CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O caso da cunhada loira

Nunca fora aceita na casa. No começo a indiferença das cunhadas, que não economizavam palavras em japonês quando resolviam desprezá-la devido seus cabelos loiros? Nada de mal, apenas um incômodo, um botão de cor diferente na camisa do segundo irmão, costurado às pressas para que pudesse ser usado em circunstâncias pouco especiais. Tal fato também foi interpretado como uma rebeldia, um casamento que dispensou o tradicional nakaudo – o que faz as cortes das partes interessadas. Neste momento, colocou a perder uma aliança favorável com a filha de algum comerciante da cidade. Não foi o caso.

Quando conheceu Clara, era este o nome, filha de italianos, encantou-se com seus olhos mediterrâneos, de azul intenso, com cabelos loiros quase ruivos. A correspondência foi imediata. Foram companheiros de escola, antigo primário, de um grupo escolar que ficava na parte antiga da cidade. O segundo irmão, chamavam-no de Kenji, nunca teve a preferência dos pais, que cedo encarregaram o primeiro irmão, Manabu, com os assuntos relativos às finanças da casa. Os outros irmãos apenas prestariam serviços, havia mais dois. Havia a irmã mais velha, que vinha em seguida do primeiros irmão, e outras duas, que vinham atrás do terceiro irmão. De todos, o caçula foi quem pode freqüentar as melhores escolas e ingressar numa universidade pública.

Entre as moças, a mais nova freqüentou o curso de artes domésticas, de uma conceituada professora que veio do Japão. Em São Paulo resolveu alugar uma casa e ensinar etiqueta japonesa e outros assuntos de interesse das moças casadoiras. Uma vez que tivesse realizado com mérito todas as disciplinas, encontrava-se apto a casar-se.

Bem, não era o caso de Kenji, que rápido deixou a empresa montada pelo pai. Tinha outros planos, mais ambiciosos do que ser o subalterno de uma companhia da família. Nesta trabalhava-se muito e os lucros, quase sempre pequenos, ainda que fossem grandes, eram revertidos em investimentos na própria empresa. Por isso, não se dobrou aos valores da tradição, como o do casamento arranjado, pelo contrário. Apresentou Clara aos pais, que a receberam sem grandes alegrias. Clara não se deu por vencida. Seria parte daquela família, a única das noras diferente, ao ponto de aproximar-se da sogra, que mal falava português. Se falava, ninguém entendia as frases mal colocadas e totalmente fora de uma ordem ao menos coerente.

Não habitavam a mesma casa, o que não a impediu de ir com regularidade ajudar a sogra nos afazeres domésticos, como a faxina, a preparação de comida, inclusive a fazer mochi durante o ano novo como ingrediente do ozoni. De fato, ela morava bastante próximo dela. Nunca Kenji colocou qualquer impedimento para atrapalhar o relacionamento cordial da esposa com a mãe. Clara tinha qualidades: pouco irritava-se.

Certa ocasião, em que a sogra fraturou o braço direito, Clara prontificou-se em cuidar dela. As filhas esquivaram-se, pois moravam longe, outras tinham outros afazeres. “Meu filho Jun está fraco em matemática, se eu não estudar com ele, vai ser reprovado”, defendeu-se Masue, a segunda irmã. Nesta época, Clara também cuidava do lar e dos seus dois filhos e uma filha. Nem por isso, a sogra foi abandonada. Se inicialmente a sogra oferecesse resistência, toda esta parede sólida foi se desmoronando tijolo por tijolo em vinte anos. Tempo suficiente para que Clara se tornasse o centro das atenções, o que passou a desagradar principalmente a esposa do primeiro irmão.

Quando o pai de Kenji, o patriarca daquela família, faleceu a herança foi passada unicamente para o primeiro irmão. Os outros concordaram. Esta tinha sido a tradição e a vontade do pai. Dizia ele que, assim, os bens não se perderiam e o filho mais velho poderia manter as atividades antes administradas por pai e filho. As filhas, que após o casamento, assumiram compromissos em outras famílias, nada tinham que reivindicar. Claro que houve comentários, tanto das filhas como das noras. No entanto, Kenji conhecia os costumes e, assim, resolveu cedo seguir os próprios instintos ao estudar farmácia a custos elevados, com a ajuda de Clara. Foi compensador, pois agora tinha conquistado o próprio estabelecimento em que preparava os seus ungüentos e demais drogas de manipulação. Era quase um alquimista, capaz de transformar metal em ouro, mais do que isso.

Não teve a mesma sorte o terceiro irmão, Toshio, que sempre acompanhou primeiro irmão, a quem metia-lhe medo, pois ao pai respeitava. O mais submisso dos irmãos, talvez o menos talentoso, mas pode casar-se com a mulher mais linda daqueles rincões. Ele não merecia tanto. Coisas do destino, se pudesse acreditar que houvesse um. Tinha esta controle sobre o marido, de quem exigia as melhores roupas, assim exibiria melhor os seus dotes. Chamava-se Mitsuko, quase uma criança, que por pouco não ingressa num colégio de freiras.

Foi uma bronquite mais acentuada que tirou a vida da sogra. Naquela casa havia um altar doméstico, que chamavam de Butsudan. No últimos tempos era Clara que cuidava, limpando as peças, arranjando as flores, fazendo ofertas e oferecendo incenso em palito. Era divertido. Agora, com a partida da sogra não havia ninguém que pudesse assumir esta tarefa.

– Sem problemas, eu posso fazer isso – confirmou Clara.

 

 

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