CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O Silêncio inquietante de Scorsese

Existe a sensação de dúvida em se tratando de uma temática que gira em torno da fé católica em terras do Oriente. Que motivos teriam levado o jesuíta Cristovão Ferreira a se tornar um apóstata, quer dizer, renunciar a fé ao ser colocado em cheque o seu entendimento a respeito do amor e da compaixão. Os japoneses preferem o termo compaixão. Esta é a tônica do filme Silêncio, de Martin Scorsese, do ano passado, mas nas salas de exibição no Brasil somente no começo de 2017. Baseado no romance Silêncio, de Shusaku Endo, de 1966, relançado recentemente no Brasil pela Planeta.

Filmado nas matas de Taiwan, no início exibe um fundo de névoa densa, quase escuro, algo que provoca calafrio do que poderá vir pela frente. Em 1640 aportam nas proximidades de Nagasaki dois jesuítas, Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe, os últimos após o decreto da expulsão dos padres. Mergulhados na fé de sua missão, também na incerteza do antigo mestre Cristovão Ferreira ter abandonado Deus e se convertido ao animismo reinante no país, colocam a prova a integridade física e moral.

Alguns personagens são marcantes, pois a história não acontece apenas numa vertente cristã e ocidental, pelo contrário. De um lado, os miseráveis camponeses cristãos, seja os kirishitan, sendo martirizados por terem abraçado uma fé que viria a contrariar a organização ética e social em que o Japão vivia naquela época. De outro lado, havia os japoneses tradicionalistas, que comungavam princípios budistas e confucianos. Neste cenário polarizado aparece Kichijiro, o japonês cristão que se considera fraco. Os fortes morrem por aquilo que acreditam, não é o que acontece com Kichijiro. É o único de sua família cristã a abjurar de sua religião enquanto os demais são queimados vivos. Ele assiste e salva a própria pele. Apenas a pele, pois tem a culpa, e assim deve se arrepender e purificar-se. Não uma vez, mas inúmeras são as vezes que Kichijiro trai a fé, os amigos, o padre, e depois retorna para redimir-se. Para Kichijiro, Deus sempre ajuda os fracos, como ele, que continua neste processo de negação e arrependimento.

Diante do que mostra Kichijiro, o padre Rodrigues, o mais forte na fé e na perseverança não mede esforços para dar conforto aqueles que necessitam, reza missas e batiza. Sem padres, aquela comunidade de católicos proscritos chegou a recorrer a ajuda do mais velho entre eles, o ancião, que chamavam de Jisan, para os atos religiosos. Era o Jisan que repetia as ladainhas em latim, como tinha aprendido dos padres. O título padre é usado com regularidade pelos japoneses, como sinônimo de alguém elevado, mantenedor da sabedoria e defensor da fé. Nunca o nome Rodrigues é dito, mas apenas padore, à maneira japonesa.

Aquela situação irá mudar, e a tela se torna mais clara, como que o dia se tornasse claro, sem as nebulosas fumaças vulcânicas do começo. Por uma traição de Kichijiro, por trezentas moedas, Rodrigues é capturado por um inquisitor chamado Inoue. Este era um fiscal que a serviço do governo devia acabar com a religião estrangeira. Inoue é um velho, bastante idoso, da classe dos cavaleiros bushi, cuja atuação é marcante ao realizar diálogos com Rodrigues. Ele próprio diz não ter nada contra a religião mas que se apresenta como um perigo para o Japão. O padre insiste de que a verdade é universal e os ensinamentos cristãos são a verdade e que devem ser implantadas no Japão. Inoue discorda de tais verdades. O exemplo dado por ele é de que uma árvore pode frutificar em determinado lugar, o que não ocorre num outro.

Existe uma estética no filme, na cena em que os guerreiros bushi estão perfilados em bancos sem encostos num jardim de pedras. Algo que se assemelha a Ran, de Akira Kurosawa. A intenção de Scorsese é válida, o filme transcorre com beleza e tensão, mas não se dá conta do silêncio, como sugere o título, numa versão de uma obra escrita. Dizem que as obras escritas adaptadas são inferiores quando levados para o cinema. Não posso afirmar que sejam realmente inferiores, mas são outras obras que erram justamente nos vazios do romance. O romance sugere, o filme quer mostrar com as todas as cores.

Num certo momento, depois de Rodrigues ter abandonado a fé cristã, pelo menos na formalidade exigida por Inoue, confessa de que Deus se manifesta no silêncio. É o suficiente para o filme terminar. Mas Scorsese não se contenta com isso, o Deus de Scorsese deve se manifestar depois que o silêncio se instala, por pura intervenção humana. Acabou o mistério para surgir a dúvida. Toda estética do vazio se perde e a resposta é dada da maneira mais esdrúxula.

Antes disso, situações em que o embate cultural se dá no campo da fé. Até que ponto a fé é estar apegado a sinais religiosos, monumentos e insígnias do que o abandono disso tudo e salvar fiéis de uma morte violenta ou martirizados? A compaixão seria salvar. Somente a compaixão seria a fé levada às últimas consequências. Enquanto isso não se dá, Rodrigues deve ouvir: “você não merece ser chamado de padore, pois nada faz para salvar os outros”.

Conforme Inoue não teria sido ele o responsável pela derrota de Rodrigues, mas provocado pelo pântano, uma analogia do que seria o Japão. O que seria o pântano, afinal, numa linguagem oriental? Fica apenas a dúvida.

 

FRANCISCO HANDA

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chicohanda@yahoo.com.br
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