CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O último filme de Kenji Mizoguchi

Um ano após ter feito Akasen Chitai, de 1956, o diretor Kenji Mizoguchi veio a falecer aos 58 anos, prematuro para quem poderia produzir muito em obras polêmicas e de grandeza estética. Distribuído pela Daiei Film, Akasen Chitai, cujo título em inglês é Street of Shame, Rua da Vergonha, também conhecido por Red Light District, Distrito da Luz Vermelha, tem por protagonistas algumas das profissionais do sexo do Bairro Yoshiwara, em Tóquio. O assunto se mostra chocante, a exploração feminina no pós-guerra, num país que tenta se adaptar aos tempos modernos de recuperação econômica e de ajuda dos financistas americanos. Este Bairro Yoshiwara existia desde os tempos antigos, do período Edo (XVI-XIX), do Shogunato Tokugawa, consequência da urbanização e do aparecimento dos comerciantes.

 

 

Por isso, falar de Yoshiwara não assusta os japoneses que o associam a profissão tão antiga. Entretanto, neste filme de Mizoguchi, toda a sua mazela é mostrada de forma cruel devido as contradições de uma existência calcada na miséria humana, não apenas material, mas na decadência do espírito e transformação em mercadoria tudo que possa gerar capital. É o caso de Mickey, no papel de Kyo Machiko, que ingressa nesta vida para se vingar de seu pai, um rico empresário de Kobe. Nem seria a pobreza, o motivo que justifica esta vida incomum. Seria o pai, que despreza a mãe, alguém que consegue enriquecer, mas oculta comportamentos nada compatíveis com a figura de um chefe de família que deve mostrar à sociedade uma faceta de moral inabalável. No Japão que se recupera da guerra, os novos ricos corrompem-se com as facilidades do capitalismo em ascensão.

A própria Mickey, tão americanizada, com calças apertadas, como das atrizes de Hollywood, vislumbra uma transformação de padrões a fim de se adaptar aos tempos modernos. As demais colegas do Dreamland, bem ao contrário, ainda estão presas a um passado que cada vez mais se torna desencantado e fora de moda. Os quimonos destas parecem deselegantes, pois suas usuárias não possuem a classe das gueixas e nem a nobreza das mulheres dos palácios. Andam com os ombros caídos, as faixas soltas demais, denotando uma vulgaridade que rebaixa a mulher japonesa e a beleza dos quimonos usados com esmero. Não é o que acontece com Mickey, mais parece um personagem das ruas de San Francisco ou Paris.

Para produzir o cenário de Yoshiwara, os estúdios foram usados, com ruas que lembram os corredores de madeira no interior dos castelos. Uma espécie de deformação nas paredes, torna o ambiente artificial, como as cidades inventadas nos filmes de ficção científica. Como fosse algo que pudesse existir num mundo paralelo, em que as lâmpadas neon iluminam demais, sem deixar lugar para as sombras.

O momento histórico em que retrata o filme, o Dreamland vive momentos de indecisão quanto a sua existência. Numa das conversas, o seu proprietário mostra indignação, pois o parlamento japonês discute se a prostituição deve acabar ou ser tolerada. Diz ele que depois que os americanos chegaram, o próprio governo teria incentivado esta prática como forma de combater a miséria. “Temos um compromisso social”, afirma mostrando convicção naquela atividade. A existência da casa ajuda a manter famílias diante das dificuldades passadas por aquelas mulheres, que nem pensam em outra possibilidade, além daquela oferecida. Mostrar a condição apresentada não inibe Mizoguchi ao avançar neste tema que, apesar de angustiante, tem momentos de ternura. Não se tem que ocultar uma passagem dramática do Japão do pós-guerra, que no momento da recuperação submete-se às maiores dificuldades.

Uma das personagens é Hanae, uma senhora casada e com um filho pequeno, que também é uma das empregadas do estabelecimento. O marido desempregado, sem muito ânimo, contemporiza-se naquela situação. Muitas vezes o próprio marido vai até a casa para buscar a esposa que, no caminho de volta, resolve jantar num pequeno bar. A maneira crua de Mizoguchi retratar a vida que determinadas famílias, principalmente as esposas, expunham-se a fim de sobreviver causa ao mesmo tempo incômodo e compaixão. Não se pode julgar o comportamento destas, que Mizoguchi, ao contrário, eleva numa categoria de mulheres fortes.

Se os homens fazem a guerra, a consequência é para todos. O alto preço a ser pago não deve ser esquecido. Bem próxima a esta zona de prazeres, no Distrito de Yoshiwara, localiza-se o Templo de Sensoji, um dos tesouros vivos do Japão, dedicado ao Boddhisattva Kanzeon, ou simplesmente Kannon Bosatsu. Trata-se do ser da compaixão, que a todos salva, sem fazer discriminação. Esta imagem teria sido encontrada por dois pescadores no rio Sumida em 628. O sagrado está tão próximo do profano, que torna o profano um tanto sagrado. Como grande admirador das mulheres, foi justamente com este filme, Mizoguchi despediu-se do cinema.

A trilha sonora lembra os filmes de fantasmas, que causa arrepio e mal-estar que deve transformar-se numa catarse. Tal como os fantasmas, a mulheres de Yoshiwara viviam à margem de tudo que poderia ser considerado tolerável.

 

 

FRANCISCO HANDA

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