CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O demônio coxo da clínica

 

O telefonema não seria mais estranho.

– Por favor, resolva este problema.

Depois de contar toda a história, pediu que o monge fosse em breve até a clínica dentária e desse um fim no incômodo. De que se tratava? No começo reticente, contou que havia uma manifestação estranha no local. “Todas as tardes, depois que não há mais clientes, alguém anda de um ponto para o outro, toca na caixa de instrumentos”. Tratava-se de uma anormalidade, mas também, pode ser um caso de desequilíbrio emocional da parte envolvida. Pensou-se nesta hipótese.

– Aconteceu algo que te abalou muito recentemente?

– Nada muito significativo – afirmou.

– Bem, o que você quer dizer com isso? – insistiu o monge.

Para ser claro, tudo ia muito bem. Reatou um relacionamento e tinha conversado com a cunhada de suas diferenças. Fez uma varredura em suas lembranças recentes, nada havia que pudesse comprometer a saúde emocional.

Portanto, não seria um caso de perturbação de sua parte o causador daqueles acontecimentos. Por quase um mês agüentou, não pode mais. Numa das vezes, sentada pode observar a silhueta, que refletia de maneira irregular na parede. Baixo, igual a um gnomo, disforme, com as costas curvadas. Andava quase rasteiro, de braços molengos soltos pelo corpo, que lhe dava um aspecto repulsivo, um zumbi, um animal deselegante tal qual bicho preguiça.

Estas foram as características relatadas. Tinha dúvidas, mas podia ser um gaki. Quando chegou ao templo correu até a estante e procurou entre os inúmeros livros, um em que mostrava em traços de nanquim o suposto. Nada igual ao congênere da tradição judaico-cristão, com chifres e uma cauda pontuda. O chamado demônio era justamente um gaki, como constava nos livros antigos. Numa página amarelada, bem na base tinha sido ilustrado: barriga proeminente e nu, cujas partes vergonhosas estavam cobertas por um pano. Mais do que medo, aquilo despertava arrepios e uma comiseração deplorável.

Lidar com um gaki não era tarefa fácil, e nada comparado com isso havia sido realizado por ele até então.

Acompanhado por um monge aprendiz, foi o monge mais experiente exercitar os seus dotes de exorcismo. Era uma sala comum, de tamanho razoável, depois que todos se foram. Numa mesa transformada em altar, colocou na vertical uma flâmula com caracteres escritos em tinta preta. Dizia ela: seres dos três mundos. Depois iniciou uma cantilena, que o monge jovem ainda encontrava dificuldades, falhando na repetição das invocações e ditos esotéricos.

Naquele momento, o melhor canto de sutra, considerando-se a ocasião, era o Mantra da Grande Compaixão, seguido de Portal do Néctar. Depois do ato, que correu na maior calma, o monge explicou: “este gaki é antigo, estava aqui antes da sua chegada”. Nada mais estranho para o gaki do que ver o seu espaço invadido e transformado numa sala de odontologia. Aquele ruído ensurdecedor do motor obturando o dente, por exemplo. Também havia crianças que lançavam cuspes pelo chão, uma total deselegância. Não se podia caminhar quando bem entendesse, sem o perigo de ser esmagado por aquele aparelho de raio X.

Para manter o seu local de morada, o gaki tinha todos os motivos a favor. Alguma ação que negasse a sua estadia poderia ser interpretada como falta de sensibilidade. Visto de outra forma, não era o gaki o ser que incomodava, pelo contrário.

– Não podemos desabrigar aquele que cuida desta casa – falou enfático.

A parte contratante dos serviços admirou-se, tentou tapar a boca da sonolência. Encontrava-se sem iniciativa, sem argumentação. Admitiu a derrota. Não era o caso, haveria uma saída razoável. O monge confidenciou que o gaki permaneceria no local como sempre e cuidaria do bem estar dos usuários. Para isso, o gaki haveria de ser educado nos caminhos da iluminação, assim, um dia, ele poderia também abandonar aquela forma e renascer num ser menos apegado. Um gaki, pelo que se saiba, tem fome constante e sede. Ainda que estivesse diante do alimento não podia satisfazer-se. Sem amigos, sem alimento, totalmente alheio a um local em que pudesse abrigar-se, o gaki nada mais haveria de fazer do que perambular em sua existência errática.

Passaram-se alguns meses, sem que qualquer incômodo fosse sentido no ambiente. Talvez o gaki, da maneira como podia ser entendido, não deu sinais que pudessem comprovar sua existência. Numa ocasião, após o lanche da tarde, não pode limpar as migalhas de bolo esparramadas na mesa. Deixou para o outro dia. Entretanto, no dia seguinte a mesa estava limpa, como que alguém tivesse recolhido os restos. Não poderia ser, tentou afastar aquela idéia. De qualquer forma, não contaria o ocorrido para ninguém. Ou melhor, nada tinha acontecido que fosse relevante. Se falasse a respeito, poderia ser motivo de escárnio.

Se não pode com o inimigo, torne-o amigo. Não havia saída. Se o gaki era faminto, o melhor seria alimentá-lo. Não de qualquer forma, com as sobras. Colocariam uma travessa oferendas como frutas e doces, um pouco de suco, um salgadinho. Assim procederam. Ninguém tocava nas oferendas mas havia alegria da dona da sala com tal procedimento. Podia ser apenas uma impressão, uma superstição, que no entanto funcionava.

 

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