CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Mudanças para nada mudar

Ainda estudante de História, certa ocasião, uma aluna do curso de Ciências Sociais, que por algum motivo estudava conosco naquele semestre, fez um comentário infeliz a respeito do motivo de se estudar História. Justamente numa classe de alunos daquele curso. Dizia ela de que História teria por utilidade conhecer o passado para prever o futuro. Nunca me esqueci desta afirmativa. Não era no que acreditava, nem eu, nem os demais alunos. Nem ao menos teve uma pausa para qualquer crítica, pois a colocação teria sido dispensável.

Ninguém lá na classe teria estudado a respeito de uma finalidade da História. Será que a História teria um fim em si próprio. Claro, gostávamos de estudar: alguns queriam se formar logo e dar aulas, outros ingressariam na pós-graduação. Conhecer o passado era uma coisa, que agradava os futuros bacharéis daquela especialidade, mas apenas isso. Prever o futuro era algo demasiadamente ousado, como que isso fosse possível. Essa coisa chamada futuro não era assunto propriamente dito de um historiador. Estudar o passado era apenas interpretar os movimentos em que estava inserido o homem nos seus aspectos sociais, econômicos e políticos. Os fatos acontecidos eram assunto do historiador.

Talvez pensamentos como o positivismo, tão em voga na primeira metade do século passado, tenham contribuído para criar uma imagem de um movimento em direção a um esclarecimento em toda a sociedade. Seria a passagem de uma fase mais atrasada para uma outra mais avançada, cada vez mais sustentada por um respaldo científico em que a razão suplantaria definitivamente as superstições e as religiões com seus fundamentos míticos e irracionais.

Teorias a parte, somente a História realizada poderá mostrar através de fatos e acontecimentos a realidade. Nada é muito científico, pelo contrário. Ainda não temos acesso a nenhuma lei que possa nortear uma direção da História. Mais uma vez, a História é sempre o passado. Não existe História do presente, muito menos do futuro. O futuro, nesse sentido, é uma possibilidade das previsões dos economistas, moças do tempo, magos e jogadores de búzios. Nem sempre a previsão é acertada.

Quando se coloca a História recente do mundo, a queda da União Soviética aconteceu, para a alegria dos que achavam de que o capitalismo seria o vencedor, pondo fim à Guerra Fria, justificando de que a iniciativa privada era o motor que promoveria o crescimento da economia. Realmente isso aconteceu. No entanto, será que este argumento poderá ser posto em relação à China, atualmente a segunda potência econômica do mundo ao ultrapassar países ricos e bem posicionados como o Japão, a Alemanha, Inglaterra, a França. Levamos em consideração de que a China é baseada numa economia fechada, tipo comunista, sem iniciativa privada, que, no entanto, pode se tornar a potência que é atualmente. Ninguém mais comenta a respeito da política interna da China. Não muito tempo atrás diziam de que a China produzia com mão-de-obra escrava, por isso a mercadoria tinha um menor valor de produção.

Podemos verificar de que nada pode ser controlado no movimento da História. Nem sabemos que leis são estas que provocam tal movimento. Podia se acreditar de que em toda mudança, provocado pelas crises, ao final alguma coisa boa estaria por acontecer. Esta é a crença no positivismo. Em se tratando de política nacional, os movimentos da História sempre pendem do lado do avanço, num momento, e num outro em sentido inverso. Se levarmos em consideração a História da América Latina, nada mudou tanto assim nas últimas décadas. De um governo mais social, segue-se um governo mais conservador, com a anuência de seus eleitores. Ainda que exista uma tendência política marcada por uma polarização ideológica, devido o confronto de classes, os velhos vícios de apadrinhamento e benefícios a aliados, puxa-sacos e interesseiros é sinal evidente da conservação de hábitos maléficos herdados de tempos passados. Quando se fala em mudança, pode significar “vamos mudar para não mudar nada”. Isso se aplica além das tendências ideológicas de cada grupo político.

Isso mostra como as mudanças não são desejadas, pois qualquer uma que seja, vai provocar um abalo no sistema cultural vigente. Lembremos de Macunaima, aquele herói sem caráter, de Mário de Andrade, ou mesmo o Zé Carioca, de Walt Disney; este último para homenagear o malandro carioca. O malandro ficou tão evidente, de que hoje, o malandro não passa de uma figura folclórica, bem longe de outros que encontraram na malandragem uma justificativa para viver com um pé na sociedade e outro no submundo do crime, roubo e toda forma de contravenção. De fato, o malandro não é uma imagem positiva.

O que se ouve é um achincalhamento da classe política, sendo eles os únicos responsáveis por tamanha vergonha largamente explorado pela imprensa. Tudo que é mal, chama-se agora político. Mas lembremos, por trás de um político sempre está um empresário dos mais influentes no país. Cada um defendendo o seu interesse. Entregar o país aos empresários não vai melhorar a situação, pois aí a privatização da coisa pública será geral. Cuidados com os gestores, principalmente aqueles que só se interessam pela causa própria. Se o político perde legitimidade, substituí-lo pelo empresariado não me parece uma atitude inteligente.

Sem direção, a História toma o seu rumo.

 

 

FRANCISCO HANDA

FRANCISCO HANDA

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