataque dos monstros caranguejos) e The Giant Claw (A garra gigante). Sucesso de bilheteria e gosto duvidoso.

Nesse sentido, o que tem a ver o Japão com a Guerra Fria e o gosto dos americanos pelo gênero terror? Com a rendição do Japão diante dos Estados Unidos, coube aos vencidos submeter-se ao vencedor para existir no mundo moderno. A Guerra da Coréia impulsionou a economia japonesa, pois os americanos investiram muito, e assim a indústria ganhou força e o consumo aumentou. A indústria cinematográfica japonesa aproveitou o momento para lançar também, à maneira americana, super-heróis nacionais.

 

Yusei Oji.

Yusei Oji.

 

Os Estados Unidos, durante a 2ª. Guerra tinham criado o Capitão Marvel (1939), o Capitão América (1945), a Vespa Verde (1940) e a Mulher Maravilha (1941). Todos enalteciam o patriotismo americano e lutavam sempre a favor dos americanos. Era o próprio espírito americano. Terminado a guerra, os americanos criavam também uma série para a televisão cujo herói tornou-se conhecido por Rocket Man, o Homem Foguete, em 1949.

Os japoneses não ficaram atrás, criaram em 1958 Yusei Oji, nos Estados Unidos chamou-se Planet Prince, em 49 episódios. Tinha aparência americana, num corpo um tanto franzino, com capacete e uma máscara.  Sua máscara tinha o furo dos olhos quadrado, que lhe dava uma aparência estranha. Pilotava uma espaçonave em que cabia somente ele. Seu inimigo era o Embaixador Fantasma de Ginsei. Não convencia, mas agradava o seu público.

Seria este o primeiro herói japonês, a combater os invasores alienígenas com suas orelhas pontiagudas? Esta série foi vertida em inglês e vendida aos Estados Unidos. Dois longas foram feitos: Planet Prince, de 1959, e The terrifying spaceship, no mesmo ano.

Os japoneses não pararam por aí. Naquele mesmo ano lançaram Gekko Kamen, para a televisão; nos Estados Unidos chamaram-no de Moonlight Mask. Este super-herói é muito mais peculiar. Ainda os japoneses eram novatos quanto ao uso de máscaras nos seus super-heróis, que agravada os consumidores de gibis americanos. A máscara japonesa era algo diferente, como a dos ninjas, que cobria a face mas deixava à mostra os olhos, as cestas ocultando o rosto dos monges Komuso, e os sombreiros largos (kasa) dos samurais viajantes que discretamente escureciam o rosto.

 

Gekko Kamen

Gekko Kamen

 

Com Gekko Kamen, a opção foi deixar o herói colocar óculos escuros no formato gatinho. Assim, criava-se uma aparência misteriosa. Um lenço branco envolvia o pescoço, que se soltava durante as lutas. Este lenço também era passado abaixo do nariz, cobrindo-lhe totalmente a boca. Na cabeça, o figurino apresentava uma espécie de turbante, também branco, com um brasão identificando o herói. É o brilho da quarta crescente – Gekko Kamen. Por onde anda, pilota uma motocicleta de baixa cilindrada, entre 125 a 250 cc.

Como armas, duas pistolas, shuriken (estrelas de aço) e bumerangues em formato de meia lua.

Período que a televisão invade a intimidade dos lares, de um país que tenta se adaptar a um modelo social e econômico totalmente adverso das referências que se tinha. A necessidade de um herói, para as crianças e jovens, norteou os anseios de uma geração sem rumos certos cujo passado recente queriam esquecer. Heróis naturalmente criados por uma indústria de entretenimento e cada vez mais inseridos num modelo de produção capitalista. São os heróis de antigamente, tão mais inocentes do que os heróis da atualidade. Heróis que continuam usando óculos escuros, muito menos charmosos dos que de Gekko Kamen.

 

FRANCISCO HANDA

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chicohanda@yahoo.com.br
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