CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Primavera Tardia de Yasujiro Ozu

Conhecer o cinema japonês é adentar num universo em que se busca o equilíbrio entre a simplicidade e as imagens poéticas. Não é por menos que o diretor Yasujiro Ozu nomeou de Banshun – “Primavera Tardia” para contar uma história singela, antes escrita pelo novelista Kazuo Hirotsu, que na produção editorial chamou-se “Pai e Filha”. Esta película é de 1949. Trata-se de um período do pós-guerra, ainda sob a ocupação dos Estados Unidos. Um novo Japão é mostrado, que ao invés de lamentar a derrocada, a Bomba Atômica, a dessacralização do Imperador, tenta se firmar como um país moderno que se esforça para reconstruir-se.

 

Primavera Tardia

Primavera Tardia

 

Falar do novo exige uma nova tomada de consciência. Alguns heróis são tomados de empréstimo do cinema antes da guerra, como Chishu Ryu e Hara Setsuko. A grande deusa do cinema é também uma criação de Ozu, no caso de Hara. A primeira vez que vi Hara Setsuko, numa sala de projeção da Fundação Japão em São Paulo, algo maravilhoso aconteceu comigo. Parecia que a conhecia de meus sonhos do passado, como que reminiscências saltassem de repente da tela para os meus olhos. Fiquei desconfiado, até quanto não a conhecia? Já teria visto aquele rosto, tomando conta de toda a tela, num sorriso largo e contagiante. É como que sorrisse para mim.

Uma das formas de Yasujiro Ozu usar a câmera é mostrando de frente o rosto do ator. Naquele momento, um personagem que fala com o outro, que na sala de projeção é como falasse diretamente com o público.  Para mim, não existia público algum, apenas eu na sala escura. Outra observação é a utilização constante da câmera baixa, muito apropriado para uma sociedade em que se senta nos tatames, com as pernas dobradas.

Numa das cenas iniciais, a personagem Noriko anda de bicicleta ao lado de um futuro pretendente. São minutos em que a música de fundo substitui as possíveis conversas, totalmente dispensáveis. Mostra-se em close o rosto de Noriko, também o do rapaz, que sorri de um lado, como resposta o sorriso do outro. Uma grande descoberta: o sorriso de Hara Setsuko. O passeio se realiza ao lado de uma praia, totalmente tranquila, para finalizar num ponto em que uma placa da Coca Cola indica o caminho, seguido por eles. De fato, agradar os americanos estava na moda, pelo menos se ensinava assim. Eram os americanos que zelavam pela recuperação do Japão, e assim se tornar um futuro aliado nas transações capitalistas. Assim ditava o Plano Marshall (1947).

A trama deste filme é aceitação de padrões novos em relação à família, como a felicidade dos filhos e abdicando-se, em parte, da obrigação confucionista de cuidar dos pais velhos em detrimento à própria vida. Nesse ponto, Ozu é um renovador de costumes e padrões. Se os pais tiveram a chance de serem felizes no casamento, na maternidade, na realização de suas vidas, o mesmo deveria ocorrer com os filhos. Noriko com 27 anos, filha única de Somiya Shukichi (Chishu Ryu), terá poucas chances de se casar se deixar para depois. Mas ela não quer deixar a vida que leva ao lado do pai, que conforme ela diz, pois depende de seus serviços como trocar o colarinho da camisa, fazer a barba sozinho.

Um dos momentos memoráveis do filme é quando filha e pai vão assistir a um espetáculo de Noh, num teatro pequeno, com as bancadas tradicionais, que ficavam na lateral. Assistia-se em seiza (sobre os joelhos) num zabuton (almofada). Um pouco mais de sete minutos de cena em que o espetáculo acontece enquanto algo misterioso, num jogo de câmeras, de rostos e sorrisos qualquer fala quebraria a harmonia e as emoções fortes e cúmplices. Cúmplice foi o sorriso de Somiya que dirigiu à senhora Miwa, muito apropriado para se tornar a pretendente a casamento. O rosto de Noriko se transforma, corroída de cíumes, pois o pai traíra-a a confiança. Seria então a outra a cuidar do pai. Foi esta uma artimanha do pai para que a filha aceitasse encontrar-se com Satake, um professor de sucesso da Universidade de Tóquio.

Esta obra de Yasujiro Ozu foi considerado em 2012 pelo Greatest Films of All Times do British Institute como um dos quinze melhores de todos os tempos. Foi lançado no mercado americano em 1972. Faz parte da Trilogia Noriko, em que Hara Setsuko faz personagens com o mesmo nome: Bashuku, de 1951, e Tokyo Monogatari, de 1953.

 

FRANCISCO HANDA

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