CANTO DO BACURI – Francisco Handa: Oração para os ratos

Era um velho templo naquela cidade do interior. Quando chegava a noite, o vento carregava a terra vermelha que impregnava as paredes, carcomidas pelo tempo. Há muito, a café deixou de fazer a economia local. Depois da geada, pouco sobrou das antigas fazendas, além das ruínas das casas em que moravam os colonos. Nada mais havia do que desolação.

 

O próprio templo, construído nos tempos áureos, ainda abrigava um ancião, de cabeça calva, rosto limpo e seu manto negro, remendos aqui e acolá. Chamava-se Shinnyu Kimura, solteiro, chegado a estes rincões na leva migrante do final da década de trinta. Vargas no poder, inaugurara a fase da ditadura popular e paternalista. Ainda que não tivesse mais trabalho local, o monge Shinnyu permaneceu, desta vez apenas na função religiosa, pois tinha obtido o título através de um mestre, o primeiro desta tradição, instalado na capital.

 

Era disto que gostava. Acordava cedo, entregava-se ao primeiro zazen do dia, ainda com o sol encoberto pelo céu estrelado, que ele podia ver através da abertura da janela. Tratava-se da meditação ou uma anti-meditação do Budismo Zen.

 

Pouco havia para fazer. Mas ele entregava-se às atividades comuns de um monge regular: varria diariamente as cercanias, recolhendo as folhas caídas, galhos e papeis jogados pelos vizinhos. Não se importava em limpar. Este era o seu ofício. Preparava o próprio almoço, nada muito especial, um pouco de arroz branco, verduras, raízes e uma sopa de massa de soja.

 

Muitas vezes, ele encon­trava um pássaro morto. Próximo, ele juntava as palmas e orava baixinho. Tinha aprendido que todos os seres vivos mereciam respeito, para ele era também o corpo e a mente de Buda. Quando fazia isso, sentia-se bem, como tivesse realizado um feito louvável. Ninguém se importaria com isso, menos ele. Não que se sentisse alguém especial. Nada disso: poderiam rir dele, caçoar, fazer chacotas. “Lá vem o monge japonês com suas manias estranhas”, ouviu diversas vezes. Para ele, admoestações sem importância.

 

Havia outros que tinham grande estima por ele. Não procuravam entendê-lo, apenas apreciavam sua dedicação e sinceridade no trato com as pessoas e coisas à sua volta. Cuidado, que chegava ao ponto do exagero. Não para ele. Encontrou desta vez, ao lado do tanque, uma enorme ratazana, ainda com o corpo quente. Esticada, acabara de morrer. Ficou penalizado, como das outras vezes. Repetiu o procedimento. Tirou dos bolsos um rosário de sementes colhidos no campo, um alongamento de cento e oito contas. Por alguns minutos orou. Colocou o animalzinho num saco plástico e conduziu até os fundos do templo, o cemitério dos animais. Muitos tinham sido enterrados lá. Queimou incenso e fez uma dedicatória pós-morte.

 

Naquele local havia sepultado outros animais como gatos, cães, pombos, morcegos, rãs e outros de menor porte como besouros e baratas. Em seu altar, havia uma pequena plaqueta com uma inscrição relativa aos “três mundos”. Para ele, este era o entendimento. Tinha lido em algum lugar um ensinamento de Confúcio. O sábio chinês dizia de que todos os seres vivos deviam descansar em paz. Qualquer coisa que fosse, tratado com deferência. Ainda se lembrava daqueles dizeres: um inseto que seja, morto, faça um túmulo para ele, colocando sobre o local uma pedra.

 

Não se tratava, de fato, de um exagero, apenas uma forma de se relacionar com o mundo. Algumas pedras sobrepostas, como fosse uma escultura, tratava-se de uma stupa (monumento) em que servia de símbolo que lembrava os mortos. Havia neste ponto três: para os seres animais, os seres vegetais e seres inanimados.

 

De uma janela de um prédio vizinho, os olhos curiosos de uma criança apenas observava sem incômodo algum.

 

– Venha para dentro, você está com a lição atrasada – ouviu-se.

 

Naquele dia, tinha aprendido mais do que os livros didáticos poderiam ensinar.

 

Mais um dia tinha se passado.

 

 

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