CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O lobo e o filho

Muito estranho é quando um aventureiro assassino percorre o Caminho do Inferno – Meifumado – levando consigo o filho de três anos, como que este tivesse que submeter-se à vontade do pai. De fato, incomoda. Ao mesmo tempo o incômodo atrai pela sua ousadia, quando a realização deste acontecimento faz parte de um mito, criado através da ficção das HQ ou na linguagem mais apropriada: mangá.

Quando Itto Ogami ainda pertencia aos escalões sociais da burocracia do clã Tokugawa, que passou a governar o Japão do século XVII, na função de kaishakunin, nada havia de excepcional, senão a de desempenhar a sua tarefa. Um kaishakunin era o responsável de dar o golpe de misericórdia ao condenado a cometer o ato de auto-imolação – o seppuku. Posto desejado por Retsudo Yagyu, que numa conspiração condenou-o a admitir traição junto ao seu senhor. Ao recusar tal acusação, negou-se a morrer justamente a realizar o seppuku. Ao invés disso, tornou-se um fora da lei, até que pudesse vingar-se de Retsudo, responsável pela sua desgraça e assassinato de sua esposa e todos seus serviçais.

 

 

Antes, submeteu o próprio filho, Daigoro, poucos meses de idade, a uma prova. De um lado, espetou a espada no tatame, do outro pôs uma bola. A escolha seria do menino. “Se escolhesse a bola, ele se uniria à mãe, talvez fosse melhor”. Entretanto, não aconteceu. Daigoro passou a viajar num carrinho de bebê, bastante rudimentar, fortalecido com chapas de metal e uma suposta metralhadora na parte dianteira. Lateralmente, lanças e alabardas eram disfarçadas como anteparos do carrinho.

O papel de Daigoro nesta série tem uma importância primordial. É uma criança especial, educado pelo pai às intempéries da vida, principalmente àquela que tiveram que escolher. Poucas vezes Daigoro fala, somente o essencial. Em sua voz quase grave, pode-se ouvir emitindo um misterioso Chan. Um longo Chan, que se referia ao pai, talvez o diminutivo de Otôchan.

Por inúmeras vezes Daigoro foi deixado só no portal de um templo abandonado, ou  em ponto qualquer que pudesse ser encontrado depois. “Por três dias ficarei fora”, disse Itto. Deixa rações suficientes para a sobrevivência, uma provisão com água. Caso não retorne da missão, Daigoro deve se virar por conta própria, ensina o pai. Parece cruel, não para um filho de samurai. Desde cedo, o menino é treinado a perseverar, sem ceder a misericórdia dos mercadores, das mulheres que se apiedam diante de uma criança indefesa. Não se trata de Daigoro, com certeza.

Mas ele continua sendo uma criança. Não pode ter tudo que deseja, sabe disso. Nem mesmo um lar tem direito, senão a de acompanhar o pai em sua derrocada, sem passado para ser lembrado, sem futuro estável em algum desejado. O único objetivo é o de retornar a Edo, mas antes, terá que trilhar a difícil senda infernal, aceitando trabalhos de assassinato, mas principalmente enfrentando os homens de Retsudo. A vida de Daigoro se confunde com a de Itto Ogami, sem separação seja na morte, seja na vida.

Por isso, Daigoro é colocado à prova diversas vezes, cuja fraqueza poderá significar o seu fim. É justamente na ausência de Itto que Daigoro revela a sua perseverança em viver como criança, mas diferente das demais. Certa vez, Daigoro visitou uma feira em que brinquedos estavam postos à venda. Desejou um deles. Na mesma feira, havia uma ladra, que surrupiou uma carteira. Entregou a Daigoro, que na posse dela usou parte do dinheiro para comprar o brinquedo. Descoberto, Daigoro foi conduzido preso e exposto em público para receber golpes em suas nádegas. Em momento algum, entregou a culpada. A própria ladra, penalizada, reconheceu o erro e admitiu ser ela a responsável pelo roubo. Ainda assim, ele continuou negando ser ela a ladra.

Não teria sido este a primeira vez que “foras da lei” teriam cruzado o caminho de pai e filho, do lobo solitário e seu filho lobo. Prostitutas e assaltantes também acabaram tendo experiências semelhantes com os dois. Nem todos que estavam à margem eram totalmente maus e o mesmo se aplicava aos que estavam conforme a lei em sua suposta bondade. Mas se não havia um divisor de águas entre o bem e o mal, o que poderia ser considerado a maneira correta de agir na ausência de referências. O próprio Itto não estava preso a códigos de honra, como os samurais ao trilhar o Meifumado.

Entretanto Itto tinha uma postura ética de conduta, às vezes compassiva, às vezes cruel, sem se deixar deter pelas emoções, paixões desenfreadas, descontrole dos seus ânimos. Era o que também norteava a vida de Daigoro.

Havia entre pai e filho, sobretudo uma profunda cumplicidade em que os olhos de um eram os olhos do outro, as mãos, o mesmo coração. Não se pode dizer que os orientais têm uma afetividade exacerbada como os ocidentais, ao abraçar os filhos, o que não se aplica a Itto Ogami. Após ausência, a preocupação de Itto é tamanha ao não encontrar o filho.  Naquele momento que os corpos se unem, é como nunca tivessem se separado.

 

FRANCISCO HANDA

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