CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O museu de Yoko Ogawa

Até então este nome seria totalmente ignorado por mim: Yoko Ogawa. Foi no ano passado que saiu pela Estação Liberdade a obra “O Museu do Silêncio”, traduzido diretamente do japonês, cujo original é de 2000. Antes desta, a Leya publicara “Hotel Iris”, cuja tradução, pelo que soube, foi a partir de uma tradução em francês. Quanto à obra, de 300 páginas, a autora (nascida em 1962), faz parte de uma geração nova de autores japoneses, cujo estilo, levando-se em consideração esta publicação, nada lembra a de seus antecessores. A narrativa é bastante fluida, sem complicações, nem exotismos que remetem aos tempos antigos. Pelo contrário, o universo deste romance poderia passar-se em qualquer lugar, inclusive no Japão.

Existe um narrador dos acontecimentos, que também é o personagem da narrativa. Em nenhum momento, os nomes destes são revelados, como que isso tivesse pouca importância. O lugar em que ocorre a história tampouco tem uma geografia revelada, a não ser o rochedo-branco, onde vivem os bisões. Numa determinada vila, uma anciã vive numa pequena propriedade rural, e que resolveu construir um museu e, desta forma, contratou um museólogo. É a partir das observações dele que todo a trama é construída. Não se trata de um romance dos amores desencontrados, cujo final é sempre previsível. Nada é muito previsível, mesclando mistério, policial, fantástico e uma dose de ironia em relação à vida.

O título “O Museu do Silêncio” tem algo de provocador, que pode aguçar a curiosidade do leitor. Que motivos teria alguém em montar um museu? Há museus temáticos como um que possui uma coleção de óculos. Num outro, em que visitei, de um industrial japonês, tudo aquilo que ele adquiriu em suas viagens. Assim, os temas podem variar bastante. Mas no “Museu do Silêncio” as coleções eram lembranças de pessoas falecidas daquela localidade. Qualquer pessoa, sem levar em consideração o mérito delas ou algum outro tipo de importância. Cabia ao museólogo conseguir estas peças, pelo menos uma, para ser exposto nas vitrines.

Que valor teria coisas como um olho de vidro de um homem que resolveu doar sua prótese ainda em vida, ou o bisturi de um médico cirurgião que realizava correções estéticas nas orelhas de suas pacientes? Aparentemente nenhum. Mas não era o caso deste museu. A velha que seria a dona do museu, também ajudava a catalogar as peças. Uma menina vivia com a velha, talvez alguém adotada, pois era muito nova para ser a filha de alguém tão velha. Ela igualmente ajudava nesta tarefa.

Toda vez que alguém morria, lá estava o museólogo para adquirir alguma lembrança para somar-se à coleção de velharias. Assim transcorria a vida monótona daqueles que habitavam a velha casa.  Sem nada de extravagante, catalogando cada peça que conseguissem. Um dia, quem sabe, o museu seria inaugurado e podiam cobrar pelos ingressos.

Nas cercanias existia além do pântano um mosteiro em que os seus ascetas usavam como vestimenta a pele de um bisão. Eles tinham feito um voto de silêncio. Havia uma relação de cordialidade entre os missionários e os demais do povoamento. Quando um deles morreu, a pele foi requisitada e levada ao museu. Eram bem diferentes aqueles, com as suas pesadas camadas de pelo. Possivelmente fazia frio na região. As estações também eram bastante demarcadas, com a despedida solitária do outono para os dias rigorosos do inverno. Os falecimentos eram mais frequentes justamente neste período, que apesar de aceitos, eram lamentáveis. Ao mesmo tempo que existia uma resignação com o mundo, esta condição não teria que ser comemorada. Havia, portanto, o Dia da Lamentação, por tudo aquilo que entristecia o homem, sendo a morte inevitável. Mais um motivo para lamentar-se.

Sem que o museu fosse inaugurado, pois as mortes continuam acontecendo, e novas peças serem expostas no museu, a própria dona acabou morrendo. O que restará dela, nada, a não ser uma bengala. Todo um universo simbólico constitui enfim a narrativa do romance de Yoko Ogawa. Resta a cada um interpretar estes símbolos em seus próprios museus do silêncio. Museus que existem no coração de cada um de nós.

 

FRANCISCO HANDA

FRANCISCO HANDA

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