CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O primeiro filme de Kenji Mizobuchi

canto-do-bacuri-chicoEntre os criadores do cinema japonês, no século passado, principalmente com o advento do cinema falado, não seria exagero considerar Kenji Mizoguchi como um dos mais notáveis. Nascido em 1898, faleceu em 1956, sem conhecer o cinema colorido. O Japão que vinha de uma tradição dos teatros de entretenimento, principalmente o popular Kabuki e Joruri (de bonecos), de alguma forma o cinema também vai beber na fonte do dramalhão, que tanto agradava a plateia. Esta influência é percebida, como no primeiro filme dirigido e escrito por Mizoguchi, “Elegia de Osaka”, em japonês Naniwa Hika, de 1936.

Teria ingressado ele na companhia Nikkatsu, em 1920, em que experiência no cinema mudo cuja linguagem é peculiar, com o advento do cinema sonoro, uma nova estética teria que ser criada através de argumentos e composição de cenários. Esta fase trata-se do neo-realismo, no qual a vida é retratada de uma maneira em que a modernidade confunde-se com o imenso vazio produzido por uma sociedade de relações superficiais e de interesse individual. A mulher é a principal protagonista, que sofre as consequências deste mundo mergulhado nas próprias mazelas. Ele próprio, Mizoguchi, teria vindo de uma família empobrecida, que devido as dificuldades de se inserir nesta sociedade de produção, seu pai fora obrigado a vender a própria filha para uma casa de gueixas.

 

Elegia de Osaka. Foto: reprodução

Elegia de Osaka. Foto: reprodução

 

Este acontecimento irá marcar profundamente as futuras obras cinematográficas de Mizoguchi, sem escapar do teor de natureza socialista, em que a opressão da mulher era um assunto a ser explorado como denúncia e discriminação social. Em “Elegia de Osaka”, a pobreza é pano de fundo que serve para ressaltar a vida que foi possível à Ayako Murai em conquistar uma melhor colocação na sociedade. Sendo o filme de 1936, bem antes disso, os acontecimentos narrados se tratam de Osaka, cidade de comerciantes, em que a indústria é fator de produção de riquezas e consequentemente da concentração de rendas. Existem os poderosos, como o dono da indústria farmacêutica em que trabalha Ayako. Nesta época, o Japão é considerado o pais mais industrializado em toda a Ásia.

O mundo retratado por Kenji Mizoguchi é feito de sombras, no reflexo do homem por trás da porta, bem no início do filme, também na escadaria da estação de trem. As sombras descem e sobem escadas, não revelando suas identidades. Serão muitas as sombras que habitam Osaka, quase sempre à noite em que a perversidade se torna mais evidente. Ayako acaba aceitando as investidas do patrão e acaba cedendo: não é a esposa, é a outra.

As câmeras fixas são utilizadas com bastante frequência em que as câmeras descem e sobrem conforme o movimento dos personagens. As tomadas contínuas são uma obsessão de Mizoguchi. As cenas são ensaiadas continuamente, para que não exista nenhum erro, até que a filme pudesse se realizar sem prejuízos.

A ligação com o teatro não poderia ser mais evidente, pois numa das cenas, o que se explora é justamente um espetáculo de Joruri. Estes bonecos são manipulados por pessoas que usam roupas pretas, na cabeça um saco de igual cor; para a manipulação de um boneco, em torno de duas pessoas, que fazem movimentar os membros superiores e a cabeça. O público assiste impassível, sem se importar com os manipuladores, como que estes não existissem. O destino dos bonecos se encontra nas mãos dos outros, que não possuem rostos. Bonecos são os personagens no drama da vida real, que após o espetáculo retornam para as suas caixas. O mesmo não acontece com a plateia, ente eles Ayako e seu protetor, cuja esposa surge e exige um reparo por ter sido passada para trás. Se na peça teatral, trata-se de uma tragédia, na vida real aproxima-se mais da comédia.

O próprio amante é consequência de uma sociedade que minou a sua potencialidade, dominado por uma esposa autoritária, nada tem esta a ver com a suposta submissão da mulher oriental. Pelo contrário. São outros os tempos, em que mulher na visão de Mizoguchi tem a capacidade de superar-se, ainda que o sofrimento não possa ser evitado. Seria Mizoguchi um dos primeiros feministas, que procurava entender toda a subjetividade que a mulher carregava em sua alma tão incompreendida. Eram outras as artimanhas usadas para conquistar o seu espaço num mundo com mínimas chances de conquistar sucesso.

 

FRANCISCO HANDA

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