CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Representatividade entra em coma

Mais de uma vez, inúmeras, muitas foram as vezes que se tornou comum ouvir termos depreciativos à democracia como “o povo não sabe votar”, colocando-se os que assim afirmam acima do saber popular ou da vontade popular. Ainda que a vontade popular não se coloque a serviço do interesse de algumas classes ou instituições, o voto seria a forma mais direta de exercício da cidadania e do aperfeiçoamento democrático.

Não há necessidade de concordar com a opinião de determinadas classes, seja ela a média, seja a baixa, a dos sindicatos ou a dos empresários, entretanto deve ser respeitada. Este é o exercício da democracia. Ainda que apresente falhas, a democracia é ainda o melhor dos sistemas de representação. O inverso disso seria o autoritarismo em que deprecia a vontade legítima dos votos e da vontade popular.

O que existe atualmente é a democracia representativa, que necessita ser melhorada. De maneira pensada, seria a melhor das formas de governo. É necessário que a democracia não se torne numa idealização que se perderia num rompante utópico. Nascida na Grécia, a democracia era um exercício direto do cidadão, que podia pronunciar na tribuna em seu próprio nome, pelo interesse da cidade, chamada pólis, e dos seus habitantes. Assim era Atenas. Possuía os seus limites, pois as mulheres não tinham este direito, nem estrangeiros e nem escravos. Um cidadão que vivia longe da tribuna, que tinha os seus afazeres, deixava a vida política para os cidadãos mais ricos.

Acontece que bem mais tarde, nos Estados Unidos, que a democracia ganha versões modernas e de representatividade. Por representatividade entende-se outorgar o poder a um outro, como representante de sua vontade.  Votamos em representantes, sejam eles no executivo, seja no legislativo, como o presidente da República, os governadores, os prefeitos, também os do senado, da câmara dos deputados federais e municipais. Estes são eleitos para exercer um poder temporário a fim de defender o interesse da população. Um eleitor permite que o político, ou seja, o seu representante, fale em seu nome e defenda os seus interesses.

A representatividade é um acordo entre o eleitor e o eleito. Entretanto, a representatividade não acontece da maneira planejada, ou idealizada, portanto deixa de existir. Assim, o político dependente da vontade popular para eleger-se, assim que assume o posto age de maneira inadequada em proveito próprio, na carreira política e nos negócios do poder. Não representa mais a vontade do eleitor. Por ironia, outro termo pejorativo que se ouve é a de que “o político é um corrupto”. Vamos acabar com a corrupção é a vontade de todos, inclusive do próprio político em sua campanha à eleição e à reeleição. Outra associação ao político é a de ser um mentiroso.

O discurso que se faz na campanha nada tem a ver durante a sua gestão. Prometendo ser apenas um gestor, quer ser um carreirista. Para quem é prefeito, melhor do que isso é ser governador. Todas as promessas na campanha a prefeito são abandonadas, principalmente a de terminar o mandato. Não foi a primeira vez. Mas logo o eleitor se esquece e acaba cometendo o mesmo erro em situações novas. Quem é governador, quer ser presidente. Quem é vice-presidente, planeja assumir o posto almejado, como em Hamlet, quando o usurpador Claudio, irmão do rei, envenena o rei e casa-se com a esposa deste. Naquela peça de Shakespeare, uma das frases ontológicas é “há algo de podre no reino da Dinamarca”.

Não se pode afirmar que a corrupção seja uma doença que afeta apenas os políticos. Estes são um segmento da sociedade, que se corrompe por aceitas ou exigir uma gratificação, enquanto do outro lado estão os corruptores, empresários inescrupulosos que se beneficiam na negociação. São empresários dos setores mais variados de produção, como engenharia, fornecimento de alimentos, doleiros, capitalistas, empresários.

Se a corrupção em grande escala seja uma maneira imoral de obter vantagens em prejuízo da sociedade em geral, eliminar os políticos não é suficiente. Num sistema de democracia representativa, é necessário ter os representantes. Tirar alguns destes políticos e substituir por outros, em que a corrupção esteja distanciada de suas práticas, ainda se corre o risco da contaminação num sistema de troca e de interesses implantados de tempos antigos.

Alguém disse que pelo voto podemos tirar os maus e colocar os bons, mas isso é temerário. Até que ponto os bons conseguem se manter bons, sem cair no canto das sereias. Em momentos de incredulidades, ninguém me representa de fato e de direito. O exercício da democracia é o de votar, igualmente de não votar em ninguém. Algo deve acontecer para que esta situação mude, quer dizer, mudar o sistema de representatividade. Enquanto isso, teremos palhaços políticos, jogadores de futebol políticos, apresentadores de televisão políticos, como que isso pudesse mudar. Hoje temos pastores políticos, que deviam se preocupar mais com o seu rebanho. A mudança deve acontecer a partir da atitude dos representantes e dos representados. Caso contrário um foço enorme separará o interesse do eleitor e do elegido.

Até que isso aconteça, para quê votar?

 

FRANCISCO HANDA

FRANCISCO HANDA

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