CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O medo e o ódio em George Orwell

Dentre as obras literárias cuja característica é a distopia, o inverso daquilo que se denominava utopia, teve importância nos anos cinquenta, quando o mundo assistia um renascer do pós-guerra, após a experiência nefasta do nacional socialismo na Alemanha e da persistência do regime socialista histórico soviético de Joseph Stalin. Trata-se de George Orwell que lançava em 1949 uma obra incômoda chamada 1984. Apenas uma data, num futuro que seria desastroso.

Segundo Orwell a catástrofe das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki se repeteria ao ponto do mundo ser dividido em três continentes com as suas políticas igualmente totalitárias a fim de manter uma hegemonia política e militar. Eram eles Oceania, Eurásia e Lestásia. O autor não fala diretamente de Eurásia nem de Lestásia. Apenas de Oceania em cuja capital Londres o Ocidente vive uma história em que o único dirigente denomina-se Grande Irmão. O Grande Irmão tem um rosto, que surge na tela, como a de uma televisão (não existia ainda os computadores) que ao invés de ser assistido, é o aparelho que assiste os seus habitantes.

Nada pode ser feito naquele domínio sem que passe despercebido pelo Grande Irmão, que zela pelo bem estar de todos, vigia a todos, cuida de sua saúde mental e psicológica. Até mesmo em cada casa existe um aparelho, que tem olhos que a tudo vê. Nada escapa de seu contrôle.

Para a populalação daquela Londres sinistra,  resta não apenas atender ao contrôle do Grande Irmão, mas igualmente adorá-lo, pois somente ele tem o poder. Aos brados soltam as palavras de efeito como Vida longa ao Grande Irmão. Ao mesmo tempo que o Grande Irmão deve ser adorado e temido,  fomenta-se o sentimento de ódio. Assim, a adoração de um deve ser da mesma proporção do ódio contra o outro. Todo o diferente é motivo de ser temido, portanto odiado. Odeia-se os inimigos de Oceania, como Eurásia e Lestásia.

Quando esta situação se instala, a Londres de 1984, na ficção do romance, na história isso nunca teria acontecido, causando certo alívio. Ufa! Foi apenas um exagero literário. O Muro de Berlim caiu em 1989. A Guerra Fria também acabou, com o triunfo da democracia, dos princípios liberais e do capitalismo. O mundo seria livre e os países ricos liderariam a economia mundial, com a aliança dos paises em blocos dirigentes como a União Europeia, modelo para outros, principalmente América do Sul e América do Norte. Toda esta euforia tornava real a utopia capitalista de progresso e desenvolvimento. União econômica, depois a quebra das fronteiras nacionais, unidade política e cultural.

Uma distopia acaba se instalando, tardiamente ao ano de 1984, conforme George Orwell, mas depois desta data, na virada do século, nos anos que o século XXI dá os seus primeiros passos. Outros muros foram levantados, como aquele que divide Israel e a Cisjordânia, com 760 km. Bem maior do que o de Berlim, de 66,5km. Existe também outro entre os Estados Unidos e o México, que o atual governo americano pretende aumentar. Um corredor murado foi levantado na Hungria para a passagem dos refugiados sírios, em direção à parte rica da Europa. Esta Europa rica cada vez mais habitada por refugiados de língua diferente, cultura e religião, setores da sociedade resistem à presença indesejável deles.

Como no romance de George Orwell, o medo diante do diferente produz o ódio. Cada vez mais o ódio se faz presente. O medo é tão ameaçador que antigos grupos reprimidos, no caso do LGBT, ter passado para o lado dos repressores ao apoiar justamente a Frente Nacional da França, de Jean Marie Le Pen. Quanto maior é a ameaça da presença dos refugiados sírios, maior é o crescimento de partidos conservadores em diversos países da Europa, como na Alemanha, na Austria, na República Tcheca. O medo é irmão do ódio. Para Amos Oz, escritor israelense, em Do Amor e das Trevas, diz que o que o assusta não é a existência de repressores, mas de um dia os reprimidos tornarem-se repressores.

Quanto este fato se torna real, a figura do Grande Irmão também passa da alegoria literária para a dimensão da vida real. Não se trata apenas de um Grande Irmão, entendido como sendo um tirano que ocupa um posto de mando político. Estes se tornaram envelhecidos, idiotizados e atirados ao esquecimento. Mas retornam com suas vestimentas espalhafatosas imitando Henrique VIII ao liderar grupos religiosos tão parecidos a Londres de 1984. O Grande Irmão pode ser qualquer coisa hoje em dia, um âncora do jornalismo, um comentador político, um juiz, um formador de opinião, e de forma mais sutil, alguém que não aparece mas gera discurso que justifica uma atitude em proveito próprio ou de grupos e classes sociais interessadas.

Tal qual a profecia de Orwell, o Grande Irmão não tem um corpo próprio, nunca aparece em público, senão através do tubo da televisão. Desta forma, ele desempenha o seu papel em ver os outros sem ser visto. Ao invés de ameaçar a privacidade alheia, ser visto tornou-se um exercício da vaidade num espetáculo em que toda intimidade pode se transformar em deleite público. O Grande Irmão tornou-se programa de televisão com o nome Big Brother, cujos olhos se encontram do outro lado da tela. Olhos que bisbilhoteiam, intrometem-se, julgam e odeiam. Tudo isso é permitido, sem nenhum comprometimento e compaixão.

Um individualismo sem medidas torna-se fator comum da existência, sem se importar com o sofrimento alheio. O sucesso individual é suficiente para justificar atos egoistas diante dos outros. Os outros são apenas outros, que podem ser tolerados desde que não interfiram  em meus interesses.

Nunca a distopia foi tão atual.

 

 

FRANCISCO HANDA

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chicohanda@yahoo.com.br
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