CANTO DO BACURI – Francisco Handa: Negócios e batismos

 

Chegaram àquela cidade, após inúmeras passagens pelo interior de São Paulo, primeiramente numa fazenda de café, que no primeiro ano entrou em colapso. Trocaram por uma outra fazenda, que estava em situação financeira melhor. Depois, resolveram abandonar as plantações de café e arrendaram terras para o plantio de algodão. A situação melhorou. Não se tratava mais de culturas desenvolvidas por um patrão, a quem deviam prestar serviços. Claro, desta vez o risco não podia ser repartido com outro. Era justamente o apogeu do algodão. Ganharam dinheiro cultivando o produto, que alongou-se por anos.
Quando chegaram ao Brasil, os filhos ainda pequenos, um com doze, outro com dez anos. Tinham sido obrigados a abandonar a escola. O de dez anos chorou muito, não entendendo o que ocorria de fato. Eram as agruras da vida: imigrar.
Os dois irmãos cresceram, o mais velho continuou a lida no campo; tentou a sorte na cultura do tomate. Um negócio arriscado. Tinham abandonado as terras de algodão, pois algo acontecia entre os japoneses locais de estranho. Falava-se a respeito dos “corações sujos”, tratamento indigno dados àqueles que não louvavam os feitos das Forças Armadas do Grande Império Japonês. Um clima de animosidade formara-se entre os colonos. A desconfiança era patética. Dizia-se de que um grupo de nacionalistas intitulado “Tokkotai” perseguia os supostos traidores da pátria. Mas aquela família queria estar longe dos conflitos políticos. Por isso, deixaram o local, a fim de proteger a própria pele diante desta guerra injusta entre compatriotas. Deixaram definitivamente a região de Marília e foram para as cercanias de Campinas.
O irmão mais novo mostrou-se ousado. Não era entre os japoneses que devia desenvolver seus empreendimentos. Foi para a cidade. Uma indústria textil dava suporte para o desenvolvimento do lugar. Principalmente os italianos e seus descendentes abasteciam-na com mão-de-obra assalariada. Para se manter resolveu cultivar hortaliças numa pequena área arrendada. A venda era rápida, numa feira-livre e, mais tarde, numa quitanda, de um espanhol conhecido por João. Era o João Espanhol, muitas vezes apenas Espanhol. Foi seu primeiro amigo, com idade próxima a sua.
Era bastante atraente a vida na cidade. Conheceu um outro espanhol, o Benito. Resolveu alugar sua casa, cuja instalação à frente, montou um pequeno estabelecimento comercial: uma quitanda. Chamou-a de Quitanda “A Caçula”, pois a que pertencia ao seu amigo Espanhol era a irmã mais velha. Nada mais justo. Nem o Espanhol se mostrou ofendido pela concorrência do amigo. De fato, a do amigo era maior, com muito mais ofertas que a sua.
A freguesia aumentava, na mesma proporção que o círculo de amizade se alargava, principalmente entre os vizinhos. Os meninos da casa do outro lado da rua passaram a freqüentar o estabelecimento. Eram o Valien e o Osvaldo. Como não tinha um nome em português, logo passaram a chamá-lo de José. Para encurtar a história e também o nome, Zé para os amigos. Até esqueceram que ele era japonês. Havia, de certo, um acento ao pronunciar as palavras em português. Mas Zé aprendia rápido. Havia nele uma habilidade comercial, talvez herdado dos avós, nativos que eram da região de Kansai. Fazer comércio, era também uma forma de criar vínculos com os outros habitantes. Havia de tudo. Além dos italianos, os espanhóis e os alemães, armênios e libaneses, inclusive um russo. Este russo tinha barbas brancas e longas, que lembrava Tolstoi.
– Oi Zé, você é uma pessoa estimada nesta cidade, todos gostam de você e vai ter muito sucesso com a sua quitanda. Só falta uma coisa – disse de maneira desembaraçada dona Olga. Não tinha papas na língua, ia logo no assunto.
Só ficou esperando ela terminar aquela ladainha. Estava curioso. O que poderia ser? Tentou sorrir, um tanto incomodado. Mostrou em seu rosto uma expressão de que ela podia falar, que ele era todo ouvidos.
– O problema, não estou dizendo que seja sua culpa. É que você precisa ser batizado. Todos nós somos cristãos para sermos salvos. Se continuar sem batismo, o que será de sua vida.
Do que realmente se tratava aquilo, não sabia dizer. A vizinha tinha se intrometido num problema particular, que dizia respeito unicamente à sua crença. Relutou:
– Com estima que tenho pela senhora, agradeço pelo observação. Nunca pensei sobre isso. Não pensei que fosse um problema.
Nunca mais tocou naquele assunto. Toda vez que Olga dirigia-se ao estabelecimento, seja para comprar uma dúzia de ovos galados, seja apenas para levar um maço de salsa dirigia um olhar de advertência ao Zé. Ele não ligava para isso.
Alguns anos se passaram e arrumou uma noiva. Não podiam se casar na igreja, pois ele não era batizado. Mais uma vez aquela velha história. Quis comprar a casa alugada, que o proprietário se mostrou interessado em levar adiante o negócio. A negociação saiu, quando as partes resolveram ceder. O preço caiu e o Zé aceitou Benito como padrinho. Tornou-se padrinho de batismo e de casamento. O presente foi a venda da antiga casa.
Para que Olga tivesse a compensação, que desejava batizar o Zé, aceitou batizar o seu primeiro filho, que chamaram de Chico. O Benito passou a visitar o afilhado, sempre bastante solícito. Havia uma amizade duradoura. Quanto a Olga, como era vizinha, intrometia-se inclusive na educação de Chico. Uma vez Chico foi acometido por uma ferida, quem o levou ao médico foi justamente a Olga, juntamente com outra madrinha, a Joana, esta de crisma.

 

E-mail: chicohanda@yahoo.com.br

Redação

Redação

nippak@nippak.com.br
Redação

Últimos posts por Redação (exibir todos)

Related Post

SILVIO SANO > NIPÔNICA: Exames de Habilitação̷... Na semana passada testemunhei situações contínuas de “barbeiragens” incríveis de motoristas à minha frente, sem contar a falta de educação. Motoristas...
SHIGUEYUKI YOSHIKUNI: Sêo Vicente, de motorista a ...   Em 1970, quando iniciei o estudo de Letras lá na Faculdade de Penápolis, éramos centenas de alunos. Íamosem peruas Kombi.Sóde Lins, havia um...
BANCO BACURI: O primeiro sonoro de Yasujiro Ozu Quando se trata dos grandes cineastas japoneses do século passado, como isso tivesse sido há tanto tempo (?), não seria exagero considerar Yasujiro Oz...
JORGE NAGAO: APOCALÁPIS "o mundo dá 12 passos rumo ao medo. a imprensa e, em especial os cartunistas,  deram 4 rumo à certeza de que não podem se render.                   ...

Faça seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *