CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Pecados do mundo conforme Shohei Imamura

Antes de iniciar a sua trajetória como diretor de cinema, Shohei Imamura foi auxiliar de Yasujiro Ozu, em obras como Tokyo Monogatari (Uma vez em Tóquio, de 1953). Mas diferente de seu mestre, Imamura preferiu temas mais densos, o suficiente para ganhar duas Palmas de Ouro, no Festival de Cannes, com Narayama Bushiko (Balada de Narayama) de 1983 e Unagi ( A enguia; The Eel) de 1997. Estes dois são bastante conhecidos, mas não chega a incomodar como Fukushu suru wa ware no ari (Vengeance is mine), estrelado por Ken Ogata, que atuou também em Balada de Narayama.

Este filme (Vingança é minha – da nossa tradução do título em inglês) foi produzido em 1979, pela Shochiku, tendo como original uma novela escrita por Ryuso Sakai e roteiro de Masaru Baba. A narrativa de Imamura é feita através de flashes após a prisão do assassino Iwao Enokizu, papel de Ken Ogata. De certa forma, o desempenho de Ken Ogata não permite o filme cair na monotonia, pois se trata de mais de duas horas de exibição. Poderia ser mais curto. Não é o que fez Imamura.

São vários os símbolos presentes neste filme, cuja temática não é das mais suaves. Filmes como estes, de assassinos convictos, podem parecer repetitivos pois nada se renova em que explora a violência como atração para os de gosto mórbido. Mas não só da violência que Imamura aproveita para contar estes acontecimentos.

 

 

Em meio ao sangue derramado, algumas cenas fazem do cinema algo poético que dá significado às contradições da vida. Numa delas, o assassino Iwao passa apressadamente por um pé de caqui, carregadíssimo, anunciando o pleno outono. É justamente no outono, que os dias ficam mais escuros e uma certa melancolia acaba se instalando na alma daqueles considerados sensíveis. Algo do passado torna-se evidente, em que os demônios e fantasmas que não desejam ser enterrados voltam a assombrar. O caqui que morde Iwao é amargo, como foi amargo o assassinato cometido antes.

Que motivos teria Iwao ao matar sem emoção as suas vítimas? Isso pode remeter ao passado. Talvez fosse a vontade de matar o pai, Rentaro Mikuni, que acaba casando-se com a própria esposa. A esposa é Kazuko Enokizu, no papel de Mitsuko Baisho, num dos desempenhos mais polêmicos e provocantes de sua carreira. A atração pela nora, desta pelo sogro, acarreta num tabu e pecado conforme a fé católica. Seriam Rentaru, o filho Iwao e a esposa-nora Kazuko todos católicos, comungando o peso deste dogma em que o tormento confunde emoções de sedução, amor, traição e vergonha. Não se sabe direito se seriam estes os motivos para Iwao tornar-se num assassino.

O pai Rentaro tem uma presença marcante, de pecador, portanto necessitando purificar-se constantemente. Assim, ele faz despejando um balde de água de poço sobre a cabeça e seguindo com o sinal da cruz. É o ritual xintoísta conhecido por misogi, que no Japão tornou prática comum, inclusive entre os católicos? Rentaro é um fraco, como sempre foi. No tempo da guerra cedeu o próprio barco de pesca à marinha japonesa, que o reivindicou em nome do Imperador. Quanto a isso, nunca Iwao perdoou o pai.

Falemos mais um pouco das cenas, que tão bem soube mostrar Imamura. Numa das tomadas iniciais, quando o detetive Kawai interroga Iwao, aos fundos aparece a janela com grades. Neva lá fora, uma fofa neve a cair suavemente. Numa cena seguinte, a tomada é inversa: enquanto neva do lado de cá, atrás das grades encontra-se Iwao, a contar os dilemas da vida. Sempre existe uma grade que separa os mundos. Numa outra situação, o pai visita o filho detido na prisão, cuja separação entre ambos é uma tela metálica. Através desta tela, a câmera mostra Iwao e uma pintura de uma imagem na parede. É a imagem de Miroku Bosatsu, o Buda do Futuro.

Não se trata de uma narrativa linear, retomando o passado próximo, o distanciado, para retornar novamente ao presente. Enquanto isso, o assassino vai tirando a vida de todos que passam a fazer parte de sua rotina, inclusive da única mulher que o amara, Haru Asano. Mesmo sabendo de sua condição de assassino, com ele tinha decidido ficar para sempre. Para ela, a vida de exploração numa casa de encontros, de sua própria mãe, era uma condição de enorme tormento. A sua mãe, por outro lado, só se contentava em ganhar dinheiro, inclusive prostituindo a própria filha.

Neste mundo mostrado por Imamura, os anos sessenta, de grande recuperação econômica do Japão, tinha um lado horrível: todos eram culpados pelas aberrações da condição humana. Iwao encarnava o mal, que a sociedade alimentava em seus habitantes. Talvez, aqueles merecessem morrer, sendo Iwao a maior das vítimas por ter de acabar com o mal presente no corpo e mentes das pessoas. Iwao pode ser considerado o que de pior pode existir no mundo: um vagabundo, que se presta a aplicar golpes e matar. Em momento algum arrependeu-se de seus pecados, mas não perdeu a fé em Deus. Um Deus que fez um mundo injusto, e não seria ele a contradizer esta vontade e assim agindo conforme a Lei. Ele era um simples pecador, que poderia ser perdoado ainda um dia.

 

 

FRANCISCO HANDA

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