CANTO DO BACURI – Francisco Handa: Os ossos brancos do avô

 

O sol despontava naquela manhã, marcando em vermelho o horizonte, que descerrava por detrás das montanhas, num céu azul escuro e entrecortado por manchas de nuvens, como fossem algodão doce. Naquele vale, ficava a pequena aldeia. Nas cercanias, as plantações de arroz, que naquele mês tornavam evidentes os grãos amarelos despontando. Quantas vezes, o menino Tonisaburo ajudara o avô a cortar num único golpe o maço de ramos de arroz. Havia uma técnica especial para tal façanha: puxar a foice kamá para a frente, enquanto a outra mão, que segurava os ramos, devia fazer o movimento inverso.
Uma saudade imensa do avô lhe abateu. Aos oitenta anos, resolveu partir. Muitas vezes teria chegado até o neto e o instruíra a respeito da vida. Achava estranho aquela atitude, como a de que eles pudessem nunca mais se ver. Talvez pensasse que fosse mais uma das excentricidades do velho, seu principal amigo. Quando ele morreu, chamaram um monge, de um pequeno templo de um povoado próximo. Este veio paramentado, levando nos braços um rosário de contas de sementes selvagens. Calçava um daqueles tamancos japoneses, o getá, que ao tocar no chão provocava um barulho impactante. O som daqueles tamancos ficou repercutindo nos ouvidos do menino por tempo indeterminado. O cheiro de incenso impregnou seu kimono novo.
Por um momento, que não pode medir, o monge ficou repetindo uma ladainha monótona e de pouco entendimento, no entanto todos permaneceram atentos. Não era japonês o que ele recitava. Mais isso não tinha grande importância. Depois da cerimônia, pode-se perceber uma tranqüilidade diante da situação inusitada. Para Tonisaburo, o avô apenas dormia um sono mais longo. Não se mexia, entretanto nem isso o incomodou. Por uma noite inteira, os amigos permaneceram na sala, conversando amenidades, tomando goles de saquê e comendo bolinhos de arroz com conservas de nabo.
Para onde foi o vovô – perguntou o menino.
Foi para longe, ele não volta mais – reagiu a mãe.
Mas o que ele foi fazer lá – insistiu.
Aquela conversa estava começando a aborrecer. Foi para um canto, aos fundos da casa e ficou olhando a noite acender as primeiras estrelas.
No dia seguinte, o cortejo seguiu em direção ao crematório, distante da aldeia, local em que existia um antigo depósito. Uma chaminé anunciava se algum corpo estava sendo cremado. Podia se ver da aldeia, a partida de alguém. Quando se pensava: “os velhos se vão e os jovens não ficam mais nesta aldeia”. Era, então, um mal pressentimento. Poderia haver a falta de mão de obra para as colheitas. De certo, a cidade grande acabava sendo chamariz com suas indústrias e escritórios. Logo, a aldeia ficaria entregue apenas à memória dos mais velhos e de uma oficina de confecção de cerâmicas.
Quando chegou ao crematório, o encarregado, cerca de quarenta anos, de pele trigueira, talvez chamuscada pela fuligem, se fez anunciar.
Bom dia, esperam nesta sala. Só um pouquinho, tenham paciência.
Um leve movimento do pescoço, serviu de mesura, demonstrando ao mesmo tempo concordância e respeito. Aquele era um serviço de poucos, nem sempre desejado, mas necessário. Era uma tradição entre os membros de uma família. Dizem que no começo, a cremação ocorria ao ar livre, com a colocação de galhos secos diretamente sobre o corpo daquele que se ia. Havia uma espécie de pira, que servia de base para acomodar o corpo frio e coberto com panos brancos. Seria este um ritual que perdurara em todo o oriente.
Quando os ossos foram trazidos, numa espécie de caixa, foi quando o pequeno Tonisaburo arregalou os olhos:
– O vovô ficou totalmente branquinho. Estes são os ossos dele, como tingidos de cal.
Aquietou-se depois que a mãe franziu a testa em desaprovação.
Com um par de hashi a mãe catou os ossos de uma caixa, entregando-os para o menino, que também usando hashi recolhia-os ainda suspensos. Com emoção contida, aquele serviço foi executado. Havia apenas um sentimento de vazio, que somente o silêncio poderia preencher.

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