CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O Funeral conforme Juzu Itami

Em se tratando de um tema como o funeral, no mínimo seria pouco atraente, quando levado às telas do cinema. Seria uma provocação de mau gosto ou poderia se esperar algo totalmente diferente. É o que aconteceu na estreia de Juzu Itami, que escreveu e dirigiu Ososhiki – traduzido em português de maneira literal por O Funeral. Não passou por aqui em circuito comercial, mas mereceu uma exibição pela TV Cultura nos anos noventa.

 

 

Este filme produzido em 1984, pela Produções Itami, foi reconhecidamente uma ousada tentativa que valeu o reconhecimento outorgado pela Academia Japonesa de Prêmios, como de melhor filme, melhor diretor e melhor imagem. Antes, Itami teria trabalhado como assistente pela Daiei, chegando, inclusive, a ajudar o diretor Nagisa Oshima em Nihon Shunka Kô – Sing a song of sex. Tal foi o impacto de O Funeral, que em seguida, lançou Tampopo Os brutos também comem spagetti, exibido em circuito comercial no Brasil. O filme é de 1985. Possivelmente, Juzu Itami se tornou conhecido pelos apreciadores de cinema por este último.

Em O Funeral, Itami descreve os três dias que antecedem o sepultamento de Shokichi Amamiya, de 69 anos. Usufruindo de uma aposentadoria numa casa de campo, Shokichi era o pai de Chizuko, esposa de Wabisuke, ambos atores bem sucedidos, que devido ao acontecimento, abandonam as gravações a fim de participar daquele evento inusitado. Para eles, também, tratava-se de uma experiência totalmente nova. O que fazer diante desta situação? Ainda mais quando se trata do Japão, em que toda a formalidade é levada em consideração.

O diretor explora com bom humor, sem abusar nos exageros que possa ferir a sensibilidade dos moralistas, um comportamento que exige respeito à tradição, ao mesmo tempo a informalidade diante da situação incomum. O humor surge justamente ao quebrar a forma, quando isso é necessário, para que o ato não se torne mecânico. Ainda que aconteça no Japão, não quer dizer que todos sabem em detalhes o que deve acontecer em tais situações. Por isso, existe sempre alguém habilitado nestes assuntos, que teria vivenciado experiências, e que possa então auxiliar em tais momentos. Isso acontece: diz o auxiliar, como colocar o tabi nos pés do falecido. Os próprios familiares devem participar deste ato, cada um marcando a presença ao colocar o tabi branco no pé direito, outro no esquerdo.

Assim, os três dias transcorrem na casa de campo, onde a urna funerária era conduzida, em meio a uma chuva torrencial. Sem grandes alardes, a urna colocada na sala, outros dormem no mesmo ambiente, saboreando o cheiro de velas queimadas e o perfume do incenso. Precisam contratar um sacerdote para os ofícios de partida, mas verificam que naquele local não há um que pertença à tradição religiosa adotada pela família. Não é todo lugar que existe um monge da Shingon, por isso, resignam-se ao chamar um outro da tradição Jodoshinshu.

O curioso neste momento é que o papel do sacerdote coube a Chishu Ryu, um ator de prestígio nos filmes de Yasujiro Ozu. Quando jovem este ator, conforme a vontade dos pais, teria que seguir a carreira de sacerdote, justamente na tradição sugerida por Itami neste filme. Se Ryu resolveu enveredar pelos caminhos da arte cinematográfica, o papel de sacerdote desta tradição é como fosse uma homenagem que Itami prestou ao velho ator. Muitas vezes, a realidade deste mundo de samsara, o mundo fenomênico, que os japoneses chamam de shaba, é menos real do que a arte, distanciado também daquilo que os budistas chamam de Nirvana.

Considerando de que o cinema é uma alegoria a respeito da vida, através da imagem consegue mostrar uma faceta que nos escapa ao mergulharmos na mesmice do cotidiano. Não é o caso do poetas, artistas e monges budistas. Mas o cinema através do olhar, focado na câmera, consegue obter resultados surpreendentes. Isso deve ser levado em consideração também neste filme de Itami. Num certo momento, a filha do falecido, Chizuko encontra um balanço feito de um tronco. Seriam as crianças os principais usufruidores do brinquedo. Mas estas estavam mais preocupados em permanecer na casa, bastante espaçosa, para correr e se esconder um dos outros. Mas Chizuko utiliza-se do balanço ao seu modo, subindo nele e fazendo com que movimente na horizontal. Ela se encontra em pé, com uma das mãos segurando na corrente que sustenta um dos lados do brinquedo. Os movimentos aumentam, enquanto ela se equilibra, em momentos de suspense e tranquilidade.

Situações engraçadas surgem no decorrer do funeral, sem cair no sarcasmo, pois pelo que se verifica, naquela cultura a morte é vista por um prisma menos preconceituoso. Existe uma naturalidade em aceitar o inevitável, da condição humana. Desejar a imortalidade não passa de uma ilusão, comuns dos deuses gregos. Não é esta a questão a ser considerado.

 

 

FRANCISCO HANDA

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